Prezados,

O tão desejado grau de investimento – o Brasil já foi assim classificado pela S&P e pela Fitch – é voltado para o mundo de investimentos e aplicações financeiras. O crédito interno – tanto comercial, como bancário – não é o alvo principal destas agências.

Tratemos primeiro das “linhas gerais”: quando alguém lhe aprova uma linha de crédito – seja um banco, uma financeira, uma seguradora de crédito ou varejista -, sua maior preocupação será identificar como estará o ambiente econômico da sua empresa (faturamento, geração de caixa, etc.) ou do indivíduo que está tomando dinheiro (i.e. sua condição de emprego) na época do repagamento.

Primeira conclusão: neste quesito, a oferta de crédito tende a aumentar, ao redor de 25%, se nada de mais sério acontecer na economia americana, se alastrando pelo “planeta emergente” (leia-se China, Índia, Brasil e similares). Empresas e individuos continuarão a ter uma boa oferta de crédito no Brasil, ao longo de 2008.

E o custo do crédito, cairá como é de esperar em um país sólido como o Brasil? Não! Vai aumentar. Por partes:

1. O Brasil – e o mundo – vive um surto inflacionário.

2. A inflação será combatida com aumento da SELIC, a nossa taxa básica de juros.

3. Isto naturalmente encarecerá as taxas cobradas por todos os agentes econômicos emprestadores.

E o spread bancário – diferença entre a taxa final cobrada e a SELIC – aumentará também? Eu acho que não, pois haverá liquidez sobrando e os bancos irão brigar pelos bons clentes, reduzindo o spread.

Para aquelas empresas que tem cacife para captar recursos no exterior, o momento é positivo para o Brasil. A nossa condição grau de investimento certamente aumentará o volume e os prazos dos empréstimos que serão ofertados para bancos, empresas e governos. O mercado de debt capital markets também terá apetite redobrado para risco Brasil. A situação só não está perfeita agora, porque com a crise do subprime americano, muitos bancos ‘puxaram o freio’ para novos empréstimos (não só para o Brasil!), o que, inclusive, encareceu um pouco a captação de recursos externos (coisa de 0,5% a.a., nada traumático, pois as taxas estavam muito baixas). Mas isto passa. Estimo que em 12 meses a situação estará normalizada – se não houver uma hecatombe global em gestação.

Mas nem tudo é ‘céu de Brigadeiro’, não! Com o grande fluxo de investimentos em direção ao Brasil, o Real irá se fortalecer – nada de novo aqui -, impactando diretamente empresas dependente de exportações, ou que sofrem concorrência direta de importações.

Portanto, se a sua empresa – ou o seu emprego – se enquadra nesta situação, sugiro que você tenha bons argumentos para justificar para os seus financiadores que ela continua merecedora de crédito. Do contrário, é possível que venha a sofrer corte de linhas, e/ou de prazos e maior exigência de garantias.

O mesmo raciocínio vale para aquelas que são impactadas pela inflação na sua cadeia de suprimento (e.g. certos químicos e petroquímicos), sem ter capacidade de repassar o aumento de preços para seus clientes. A rentabilidade e o fluxo de caixa se deteriorarão e os seus financiadores irão querer saber a solução para este cenário negativo – ou, pior, irão antecipar-se e cortar linhas como medida defensiva.

Muitos pensam que grau de investimento é só festa. Até é uma grande festa para alguns agentes econômicos, mas não é para todo mundo. Fique esperto.

À disposição para discutir o tema + abraços,

Fernando

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