setembro 2008


A notícia que diz que a Sadia teria perdido mais de R$ 700 milhões com operações envolvendo derivativos de dólar não é nova. Mas acredito que ninguém abordou os seguintes aspectos:

1. Em apenas dois anos este é o segundo escândalo que sacode a diretoria financeira da empresa – e este foi o segundo diretor de finanças demitido no período. É algo muito sério para uma companhia aberta. Imaginem, o primeiro caso foi de “insider trading” e o segundo de descontrole na gestão de derivativos.

2. Eu conheço bem a empresa. O diretor que acaba de sair é jovem e competente, sendo que sua promoção em 2006 foi um fato de grande repercussão. Em condições normais, alguém com 30 e poucos anos jamais sentaria numa cadeira de CFO tão importante. Aí eu me pergunto: será que ele fez essa tremenda aposta sozinho, sem avisar ninguém (e.g. o seu chefe, o CEO)? Quais as suas motivações? Ganhar mais bônus por compensar resultados fracos no lado operacional com ganhos elevados com especulação? Tudo mal explicado.

3. A empresa veio a público rapidamente para explicar ao mercado o problema – e isto foi positivo -, além de deixar claro que zerou a posição perdedora imediatamente, reconhecendo as perdas.

Empresa nenhuma está aí para especular com derivativos ou posições em dólar, juros, etc. Isto é de altíssimo risco e as empresas nunca têm a mesma agilidade e informação disponível para “ganhar do mercado”.

Segue abaixo outros comentários voltados para o empresário que nos lê:

1. A diferença entre um PROBLEMA e uma CRISE é a contaminação que a segunda carrega. O caso Sadia deve ter gerado dois tipos de contaminação:

(a) Financeira: muitos bancos devem ter cortado suas linhas de crédito no ato. A empresa sempre foi muito forte e sempre teve muito caixa, então não teve problemas de liquidez, mas sofrerá para resgatar sua credibilidade junto ao mercado de crédito – assim como no acionário. A Sadia, que no passado recente tentou comprar a gigante Perdigão contando com uma mega-linha de crédito do finado ABN AMRO, hoje não conseguiria e sabe Deus quando conseguirá de novo.

(b) Mercado: todos os Diretores/Gerentes de Relações com Investidores se viram obrigados a vir a público para explicar “a minha empresa não tem problema semelhante ….”, etc. Nessas horas (e em muitas outras), o mercado age como manada e se uma empresa do mesmo setor ou com características similares não se explicar rápida e convincentemente afunda junto com a que realmente teve problemas. Notem que bastou um caso de relevância acontecer, i.e. Sadia , para que os analistas de bancos se perguntassem: “Será que não tem outras na mesma situação?”. E aí acontece o seguinte: na dúvida, vende-se a ação, congela-se o limite de crédito, não se desembolsa uma operação já aprovada e por aí vai.

Para estas horas de aflição, sugiro o seguinte:

PEQUENO MANUAL DE COMUNICAÇÃO DE CRISE DE CRÉDITO:

  1. SEJA TRANSPARENTE: O MERCADO TERÁ QUE ACREDITAR EM VOCÊ!
  2. SEJA PRECISO, DETALHISTA! ISTO É O OPOSTO DE SER GENERALISTA
  3. DEIXE CLARO QUE SABE A ORIGEM DO PROBLEMA
  4. DEIXE CLARO QUE SABE COMO MANEJAR A CRISE
  5. DEIXE CLARO QUE SABE COMO EVITAR QUE O PROBLEMA SE REPITA

Apesar do que está escrito acima ser a coisa mais óbvia do mundo corporativo, com o tempo as empresas e os analistas relaxam. “Ah é a Sadia…, não tem problema” – até que o problema apareça e a manada estoure.

Abs, F.

O post abaixo, divertido, escrito por Alvaro Gribel para o blog da Miriam Leitão, dá uma boa visão de como a crise nos atingiu. O final é “insosso”, pois o fato é que o CONSUMO TEM TUDO PARA SE RETRAIR PRA VALER JÁ, POIS A POPULAÇÃO JÁ ESTÁ COM O CRÉDITO BASTANTE LIMITADO. E AS EMPRESAS TAMBÉM.

Ontem, um amigo me pediu ajuda. O seu grande cliente parou de antecipar os pagamentos que tinha para com a sua empresa – era o clássico caso de alto risco, pois tem o faturamento concentrado em um cliente só, sendo que este também faz as vezes de ‘banco’, pois antecipa os próprios pagamentos (cobrando juros “módicos”). Como a maioria dos clientes deste meu amigo são grandes e só fazem “crédito em conta”, i.e. ele também não tem recebíveis para descontar e as factorings/bancos não querem lhe dar crédito também. E agora? A vida está complicada!

As sugestões que eu lhe dei são:

  1. Procure todas as factorings do mercado, pois alguma gostará do fato de que ele é fornecedor destes mega varejistas há dez anos.
  2. Arrume logo um sócio capitalista, pois ele vive sem capital desde que eu o conheço (8 anos).

Este blog vem alertando há tempos que quem precisa de crédito precisa se antecipar. O caso deste jornalista é apenas prosaico, pois trata-se de instrumento musical (que não é um bem tão caro e que pode ser pago à vista), mas e para quem vendeu um imóvel e está negociando a compra de outro? E o empresário que tem que atender suas encomendas contratuais e não tem capital de giro? Não há nada de prosaico nisso.

Voltarei ao tema. Abs, F.

Enviado por Alvaro Gribel –

30.9.2008|             9h56m

Aí já é demais…

A crise chegando ao mundo real

 

Além de jornalista, também sou músico. E ontem, havia acertado por telefone a compra de um instrumento novo, financiado. Como houve o caos nas bolsas, não consegui sair da redação a tempo de pegar a loja aberta.

Pois eis que agora pela manhã recebo um email do vendedor dizendo que a compra não poderá ser efetivada porque a financeira com a qual a loja trabalha congelou todas as operações por causa da crise de crédito.

Pode-se dizer que a crise chegou ao limite. Que os mercados desabem, mas que a minha música pare, aí já é demais.

Aqui no blog, a análise continua. Se mais e mais consumidores estiverem tendo esse mesmo tipo de problema de financiamento, isso significa que crise vai bater mais rapidamente na economia real.

O consumo (não só de instrumentos musicais) está crescendo em parte pelo aumento da renda e em parte pela expansão do crédito. Se o crédito for afetado tão drasticamente quanto o vendedor me informou, o consumo como um todo cairá mais rápido do que o imaginado.

 

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Já sabemos que os políticos americanos estão se degladiando como…gladiadores romanos. A maioria não quer assinar um “bill” (lei) em que dinheiro do seu eleitor irá financiar bancos quebrados – bem, não é isso que irá ocorrer, mas é isso que o povão pensa que vai. E vivemos e morremos por conta de percepções.

O que eu acho que vai acontecer com o Plano Paulson: ELE SERÁ APROVADO COM ESTE NOME OU OUTRO; MUITO OU POUCO MODIFICADO. E ISTO DEVERÁ ACONTECER PORQUE OS POLÍTICOS NÃO TERÃO CORAGEM DE DEIXAR O SISTEMA ENTRAR EM COLAPSO POR FALTA DE AÇÃO – SERÃO CULPADOS PELA DEPRESSÃO QUE VIRÁ PELA FRENTE. ENTÃO, O NEGÓCIO É BRIGAR ATÉ A MORTE POR MUDANÇAS QUE DESCARACTERIZEM QUE ISTO SERÁ UMA AJUDA AOS BANCOS E BANQUEIROS. TEM QUE PARECER QUE É UMA AJUDA PARA O POVO. E MAIS: AGUARDAM BUSH DECLARAR-SE CULPADO PELA CRISE.

E depois que for aprovado este (ou qualquer outro Plano): O SISTEMA FINANCEIRO AMERICANO RUIU. ESTÁ QUEBRADO E JÁ ESTÁ FEDERALIZADO. LI NA BLOOMBERG QUE O FED JÁ DESPEJOU MAIS DE USD 600 BI EM LINHAS DE LIQUIDEZ PARA O SISTEMA, I.E. QUASE O PACOTE EM SI. SE MARCAREM-A-MERCADO OS ATIVOS DOS BANCOS, ELES FICARÃO INSOLVENTES (I.E. QUEBRADOS); SE NÃO FOR DADA LIQUIDEZ, ELES QUEBRAM (OU MELHOR, JÁ TERIAM QUEBRADO). O GOVERNO IRÁ TENTAR SALVÁ-LOS (VIA PLANO), MAS NÃO EVITARÁ UMA TREMENDA RECESSÃO POR CONTA DO CRÉDITO APERTADO (AMERICANO SÓ PODE COMPRAR FIADO, POIS NÃO TEM RENDA DISPONÍVEL HÁ ALGUNS ANOS).

Então por que o mercado está nervoso? O MERCADO ESTÁ NEGOCIANDO (APOSTANDO) NA APROVAÇÃO DO PLANO E EM MAIS NADA! DEPOIS QUE FOR APROVADO, COMEÇARÁ UMA OUTRO APOSTA, I.E. SE OS BANCOS (E QUAIS) SE SALVARÃO OU NÃO. E COMO ISSO NÃO SERÁ UMA APOSTA PONTUAL – SERÁ UM PROCESSO LONGO E PENOSO -, A VOLATILIDADE CONTINUARÁ PRESENTE POR MUITO TEMPO!

Hoje, os mercados derreteram com gosto:

  • O real perdeu valor, atingindo R$ 1,964 real (dólar em alta de 5,99%)
  • A Bovespa perdeu 9,75%, fechando em 45.833 pontos
  • Enquanto escrevo, o índice Dow Jones cai 6,98%; a Nasdaq derrete 9,14% e o índice Standard & Poor’s 500 despencou 8,79%.

ATENÇÃO: É PRECIFICAÇÃO DE FIM-DO-MUNDO, MAS EU NÃO ACREDITO QUE CHEGAREMOS LÁ AGORA – SÓ MAIS PRA FRENTE.

BOA PARTE DESSA QUEDA FOI PROVOCADA POR ESPECULAÇÃO E NÃO POR PÂNICO PURO. QUANDO ALGUM PLANO FOR APROVADO, AS COTAÇÕES VOLTARÃO PARA UM PATAMAR APENAS RUIM – E NÃO PÉSSIMO COMO ESTÁ AGORA. MAS A VOLATILIDADE VEIO PARA FICAR.

A América não será mais a mesma depois da crise do subprime. Pode anotar.

Um abraço, Fernando

Surpresa Geral: o Plano Paulson não foi aprovado!

E não é que eles não conseguiram aprovar o Plano Paulson?! É inacreditável a falta de liderança e prestígio do presidente Bush! Afinal, foram os senadores do seu próprio partido que o derrubaram na votação! É coisa para “pedir o boné” e ir para o seu rancho no Texas curtir a aposentadoria. O país mais importante e rico (sim, ainda o é, em tese) do mundo vive uma crise sem precedentes e está sem comando.

Ah, e McCain, candidato Republicano que apoiou o pacote (a contragosto) também perdeu, moralmente falando.

Paul Krugman, que é Democrata até a alma, aproveitou para destilar seu veneno com requintes de crueldade. Ao usar a expressão “Banana Republic”, vingou todos nós, latino-americanos. Ver abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/09/29/ok-we-are-a-banana-republic/

Conforme bem escreve Floyd Norris, do NYT (ver link abaixo), surpreendeu também a falta de força dos líderes do partidos no Congresso que não conseguiram arregimentar forças no plenário.

Norris também diz, de forma direta, o seguinte: a indústria bancária está com problema com ou sem o pacote. É lamentável o esforço que estão fazendo para mudar as regras contábeis. Em inglês: The banking industry is in trouble with or without this bailout. Its efforts to change accounting rules to hide its problems are sad and appalling.

http://norris.blogs.nytimes.com/2008/09/29/september-surprise/

Abraços, F.

Prezados, agora o furo é pra valer. Ninguém por aqui noticiou ainda.

Como se esperava, podaram um pouco as asas de Paulson, mas mantiveram a estrutura geral que ele preconizava e que tantos questionam.

De qualquer forma, isto tranqüilizará os mercados SÓ UM POUQUINHO, pois logo voltarão os questionamentos do tipo “será suficiente?”. O sobe-e-desce e incertezas continuarão por um bom tempo. E o pacote ainda poderá sofrer modificações quando for a plenário no Congresso americano.

E existe um zilhão de detalhes a serem definidos e divulgados. Nunca tive dúvida que o pacote seria aprovado, mas como e se vai funcionar só iremos saber nos próximos meses.

Boa leitura do link abaixo. Abs, F.

http://www.truthout.org/092808B

Caros,

Muito tem se falado que o BNDES estará pronto para financiar o investimento privado, que supostamente não conseguirá funding externo caso a crise continue, blá, blá, blá.

Fatos:

  1. Existem muitas fontes de funding internacional para as empresas brasileiras financiarem seus investimentos produtivos. Algumas dessas linhas estarão indisponíveis por algum tempo, como por exemplo: pré-pagamento de exportação, syndicated loans, eurobonds – enfim, todas aquelas que dependem de bancos comerciais e de investidores cheios de apetite de risco. Existem outras fontes, no entanto que, em tese, não teriam razão para cortar linhas para o Brasil, muito pelo contrário! Exemplos: IFC, BID, EIB, entre outros organismos multi-laterais de crédito. Conseguir esse tipo de linha, no entanto, é complicado.
  2. Acontece que essas linhas raramente são oferecidas para empresas de médio porte (e nunca para as pequenas). O empresário terá que negociar forte para que o seu gerente de contas leve o seu caso adiante.
  3. O BNDES é sempre uma excelente opção. Meus comentários:

(a) Antes da crise piorar, já se falava que o BNDES precisava de mais capital (funding), pois não dava conta de tantos pedidos de empréstimos. Chegou até a emitir, de forma surpreendente, um mega CDB para levantar recursos e pagou caro por isso (acima de 100% do CDI)! Atenção: o banco não estava insolvente ou ilíquido! Ele tinha era muita demanda para empréstimos e precisava de mais funding para bancar essa demanda motivada pelo (positivo) boom de investimentos no país.

(b) Agora, com a crise comendo solta – e piorando diariamente aqui também -, supostamente mais empresários irão buscar recursos no BNDES. Se o banco federal já precisava de aporte do governo antes, o que dirá agora? Será que o Ministério da Fazenda vai utilizar-se de recursos do Tesouro para bancar empréstimos para o setor privado? Não é usual, mas seria bem razoável. Afinal, o momento é de crise e o empresariado merece que uma solução emergêncial e “heterodoxa” seja aplicada. Afinal, estes são importantes contribuintes, sem falar que os benefícios chegarão na população (igualmente contribuinte) que terá mais emprego e menos inflação.

(c) Um drama que já foi exposto aqui neste blog é que empresas que recorrem ao BNDES têm que amargar um longo período entre a decisão de recorrer por suas linhas e o dinheiro ser desembolsado. Nunca menos de 6 meses. Imagino agora, com demanda extra. Se existe uma instituição pública que merece ter mais funcionários é o BNDES. Mas o banco também deveria mudar a forma de processar crédito e de originação. É muito longo e nem sempre os bancos comerciais – que intermediam boa parte das demandas – têm interesse de levar os processos pra frente (muito trabalho e pouco spread).

(d) Como declara o presidente do BNDES (link abaixo), em geral, o banco financia 1/3 das necessidades de capital do projeto, sendo que os outros 2/3 devem ser providos por capital próprio e pelo mercado de capitais (i.e. bonds, debentures, syndicated loans, etc.). Considerando que esse mercado estará fechado por algum tempo, o risco de projetos pararem é enorme.

http://www.estadao.com.br/economia/not_eco248597,0.htm

Sobra a banca privada, fazendo empréstimos de longo prazo em reais – igualmente raros e caros, especialmente neste momento. Os bancos fazem esses empréstimos longos, em geral, com fundos da Res. 2770, i.e. quando eles mesmos captam recursos no mercado internacional (e.g. eurobonds), ou se a empresa for exportadora, fazendo repasse de linhas de trade finance (o famoso Pré-Pagamento de Exportação). Como os bancos não terão essas linhas também, a coisa vai ficar apertada para o empresário que tem projetos em andamento e ainda precisa de recursos.

Daí a necessidade do BNDES buscar dinheiro no Tesouro e criar linhas alternativas – tipo “empréstimos-pontes” -, que seriam repagos quando os mercados reabrirem na plenitude. Prazo para isto: 12 a 18 meses.

ATENÇÃO: ACHO UM PERIGO TOCAR UM PROJETO QUE SEJA DE CAPITAL INTENSIVO COM EMPRÉSTIMOS DE CURTO-PRAZO, CARÍSSIMOS. REDOBRO MEU AVISO NUM MOMENTO COMO ESTE EM QUE A CRISE DE CRÉDITO CONTINUARÁ E PROVOCARÁ UMA DESACELERAÇÃO NA ATIVIDADE ECONÔMICA NO BRASIL TAMBÉM.

Cada um sabe onde lhe aperta o calo, mas uma estratégia errada de captação (e.g. tocar um projeto com funding de curto-prazo) poderá, inclusive, causar retração de linhas de crédito de outros bancos que poderão (e deverão) identificar aumento na percepção de risco da empresa.

Eu mesmo já neguei muito crédito por isSo. Acertei várias e errei outro tanto. O fato é que o risco é ENORME neste momento de quase certeza que o quadro só irá se deteriorar!

Abaixo, mais um link (este de hoje) sobre a pressão que estão fazendo sobre o BNDES.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080928/not_imp249518,0.php

De qualquer forma, acho que empresas de médio e até de grande portes – mas que não atuem em setores definidos como estratégicos pelo governo – não terão vida fácil.

Abraços, F.

Esta entrevista está um show. Lúcida. Sem retórica. E vem de alguém que realmente sabe das coisas. E no final, eu adiciono um link com um texto assinado pelo Charles R. Morris, em que ele questionava o modelo perdedor, em fevereiro, bem antes da hecatombe acontecer.
Ele é um craque. Assim como o foi a jornalista Patrícia Campos Mello, correspondente do Estadão em Washington. Abraços. F.

Para analista, país terá de passar por uma transformação ?dolorosa?, que implica forte redução dos níveis de consumo

Patrícia Campos Mello

Com pacote ou sem pacote, os Estados Unidos não vão escapar do remédio amargo do “desendividamento”. Esse é o alerta de Charles R. Morris, autor do livro The Trillion Dollar meltdown – easy money, high rollers, and the great credit crash (O derretimento de trilhões de dólares – dinheiro fácil, altas ondas e a grande queda do crédito, em tradução livre), que está para ser publicado no Brasil pela editora 4 edições. O advogado e ex-banqueiro Morris foi um dos primeiros a prever o estouro iminente da bolha de crédito. “Mesmo que o governo compre todas essas dívidas podres, teremos de passar por uma transformação dolorosa. O consumo precisa cair uns 5% ou 6% do PIB, os consumidores precisam gastar menos, é um novo modelo para a economia”, diz. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

A esta altura, é possível evitar uma recessão nos EUA?

Já estamos em recessão há uns quatro ou cinco meses. Todos os últimos indicadores são bem ruins: encomendas de bens duráveis caíram 4,5% em agosto, desemprego em alta.Os preços imobiliários estão caindo e provavelmente ainda precisam cair mais 15%.

Que diferença, então, fará um pacote de resgate?

Esse pacote vai causar a maior confusão, vai dar o maior prejuízo para os contribuintes e o próximo secretário do Tesouro terá à sua espera o equivalente ao vírus Ebola. Precisamos pôr dinheiro nos bancos, mas não desse jeito. Quando outras pessoas investem em bancos, recebem ações em troca, e não só os ativos podres.

O governo vai pagar para comprar o pior que os bancos têm?

Exatamente. Além disso, o governo terá de administrar tudo isso. Imagine que US$ 700 bilhões provavelmente equivalem a hipotecas em 3 milhões de imóveis. Teremos de pôr funcionários para administrar tudo isso.

Como seria um pacote melhor?

Deveríamos dar o dinheiro para os bancos em troca de ações, e deixar que eles administrem seus ativos podres. Eles ficariam recapitalizados, o que é necessário, e o governo não teria de administrar US$ 700 bilhões em ativos podres.

Como os EUA entraram na crise?

Entre 2000 e 2007, o país gastou US$ 4,7 trilhões a mais do que produziu, e quase a totalidade disso foi financiada com empréstimos usando imóveis como colateral. Nesse período, proprietários de imóveis tomaram emprestados US$ 4,2 trilhões usando suas casas, e não usaram esse dinheiro para amortizar suas hipotecas. O consumo subiu de 66% do PIB para 72% do PIB nesse período – é o maior de qualquer país na história. Esse consumo foi financiado com empréstimos em cima da bolha imobiliária. O que vamos fazer agora, que a bolha imobiliária explodiu e os consumidores estão totalmente endividados? Mesmo que o governo compre todas essas dívidas podres, teremos de passar por uma transformação dolorosa. O consumo precisa cair uns 5% ou 6% do PIB, os consumidores precisam gastar menos, é um novo modelo para a economia.

Quando tempo vai levar esse processo de desendividamento?

Temos duas opções: podemos fazer da maneira rápida e dura, em 18 a 24 meses, ou deixar o processo se arrastar com 0,5% de crescimento ao ano por 7, 8, 9 anos, o que eu considero muito pior.

Esse é o modelo japonês (da estagnação prolongada que se seguiu ao estouro da bolha imobiliária nos anos 90) ?

Exatamente. Acho que nosso modelo deveria ser o que Paul Volcker (ex-presidente do Fed) fez entre 1979 e 1982. O país passou pelo inferno, mas ele conseguiu controlar a inflação de preços de produtos (em vez de ativos, que temos agora). Levou 2,5 anos, mas, quando ele terminou, conseguiu pôr o país em trajetória de crescimento de longo prazo. A tarefa do presidente do banco central é tirar a jarra de ponche da festa quando o negócio começa a ficar animado. Alan Greenspan não fez isso.

Então o próximo presidente terá um enorme abacaxi nas mãos…

Ah sim, será horrível, mas não tem jeito. Quando Volcker apertou a política monetária, às vésperas da eleição legislativa de 1982, o Partido Republicano chegou para o então presidente Reagan e disse: mande o Volcker parar! Mas Reagan resistiu, Volcker endureceu mais, a situação virou em 1983 e em 1984 ele se reelegeu com uma vitória de lavada.

Qual é a receita dessa mudança?

Precisamos elevar juros e impostos e forçar as pessoas a economizar. Será uma recessão horrível – ninguém mais vai comprar TV de plasma ou estourar o cartão de crédito. Pessoas vão perder o emprego. Mas os políticos estão pregando o contrário – vamos baixar os juros para que os consumidores continuem se endidividando e consumindo. Isso só vai piorar as coisas.

A crise mostra que o livre mercado não funciona sempre?

O livre mercado funciona bem, mas sempre exagera nos movimentos. As inovações financeiras são positivas, porque aumentam a eficiência do mercado e reduzem o custo de fazer negócio. Mas têm um ciclo.

O sr. vê uma volta da regulamentação ao mercado agora?

Sim, acho que McCain ou Obama devem reunir um grupo nos próximos dois meses para trabalhar nessa questão.O principal é o endividamento. Em 2000, deixamos que os bancos criassem todos esses veículos fora de balanço, e não sabíamos o real endividamento das instituições. Quando eu era banqueiro, nos anos 70, o negócio bancário era conceder empréstimos com risco risco limitado. Agora, se você olha para os balanços de bancos como Morgan Stanley, JP Morgan, eles não estão apenas no negócio de conceder empréstimos, mas também de investir o dinheiro da instituição, o que os torna terrivelmente vulneráveis. Por isso, o Bear Stearns e o Lehman quebraram.

http://www.truthout.org/article/charles-r-morris-the-consumer-end-a-stumbling-economy

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