Caros,

Muito tem se falado que o BNDES estará pronto para financiar o investimento privado, que supostamente não conseguirá funding externo caso a crise continue, blá, blá, blá.

Fatos:

  1. Existem muitas fontes de funding internacional para as empresas brasileiras financiarem seus investimentos produtivos. Algumas dessas linhas estarão indisponíveis por algum tempo, como por exemplo: pré-pagamento de exportação, syndicated loans, eurobonds – enfim, todas aquelas que dependem de bancos comerciais e de investidores cheios de apetite de risco. Existem outras fontes, no entanto que, em tese, não teriam razão para cortar linhas para o Brasil, muito pelo contrário! Exemplos: IFC, BID, EIB, entre outros organismos multi-laterais de crédito. Conseguir esse tipo de linha, no entanto, é complicado.
  2. Acontece que essas linhas raramente são oferecidas para empresas de médio porte (e nunca para as pequenas). O empresário terá que negociar forte para que o seu gerente de contas leve o seu caso adiante.
  3. O BNDES é sempre uma excelente opção. Meus comentários:

(a) Antes da crise piorar, já se falava que o BNDES precisava de mais capital (funding), pois não dava conta de tantos pedidos de empréstimos. Chegou até a emitir, de forma surpreendente, um mega CDB para levantar recursos e pagou caro por isso (acima de 100% do CDI)! Atenção: o banco não estava insolvente ou ilíquido! Ele tinha era muita demanda para empréstimos e precisava de mais funding para bancar essa demanda motivada pelo (positivo) boom de investimentos no país.

(b) Agora, com a crise comendo solta – e piorando diariamente aqui também -, supostamente mais empresários irão buscar recursos no BNDES. Se o banco federal já precisava de aporte do governo antes, o que dirá agora? Será que o Ministério da Fazenda vai utilizar-se de recursos do Tesouro para bancar empréstimos para o setor privado? Não é usual, mas seria bem razoável. Afinal, o momento é de crise e o empresariado merece que uma solução emergêncial e “heterodoxa” seja aplicada. Afinal, estes são importantes contribuintes, sem falar que os benefícios chegarão na população (igualmente contribuinte) que terá mais emprego e menos inflação.

(c) Um drama que já foi exposto aqui neste blog é que empresas que recorrem ao BNDES têm que amargar um longo período entre a decisão de recorrer por suas linhas e o dinheiro ser desembolsado. Nunca menos de 6 meses. Imagino agora, com demanda extra. Se existe uma instituição pública que merece ter mais funcionários é o BNDES. Mas o banco também deveria mudar a forma de processar crédito e de originação. É muito longo e nem sempre os bancos comerciais – que intermediam boa parte das demandas – têm interesse de levar os processos pra frente (muito trabalho e pouco spread).

(d) Como declara o presidente do BNDES (link abaixo), em geral, o banco financia 1/3 das necessidades de capital do projeto, sendo que os outros 2/3 devem ser providos por capital próprio e pelo mercado de capitais (i.e. bonds, debentures, syndicated loans, etc.). Considerando que esse mercado estará fechado por algum tempo, o risco de projetos pararem é enorme.

http://www.estadao.com.br/economia/not_eco248597,0.htm

Sobra a banca privada, fazendo empréstimos de longo prazo em reais – igualmente raros e caros, especialmente neste momento. Os bancos fazem esses empréstimos longos, em geral, com fundos da Res. 2770, i.e. quando eles mesmos captam recursos no mercado internacional (e.g. eurobonds), ou se a empresa for exportadora, fazendo repasse de linhas de trade finance (o famoso Pré-Pagamento de Exportação). Como os bancos não terão essas linhas também, a coisa vai ficar apertada para o empresário que tem projetos em andamento e ainda precisa de recursos.

Daí a necessidade do BNDES buscar dinheiro no Tesouro e criar linhas alternativas – tipo “empréstimos-pontes” -, que seriam repagos quando os mercados reabrirem na plenitude. Prazo para isto: 12 a 18 meses.

ATENÇÃO: ACHO UM PERIGO TOCAR UM PROJETO QUE SEJA DE CAPITAL INTENSIVO COM EMPRÉSTIMOS DE CURTO-PRAZO, CARÍSSIMOS. REDOBRO MEU AVISO NUM MOMENTO COMO ESTE EM QUE A CRISE DE CRÉDITO CONTINUARÁ E PROVOCARÁ UMA DESACELERAÇÃO NA ATIVIDADE ECONÔMICA NO BRASIL TAMBÉM.

Cada um sabe onde lhe aperta o calo, mas uma estratégia errada de captação (e.g. tocar um projeto com funding de curto-prazo) poderá, inclusive, causar retração de linhas de crédito de outros bancos que poderão (e deverão) identificar aumento na percepção de risco da empresa.

Eu mesmo já neguei muito crédito por isSo. Acertei várias e errei outro tanto. O fato é que o risco é ENORME neste momento de quase certeza que o quadro só irá se deteriorar!

Abaixo, mais um link (este de hoje) sobre a pressão que estão fazendo sobre o BNDES.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080928/not_imp249518,0.php

De qualquer forma, acho que empresas de médio e até de grande portes – mas que não atuem em setores definidos como estratégicos pelo governo – não terão vida fácil.

Abraços, F.

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