Graças ao meu guru liberal e Democrata Paul Krugman, eu achei este Brad Setser, que é outra fera da economia.

No post abaixo ele procura uma justificativa numérica, que nos dê comforto quanto a probabilidade do Plano dar certo. Ele não conseguiu sentir-se comfortável.

Primeiro, um pouco da lógica de precificação e aquisição dos títulos. As opções parecem ser:

1. Comprar os ativos marcados-a-mercado: seria o estritamente correto, mas…centenas de bancos quebrariam e o sistema entraria em colapso do mesmo jeito. É que o valor de write-off dos ativos seria tão grande nestes bancos, que o capital destes simplesmente desapareceria.

2. Comprar os ativos com base no seu valor contábil (hold-to-maturity), ou valor de face. Seria absolutamente injusto, salvo se a diferença “perdoada” pelo governo fosse convertida em capital, diluindo-se os acionistas fortemente.

3. Método nem-uma-coisa-nem-outra: Setser sugere abaixo, que há uma corrente que acredita que os USD 700 bi vieram de uma conta de-trás-pra-frente, onde os títulos seriam comprados por 33% do valor de face, i.e. algo entre as formas clássicas ‘1’ e ‘2’ acima. Vamos ponto a ponto, pois o exercício é complicado:

  • Ele demonstra que em sendo isto verdade, o governo usaria estes USD 700 bi para comprar perto de USD 2 tri de lixo.
  • Desta forma ainda sobrariam perto de USD 4 trilhões de ativos tóxicos no ativos do sistema.
  • Se os bancos ainda não tiverem feito write-offs destes ativos, os bancos deveriam faze-lo agora, o que representaria uma perda consolidada de USD 1,4 tri.
  • Segundo Setser, o sistema não aguentaria tamanha perda de capital, o que poderia limitar brutalmente a capacidade de estender crédito aos seus clientes, jogando a economia numa depressão [palavras minhas].
  • A opção seria o Tesouro comprar os ativos por um valor mais alto, porém limpando menos ativos dos bancos. Consequência: a desconfiança do sistema com relação aos bancos continuaria, inviabilizando a retomada da confiança perdida e do mercado interbancário.

http://blogs.cfr.org/setser/2008/09/23/some-ballpark-bailout-math/

Sem tentar matematizar a coisa, o fato é que o sistema financeiro americano quebrou. Portanto, não há um “toque de Midas” que resolva o problema. É por isso que o mercado parou de reagir positivamente ao pacote. Não que alguém tenha dúvida que haverá um pacote – qualquer um. O problema que mexe com a decisão do investidor é saber o tamanho da pancada que o pacote irá gerar no mercado, i.e. o quão rapidamente os bancos terão que de-leverage, ou se “desalavancar”, ou vindo mais pra Terra: como ficará a oferta de crédito para o dia-a-dia da economia.

Porém, ninguém ainda teve coragem de dizer – talvez até por não saber – é que o preço desta aventura financista custará muito caro para a sociedade americana. Logo ela que ficou tão desabituada a sofrer…

“Poupar pra que? Reduzir meus gastos pra que?” O negócio é cobrir O Rombinho Nosso de Cada Mês com cartão de crédito, refinanciamento de hipotecas, etc. E com o preço dos imóveis e a quotação das ações em alta, para que se preocupar com um dívida que custava 4% a.a., enquanto seus ativos rendiam 20% a.a.

Viram só, o americano comum pensa como um banqueiro: ativos vs. passivos. Só que nunca pensou em descasamento de ativo-passivo e de prazos, assim como sempre ignorou o risco de iliquidez. De novo, igualzinho aos banqueiros americanos.

Ainda bem que os nossos não são assim…

Abraço do Fernando