Amigos,

Ninguém sabe. Acreditem!

Mas… como assim? Será que os PhD’s de tantos orgãos do governo e analistas de Wall Street (todos super-ultra-hiper-mega bem formados também) não sabem? Estão chutando? É molecagem?

Não, não é molecagem deles lá em Washington e NYC, mas ninguém sabe mesmo. Estima-se que este seja o valor. Mas não se tem certeza de nada nesta hora. Poucos sabem – e eu sei por que já fui Risk Manager de banco internacional no meio de três crises globais. Detalhe: (a) a tecnologia mudou, mas a complexidade dos instrumentos também piorou, (b) a regulação do mercado americano não melhorou nada, (c) as crises que vivi foram muito menores que esta, mas a natureza era a mesma.

Trust me, I am a doctor!

Aposto um baurú no Ponto Chic que veremos números novos diariamente. Hoje mesmo (2af) surgiu uma bizarra estimativa que haveriam mais de USD 100 bilhões de credores do Lehman Brothers! Imagine só: 1/7 do valor do Plano ter que ficar (parcialmente) à disposição de um banco apenas.

Mas, por que sou tão cético?

1. Antigamente, “nos tempos que os bichos falavam”, até os anos 90, a imensa maioria das crises era composta por papéis “de verdade”, i.e. empréstimos (como na famosa crise das Saving & Loans, ou Thrifts), bonds (como nas crises da Ásia e da Rússia) ou ações (como em 1987 e outras).

2. A coisa mais complicada naqueles tempos (que acelerava as crises) era o fato de haver as chamadas compras “alavancadas”, i.e. investidores que tinham 1 dinheiro, tomavam 9 dinheiros emprestados e compravam 10 papéis. Estes 10 ativos eram dados em garantia (como margem) para o banco. Na medida que o ativo perdia valor, o banco pegava uma parte dos ativos e os liquidava, mantendo a mesma margem de segurança. Aprendemos, porém, todos, que quando a manada (ou o cardume, para quem não gosta de carne vermelha) se move, o mercado perde a liquidez e financiador e financiado perdem dinheiro.

3. Como as crises começavam e terminavam nos chamados Mercados Emergentes, os ratings (da Moody’s, S&P e que tais) não faziam diferença. Os investidores eram, em sua imensa maioria, profissionais (do mundo desenvolvido e dos próprios países em crise – geralmente era dinheiro “expatriado” via Private Banking).

4. Hoje é radicalmente diferente por alguns seríssimos motivos:

a. O mundo globalizou-se brutalmente em termos de volumes (maiores), rapidez tecnológica (mercados são inundados e ressecados muito rapidamente). Há investidores de todas as partes do mundo, o que aumenta o risco de uma crise global (que foi originada num país único e central).

b. Até onde os meus limitados neurônios conseguem entender, esta crise se dá em quatro dimensões: (i) há os empréstimos que bancos comerciais (como o First National Bank of Minnesota) fizeram para o John Smith e sua esposa Beth; (ii) há os CDO’s (Collateralized Debt Obligations) que são notas estruturadas garantidas pelos tais empréstimos, (iii) há também os CDS’s, ou Credit Derivatives Swaps e garantias diversas, como as prestadas pela estatal AIG (perdão, não consegui resistir à piada…), (iv) É diferente também o fato de agora haver uma infinidade de fundos de pensão e outras instituições de caráter – supostamente – não especulativo envolvidas (que acreditaram que os CDO’s e os CDS’s eram AAA, quando na verdade eram ZZZ).

c. E se alguém sonha que é só apertar a tecla ENTER do computador do CEO dos bancos e, zaz-traz, surgem os números…sorry, mas NÃO é assim mesmo que funciona. Sim, sistemas sofisticados e caros controlando as posições de tesouraria, mas há outros igualmente sofisticados que controlam o risco das contrapartes, assim como outros que gerenciam os empréstimos, e mais outro para o funding, etc. No final, é o sofisticado Excel que junta tudo, faz um set-off de compras e vendas e imprime o relatório gerencial.

d. A regulamentação não acompanhou estes movimentos nem de perto.

Isto posto, principalmente levando-se em consideração os itens “b” e “c” acima, é simplesmente impossível que o governo americano saiba com o mínimo de precisão o valor em risco nesta crise. Vou mais a fundo:

  1. Não mais adianta apenas contabilizar o volume dos empréstimos. Tem que saber quanto eles valem; se já foram lançados a perdas (e em que percentual), etc.
  2. E os “tóxicos” CDO’s que andam por ái: quanto já foi vendido pelos bancos agora finados de Wall Street? E quem comprou, terá direito a recuperação? E a que preço?
  3. E os derivativos, que somam mais de USD 60 trilhões? Será necessário fazer um gigantesco ‘off-set’ de posições compradas e vendidas pelo mundo.

Enfim, não culpemos ninguém por conta da inexatidão dos USD 700 bi, mas apenas aqueles que deixaram o circo pegar fogo nesta extensão!

Ops,…são os mesmos! Pau neles!!

Abraços,

Fernando