A notícia que diz que a Sadia teria perdido mais de R$ 700 milhões com operações envolvendo derivativos de dólar não é nova. Mas acredito que ninguém abordou os seguintes aspectos:

1. Em apenas dois anos este é o segundo escândalo que sacode a diretoria financeira da empresa – e este foi o segundo diretor de finanças demitido no período. É algo muito sério para uma companhia aberta. Imaginem, o primeiro caso foi de “insider trading” e o segundo de descontrole na gestão de derivativos.

2. Eu conheço bem a empresa. O diretor que acaba de sair é jovem e competente, sendo que sua promoção em 2006 foi um fato de grande repercussão. Em condições normais, alguém com 30 e poucos anos jamais sentaria numa cadeira de CFO tão importante. Aí eu me pergunto: será que ele fez essa tremenda aposta sozinho, sem avisar ninguém (e.g. o seu chefe, o CEO)? Quais as suas motivações? Ganhar mais bônus por compensar resultados fracos no lado operacional com ganhos elevados com especulação? Tudo mal explicado.

3. A empresa veio a público rapidamente para explicar ao mercado o problema – e isto foi positivo -, além de deixar claro que zerou a posição perdedora imediatamente, reconhecendo as perdas.

Empresa nenhuma está aí para especular com derivativos ou posições em dólar, juros, etc. Isto é de altíssimo risco e as empresas nunca têm a mesma agilidade e informação disponível para “ganhar do mercado”.

Segue abaixo outros comentários voltados para o empresário que nos lê:

1. A diferença entre um PROBLEMA e uma CRISE é a contaminação que a segunda carrega. O caso Sadia deve ter gerado dois tipos de contaminação:

(a) Financeira: muitos bancos devem ter cortado suas linhas de crédito no ato. A empresa sempre foi muito forte e sempre teve muito caixa, então não teve problemas de liquidez, mas sofrerá para resgatar sua credibilidade junto ao mercado de crédito – assim como no acionário. A Sadia, que no passado recente tentou comprar a gigante Perdigão contando com uma mega-linha de crédito do finado ABN AMRO, hoje não conseguiria e sabe Deus quando conseguirá de novo.

(b) Mercado: todos os Diretores/Gerentes de Relações com Investidores se viram obrigados a vir a público para explicar “a minha empresa não tem problema semelhante ….”, etc. Nessas horas (e em muitas outras), o mercado age como manada e se uma empresa do mesmo setor ou com características similares não se explicar rápida e convincentemente afunda junto com a que realmente teve problemas. Notem que bastou um caso de relevância acontecer, i.e. Sadia , para que os analistas de bancos se perguntassem: “Será que não tem outras na mesma situação?”. E aí acontece o seguinte: na dúvida, vende-se a ação, congela-se o limite de crédito, não se desembolsa uma operação já aprovada e por aí vai.

Para estas horas de aflição, sugiro o seguinte:

PEQUENO MANUAL DE COMUNICAÇÃO DE CRISE DE CRÉDITO:

  1. SEJA TRANSPARENTE: O MERCADO TERÁ QUE ACREDITAR EM VOCÊ!
  2. SEJA PRECISO, DETALHISTA! ISTO É O OPOSTO DE SER GENERALISTA
  3. DEIXE CLARO QUE SABE A ORIGEM DO PROBLEMA
  4. DEIXE CLARO QUE SABE COMO MANEJAR A CRISE
  5. DEIXE CLARO QUE SABE COMO EVITAR QUE O PROBLEMA SE REPITA

Apesar do que está escrito acima ser a coisa mais óbvia do mundo corporativo, com o tempo as empresas e os analistas relaxam. “Ah é a Sadia…, não tem problema” – até que o problema apareça e a manada estoure.

Abs, F.