E o mercado interbancário “secou”: ninguém queria emprestar para ninguém nos principais centros financeiros do mundo. Insegurança total.

Para se ter uma idéia, as taxas do money market, que em junho andavam por volta de 2% a.a., ontem ultrapassaram os 6% a.a. – por aqui 6% parece nada, mas é 3 vezes mais alta, e isso quando tinha oferta!…

Eu informei anteriormente que os principais bancos centrais do mundo haviam colocado mais de USD 100 milhões de liquidez à disposição dos bancos, pois muitos estavam sem caixa para fechar suas contas. Imaginem, crise de liquidez bancária em escala global! Inédito!

E ao xeretar alguns blogs de jornalistas famosos (ver Blogroll), encontrei uma enxurrada de comentários encharcados de adrenalina e testosterona, que diziam coisas do genêro “deixa quebrar esses bancos especuladores, que sempre ganham dinheiro, enquanto a população sofre”.  Viram, ideologia pura! Mas aí eu pergunto: a quem pertence os depósitos que seriam perdidos, se estes bancos simplesmente quebrassem? Ao povo, cara pálida! Tem muita (!) coisa para se acertar no mundo financeiro internacional, não há dúvida, mas deixar banco quebrar só por conta de ideologia é de uma ignorância sem igual.

Algumas declarações relevantes do dia de ontem:

“It’s fear,” said Imke Jersch, a senior money-market trader in Hanover at Norddeutsche Landesbank Girozentrale AG, Germany’s fourth-biggest state-owned bank. “You don’t know who has exposure and who might not be getting their money anymore. It’s a domino effect. You never know who might fall next.”

Aqui o trader alemão fala exatamente o que eu dizia sobre risco de contraparte, ou seja, as instituições fazem zilhões de negócios umas com as outras, sendo que, neste momento de crise, ninguém sabe quem está exposto a um banco que pode quebrar amanhã (ou hoje). E muitos teriam quebrado se: (a) não houvesse a injeção de liquidez, (b) se não fossem salvos AIG, Lehman, Merril, Bear e a dupla de hipotecárias “FM”.

“I have never seen anything remotely like this. The money market was typically the one thing that always worked,” said Luca Jellinek, head of interest-rate strategy in London at Royal Bank of Scotland Group Plc. “It’s the cardiovascular system of the financial body. When this happens, it’s like a heart attack.”

Muito boa a analogia do analista do RBS. O sistema financeiro é como o corpo humano e o sistema cardiovascular é o mercado de money market, que faz a liquidez circular de um orgão com excesso de caixa (ou sangue) para outro com carência de.

De fato, o mundo financeiro entrou em colapso ontem. Foram salvos pelos seus governos.

Foi um dia para ficar na história do capitalismo! Foi o dia em que o Capitalismo Financeiro Acelerado, que já estava ‘entubado na UTI’, teve ‘parada cardíaca’ e recebeu a ‘extrema-unção’. Mas ressucitou.

Espero que o mundo financeiro nunca mais seja o menos, que se reerga com mais regulação e menos incentivo à especulação. Simplesmente não é justo que o mundo produtivo, empresas, cidadãos e governos fiquem à mercê de uma ínfima fração de atores do cenário global, que jogam com os destinos da humanidade por conta dos seus próprios interesses pecuniarios.

Fernando