No melhor estilo Shakespeareano, a resposta é complexa e sujeita a visão política de cada um – e também da posição que você está no momento da quebra. Não há esquerdista, anti-capitalista, piqueteiro de porta de banco, que resista à tese da salvação se ele/ela estiver com o salário e sua poupança presos no banco que acaba de quebrar e prestes a perde-los.

Bom, tirando este “pequeno” casuísmo moral, discutamos questões técnicas:

  1. Bancão de varejo não deve quebrar, nunca, em lugar nenhum do mundo. Eles administram a poupança alheia e a sua terminação acarreta enorme desorganização no sistema de pagamentos e na vida das pessoas e empresas. A solução brasileira do PROER foi criativa e vencedora na ótica dos poupadores. Não foi perfeita, pois vários bancos sem ‘lastro’ acabaram absorvendo bancos quebrados e quebraram junto, pouco tempo depois. Sorte que, à época, muitos bancos estrangeiros queriam se estabelecer no Brasil e acabaram comprando-os, com e sem ajuda do PROER. Uma coisa é certa: banqueiros e altos executivos que praticam atos irresponsáveis devem ser processados na forma da lei.
  2. Instituições como as americanas Fannie Mae e Freddie Mac também não. São mistos de agências e bancos e garantem trilhões de empréstimos de outros bancos. Se quebram, desorganizariam todo o sistema financeiro americano. O fato de investidores do mundo inteiro terem investido em seus títulos e ações é o de menos. Falamos aqui de proteção para o sistema hipotecário, que se sustenta em torno destas duas mega organizações.
  3. Bancos de investimentos, como Bear Sterns (já absorvido pelo J.P.Morgan) e Lehman Brothers (que hoje está no olho do furacão), além de outros da mesma estirpe e que também estão mal falados: em tese, não há nenhum motivo social para que este tipo de banco seja preservado, afinal, sua estratégia de negócio é centrada em grandes operações estruturadas, fusões e aquisiçõe e mercado de capitais. E este tipo de negócio pode muito bem ser feito por concorrentes sobreviventes a esta hecatombe. Como eles não captam poupança do cidadão comum, nem fazem negócios com pequenas e médias empresas, não haveria nenhum motivo político para preservá-los. Então por que salvaram o Bear Sterns e tanto debatem sobre o Lehman? O nome técnico para a dúvida que paira no ar chama-se Counterparty Risk. Cálculos preliminares apontam que se os bancos de investimentos de Wall Street deixarem de honrar os derivativos que têm em aberto, centenas (várias) de bancos americanos quebram junto.

Voltarei ao tema de Counterparty Risk mais tarde. De qualquer forma, ficaremos na dúvida, pois não temos acesso aos números destes bancos – e creio que nem eles mesmos o tenham, afinal, juntar as planilhas de Excel de centenas de traders dá um trabalhão…

Abraços, Fernando

PS: este texto é lastreado no conhecimento adquirido por este escriba, ao longo de 15 anos de Risk Management e uma meia-dúzia de crises deste tipo, só que com magnitudes menores (graças a Deus…).