No último post eu comentei sobre uma reportagem da Folha onde os endividados reclamavam da vida, lembram?

Pois é, nos meus 25 anos de carreira – e nos meus 46 de vida – eu nunca vi uma relação tão complicada como esta. E não falo só de banco, não. Aqui vale seguradora de crédito, financeira, etc.

É assim: dar crédito é uma operação de risco para quem estã ‘vendendo’ o produto (i.e, banco, seguradora, financeira). Estes agentes econômicos querem clientes – você e eu! -, mas é um querer assim, como dizer, meio estranho. Eles querem desde que tudo vá bem, eles emprestam, você paga, e por aí segue. Aliás, bom cliente – aquele que paga os juros em dia – não precisa pagar o principal nunca. Canso de ver gerentes dizerem, “Pagar para que? Fique com o dinheiro, faça uma bela viagem!”.

O negócio bancário (só para ficar com o agente mais popular do setor financeiro) é diferente de todo os demais. E isto tem que ser melhor entendido, do contrário todos se atrapalham ao lidar com o banco, ou ao analisar tais relações.

O grande negócio de banco é emprestar dinheiro (o resto é o resto); o negócio dos outros é fabricar e vender bens, distribuir (atacado e varejo) tais bens e/ou prestar algum tipo de serviço. Notem que há crédito em todas estas atividades também – e, portanto, também tem risco! -, só que nas demais cadeias de valor o crédito é um fator subsidiário, não o principal. Em bancos, financeiras e em seguradoras como a Coface, o negócio principal é dar crédito, é correr 100%  de risco o tempo todo.

É da essência do gerente destas empresas financeiras ser desconfiado o tempo todo. Ele não pode sair emprestando para quem quer. Assim como tem obrigação de cobrar – rápido – aqueles clientes cuja solidez não parece adequada. É do jogo, é ético, é profissional.

Ah, mas e a coitadinha da aposentada que parou de comprar remédio porque o banco lhe deu um crédito consignado e ela se enrolou toda? Não sei. Têm um monte de coisas que podem ser feitas, mas nehuma delas é de fácil solução, pois mudar regra no meio do jogo é complicado…

Vejam, nesta questão de relacionamento entre doadores e tomadores de crédito, há duas faces:

1. Há maus gerentes de banco, etc., que induzem o cliente a se endividar. Ele faz isto porque é a encarnação do demônio na Terra? Não. Ele o faz porque têm metas duríssimas para cumprir e fará o que precisar para cumprí-las. Até endividar velhinhas inocentes. Todos fazem? Lógico que não. Só aqueles que estão no aperto. Entre o emprego deles e as dívidas das velhinhas não tenha dúvida que a Lei da Selva (ou da Sobrevivência dele) falará mais alto. Os bancos incentivam essa prática? Lógico que não! Ou melhor, o fazem indiretamente, na medida que impõe metas tão duras. Mas esta é uma discussão metafísico-bizântina. Eu chamo de Capitalismo Acelerado! Mas é tema para outro blog.

Bom, mas na prática, e se o banco me sacaneou, você estar se preocupando: hoje dia, todos eles têm fortes áreas de Ouvidoria, e tem o Banco Central, e tem o Procon, e você deve ter um advogado para te ajudar a se defender. Mas só se tiver razão mesmo, do contrário só vai gastar tempo e dinheiro. Veja abaixo se você não faz parte deste grupo.

2. Existe uma infinidade de cidadãos que não tem noção como as dívidas destruirão com os seus orçamentos. Os juros no Brasil são altíssimos – e não falo desta discussão tola sobre Selic a 11% ou 13%. Para encarar dívidas que custam entre 60% e 150% ao ano tem que haver sobra no orçamento – e o mínimo de certeza que se estará empregado até o pagamento final. 

Digo isto porque imprevistos acontecem na vida de todo mundo: carros quebram, cunhados perdem o emprego (e nós também), pegamos doenças não/mal cobertas pelo plano de saúde., etc. E o sujeito deve no cheque especial (que é a linha de crédito mais cara), no cartão de crédito e no carnê do varejista!

Ora, pipocas, tudo isto é muito obvio, mas o cidadão parece que fica cego quando entra na Casas Bahia para comprar mais um eletrodoméstico novo (enquanto o filho estuda num colégio público de 5a categoria…), ou quando abre o jornal de domingo e vê todos aqueles automóveis novos com “juros negativos”. Faça-me o favor…

Concluindo, o Brasil vem surfando com competência a mais maravilhosa das ondas do capitalismo moderno. Só que este país é muito desbalanceado. O PIB pode está crescendo muito, e graças ao consumo, mas tem um bocado de gente que está com o Atestado de Óbito Financeiro  lavrado em vida – e não sabe! Depois não adianta culpar os bancos.

NO BRASIL, EDUCAÇÃO FINANCEIRA DEVE SER POLÍTICA DE GOVERNO! Deve começar na escola e terminar na fila do INSS – tem que ensinar criança e velhinho!

Abraços (não tãm bem humorados, pois o tema me irrita!)

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