Esta entrevista está um show. Lúcida. Sem retórica. E vem de alguém que realmente sabe das coisas. E no final, eu adiciono um link com um texto assinado pelo Charles R. Morris, em que ele questionava o modelo perdedor, em fevereiro, bem antes da hecatombe acontecer.
Ele é um craque. Assim como o foi a jornalista Patrícia Campos Mello, correspondente do Estadão em Washington. Abraços. F.

Para analista, país terá de passar por uma transformação ?dolorosa?, que implica forte redução dos níveis de consumo

Patrícia Campos Mello

Com pacote ou sem pacote, os Estados Unidos não vão escapar do remédio amargo do “desendividamento”. Esse é o alerta de Charles R. Morris, autor do livro The Trillion Dollar meltdown – easy money, high rollers, and the great credit crash (O derretimento de trilhões de dólares – dinheiro fácil, altas ondas e a grande queda do crédito, em tradução livre), que está para ser publicado no Brasil pela editora 4 edições. O advogado e ex-banqueiro Morris foi um dos primeiros a prever o estouro iminente da bolha de crédito. “Mesmo que o governo compre todas essas dívidas podres, teremos de passar por uma transformação dolorosa. O consumo precisa cair uns 5% ou 6% do PIB, os consumidores precisam gastar menos, é um novo modelo para a economia”, diz. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

A esta altura, é possível evitar uma recessão nos EUA?

Já estamos em recessão há uns quatro ou cinco meses. Todos os últimos indicadores são bem ruins: encomendas de bens duráveis caíram 4,5% em agosto, desemprego em alta.Os preços imobiliários estão caindo e provavelmente ainda precisam cair mais 15%.

Que diferença, então, fará um pacote de resgate?

Esse pacote vai causar a maior confusão, vai dar o maior prejuízo para os contribuintes e o próximo secretário do Tesouro terá à sua espera o equivalente ao vírus Ebola. Precisamos pôr dinheiro nos bancos, mas não desse jeito. Quando outras pessoas investem em bancos, recebem ações em troca, e não só os ativos podres.

O governo vai pagar para comprar o pior que os bancos têm?

Exatamente. Além disso, o governo terá de administrar tudo isso. Imagine que US$ 700 bilhões provavelmente equivalem a hipotecas em 3 milhões de imóveis. Teremos de pôr funcionários para administrar tudo isso.

Como seria um pacote melhor?

Deveríamos dar o dinheiro para os bancos em troca de ações, e deixar que eles administrem seus ativos podres. Eles ficariam recapitalizados, o que é necessário, e o governo não teria de administrar US$ 700 bilhões em ativos podres.

Como os EUA entraram na crise?

Entre 2000 e 2007, o país gastou US$ 4,7 trilhões a mais do que produziu, e quase a totalidade disso foi financiada com empréstimos usando imóveis como colateral. Nesse período, proprietários de imóveis tomaram emprestados US$ 4,2 trilhões usando suas casas, e não usaram esse dinheiro para amortizar suas hipotecas. O consumo subiu de 66% do PIB para 72% do PIB nesse período – é o maior de qualquer país na história. Esse consumo foi financiado com empréstimos em cima da bolha imobiliária. O que vamos fazer agora, que a bolha imobiliária explodiu e os consumidores estão totalmente endividados? Mesmo que o governo compre todas essas dívidas podres, teremos de passar por uma transformação dolorosa. O consumo precisa cair uns 5% ou 6% do PIB, os consumidores precisam gastar menos, é um novo modelo para a economia.

Quando tempo vai levar esse processo de desendividamento?

Temos duas opções: podemos fazer da maneira rápida e dura, em 18 a 24 meses, ou deixar o processo se arrastar com 0,5% de crescimento ao ano por 7, 8, 9 anos, o que eu considero muito pior.

Esse é o modelo japonês (da estagnação prolongada que se seguiu ao estouro da bolha imobiliária nos anos 90) ?

Exatamente. Acho que nosso modelo deveria ser o que Paul Volcker (ex-presidente do Fed) fez entre 1979 e 1982. O país passou pelo inferno, mas ele conseguiu controlar a inflação de preços de produtos (em vez de ativos, que temos agora). Levou 2,5 anos, mas, quando ele terminou, conseguiu pôr o país em trajetória de crescimento de longo prazo. A tarefa do presidente do banco central é tirar a jarra de ponche da festa quando o negócio começa a ficar animado. Alan Greenspan não fez isso.

Então o próximo presidente terá um enorme abacaxi nas mãos…

Ah sim, será horrível, mas não tem jeito. Quando Volcker apertou a política monetária, às vésperas da eleição legislativa de 1982, o Partido Republicano chegou para o então presidente Reagan e disse: mande o Volcker parar! Mas Reagan resistiu, Volcker endureceu mais, a situação virou em 1983 e em 1984 ele se reelegeu com uma vitória de lavada.

Qual é a receita dessa mudança?

Precisamos elevar juros e impostos e forçar as pessoas a economizar. Será uma recessão horrível – ninguém mais vai comprar TV de plasma ou estourar o cartão de crédito. Pessoas vão perder o emprego. Mas os políticos estão pregando o contrário – vamos baixar os juros para que os consumidores continuem se endidividando e consumindo. Isso só vai piorar as coisas.

A crise mostra que o livre mercado não funciona sempre?

O livre mercado funciona bem, mas sempre exagera nos movimentos. As inovações financeiras são positivas, porque aumentam a eficiência do mercado e reduzem o custo de fazer negócio. Mas têm um ciclo.

O sr. vê uma volta da regulamentação ao mercado agora?

Sim, acho que McCain ou Obama devem reunir um grupo nos próximos dois meses para trabalhar nessa questão.O principal é o endividamento. Em 2000, deixamos que os bancos criassem todos esses veículos fora de balanço, e não sabíamos o real endividamento das instituições. Quando eu era banqueiro, nos anos 70, o negócio bancário era conceder empréstimos com risco risco limitado. Agora, se você olha para os balanços de bancos como Morgan Stanley, JP Morgan, eles não estão apenas no negócio de conceder empréstimos, mas também de investir o dinheiro da instituição, o que os torna terrivelmente vulneráveis. Por isso, o Bear Stearns e o Lehman quebraram.

http://www.truthout.org/article/charles-r-morris-the-consumer-end-a-stumbling-economy