Foi noticiado hoje que dos pouco mais de R$ 1 trilhão de crédito tomado no país, 34% referem-se aos chamados créditos livres, i.e. recursos que os bancos podem emprestar da forma que melhor lhes convier . Como assim? É que no Brasil existe um grande número de linhas de crédito com regulamentação específica, o que limita a estratégia dos bancos. Exemplos: crédito imobiliário, crédito agrícola, consignado em folha de pagamento, BNDES, entre outros.

Os bancos prefereriam que estes 34% fossem consideravelmente maiores, pois entendem que um maior liberalismo lhes traria maior eficiência no uso do seu funding e, na média, as taxas cairiam – existe uma tese que as linhas ‘regulamentadas’ são subsidiadas, o que encarece as linhas ‘livres’. O tema é controverso. De qualquer forma, estes emprestimos diferenciados são consequência de um sistema crediticio pré-histórico que vivíamos até recentemente. Creio que, aos poucos, estamos atingindo a maturidade, com os bancos assumindo um papel muito mais ativo e em linha com as aspirações da sociedade, emprestando dinheiro para a população e para as empresas.

Só que ainda temos que experimentar uma desaceleração da economia, para entender como bancos, financeiras e seguradoras de crédito reagirão, i.e. se cortarão radicalmente as linhas, ou como os spreads se comportarão.

Distribuição por tipo de linha de crédito – PF:

Também foi divulgado estudo da Febraban, que demonstra o perfil do endividamento das pessoas físicas por linha de produto. Abaixo eu identifico duas tendências positivas para o mercado:

  1. A relativa estagnação do caríssimo cheque especial, que cresceu ‘apenas’ 9,6% nos últimos 12 meses, quando o crédito como um todo cresceu 30%.
  2. O robusto crescimento do crédito imobiliário:84,8%, ainda que este represente uma parte muito pequena do todo (1,1%).

E abaixo eu listo o que não gostei:

  1. Crescimento do Crédito Pessoal (incluindo o Consignado) – 26,6% – e pelo fato de representar 44% do total. Acho que é muito dinheiro na mão de muita gente que não sabe direito controlar suas contas e conviver com dívida. Se o PIB cresce 5% a.a. e a renda das famílias ao redor de 8% a.a., o crédito poderia muito bem crescer ao redor de 15%, que já estava de bom tamanho!
  2. O crescimento de 20,6% do financiamento para aquisição de veiculos também não me agrada, pois são dívidas de prazo muito longo (acima de 36 meses). Sem falar que o brasileiro médio não precisa tanto de carro tão novo. Facismo? Qualquer um que viva entupido no transito de S.Paulo irá entender o que quero dizer. Tais recursos seriam melhor gastos em educação e saúde dos filhos.

Notem que eu não defendo que sejam criadas regras que definam onde e como o povo irá tomar seus empréstimos! Mas, como militante da causa da Educação Financeira, deixo bem claro a minha visao sobre o tema.

O governo insiste que não irá mudar as regras do jogo  (do crédito), com a criação de regulamentações que dificultem o acesso da população ao crédito. E eu concordo com esta visão do Ministro Mantega, pois garante estabilidade no mercado – saibam que instabilidade nas regras é, por definição, sinônimo de custos mais elevados.

O link da matéria, com o quadro: http://economia.uol.com.br/ultnot/infomoney/2008/06/25/ult4040u12599.jhtm

Vamos monitorar. Abraços.

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