YOSHIAKI NAKANO
O que acontece na economia global?

 


O ano de 2008 deverá marcar o fim de um longo ciclo de duas décadas de expansão econômica global

OS PROBLEMAS enfrentados atualmente pela economia mundial -a crise financeira do “subprime”, que está desencadeando uma contração global de crédito, a deflação dos ativos financeiros, a desaceleração econômica nos EUA e a recessão na Europa e no Japão- não são fenômenos passageiros e conjunturais. O ano de 2008 deverá marcar o fim de um ciclo de 20 anos de expansão econômica global. Não se trata apenas da crise do “subprime” e seus desdobramentos, mas do esgotamento de algumas das forças que vinham comandando o longo ciclo de crescimento global.
Esse ciclo se originou nas poderosas forças dinâmicas geradas pela mudança de paradigma tecnológico, ou seja, as novas tecnologias de informação. Esse ciclo foi fortemente alavancado pela tendência, que vinha de antes, de forte expansão do crédito, impulsionada pelas inovações financeiras, pela integração global dos mercados financeiros e pela invenção dos mercados emergentes. Isso ocorreu com crescente fragilidade, com a retração dos órgãos de controle e de regulação. Essas forças foram tão poderosas que podemos falar em crescimento econômico impulsionado pelas inovações e especulação financeira e dominância do financeiro sobre o lado real da economia e de sua hegemonia política. Essa expansão teve seu auge com a bolha da Nasdaq.
Além de alavancar o crescimento econômico mundial, essa expansão de crédito gerou um quadro de excessiva liquidez global, inflação de preço de ativos, bolhas financeiras e taxa real de juros de longo prazo extremamente baixa. Gerou, de um lado, a aceleração do crescimento de países como a China, a Índia e outros do leste da Ásia. O sucesso da estratégia desses países foi tão vigoroso que provocou uma mudança na estrutura dinâmica da economia mundial, deslocando o pólo de crescimento para essa região.
De outro lado, essa mesma expansão global de crédito provocou a semi-estagnação e sucessivas crises financeiras em países com fragilidade institucional e que privilegiam o presente em detrimento do futuro, como o Brasil. Tivemos booms de entrada de capitais, com pequenos surtos de crescimento puxados pela expansão de consumo, mas seguidos de paradas súbitas e crises, como ocorreu em 1995, 1997, 1998/9 e em 2001/2. Desde 2004, estamos tendo um surto mais prolongado, mas que, aparentemente, já chegou ao seu final. A manifestação maior e mais longa desse último tipo de fenômeno se deu nos EUA com a bolha imobiliária, que alimentou forte expansão de consumo e déficits gigantescos nas suas transações correntes. A crise do “subprime” estoura a bolha imobiliária em 2007 e desencadeia profunda crise de contração global de crédito que já estamos sentindo com a saída de capitais, o colapso da Bolsa e a depreciação do real.
Do ponto de vista institucional, a economia global viveu sob a hegemonia absoluta do dólar e da política americana, o que dava um senso de estabilidade. Isso também está sendo questionado com a desastrosa gestão Bush e a literatura econômica, que passou a revelar “os privilégios exorbitantes” do dólar como moeda de reserva, marcados pelo domínio da economia americana.


YOSHIAKI NAKANO, 62, diretor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV, foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Mario Covas (1995-2001).