O blogueiro entrou em crise e não postou nada no sábado e domingo. Então, aqui vai um resumão do final- de-semana:

1. Economia real (do Brasil) sente os primeiros impactos da crise do crédito:

Em linhas gerais, sofrerá mais quem estiver com mais estoques de matérias-primas e/ou semi-acabados, pois o ciclo de conversão de caixa será mais longo, o que demanda mais linha de crédito (produto raro e caro no momento).

As minhas maiores preocupações são com o varejo e com a construção civil. Vejam abaixo o link do Estadão sobre a construção que está bem escrito. Já o varejo é uma “caixinha de surpresas”  e tem alto índice de mortalidade pós-crises, pois nunca se sabe: (a) o quão estocados os varejistas podem estar; (b) o quão descasado podem estar as dívidas e os recebíveis dos varejistas. Não estou nem falando da provável queda das vendas e aumento da inadimplência, mas sim de falta/encarecimento do crédito mesmo!

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081005/not_imp253735,0.php

2. Até na China…

A Folha, do sábado, noticiou que o mercado imobiliário chinês desacelerou também. Há um certo pessimismo no ar, e uma pesquisa revelou que apenas 13% dos entrevistados tinham intenção de comprar um imóvel (menor índice desde 1999). A reportagem de Raul Juste Lores, de Pequim, mostra que dos 11,9% de crescimento do PIB chinês em 2007, 1,5% veio deste setor. Com isso, desaceleram-se outros setores, tais como aço, cimento, sem falar na mão-de-obra.

Meus leitores sabem o quanto eu sempre alertei para o perigo de uma desaceleração do crescimento chinês – agora então nem se fala…oremos fervorosamente!

3. Especulação com derivativos impacta a Aracruz também

Depois da Sadia (R$ 750 milhões de prejuízo e demissão do CFO), agora foi a gigante da celulose Aracruz que informou ter prejuízos (em seus livros contábeis) de R$ 1,95 bilhão. Uma enormidade. Lamenta-se que a empresa tenha vindo a público tão tardiamente, o que prova que esta não tinha os números tão à mão como deveria ter, ou que não estava certa qual decisão deveria tomar.

Acho também que a transparência não foi o forte da Aracruz neste caso. A repercussão na mídia foi confusa e a expressão “sem grandes detalhes” foi a mais usada para qualificar a mensagem que a empresa enviou para o mercado. O grupo Votorantim, que negociava o controle da companhia, informou que irá reavaliar o negócio.

Olha só quanto custa uma gestão financeira “excessivamente arrojada”. Ah, e mais um CFO top caiu…

4. A Veja e a crise

Não sei por que a Veja optou por uma cobertura da crise com um viés tão “light”. A começar pelas capas, que são ruins: uma delas (semana passada?) trazia uma caricatura de um Tio Sam estilo durão, dizendo “Eu salvei você!”, em alusão ao pacote de salvação que o governo estava para lançar. Como assim? – pergunto eu: foi o governo, com seu ‘desgoverno’ da indústria financeira que permitiu esse terromoto e, portanto, não faz mais do que a obrigação de resgatar o seu país (e o mundo) dessa situação.

A capa deste final-de-semana, ao avaliar “O tamanho do estrago”, pergunta “Recessão?”, para em seguida responder “Talvez”.  Meu Deus…é óbvio que o mundo irá para a recessão – aliás, já está. China, Índia e Brasil são as exceções, mas não deveria haver dúvida de que o “conjunto da obra” será terrível.

Mas a melhor, na minha opinião, foi a entrevista do lendário professor brasileiro da igualmente lendária Universidade de Princeton, José Alexandre Scheinkman. Abaixo, pergunta-e-resposta:

O senhor concorda com o pacote de 700 bilhões de dólares para Wall Street?

Não morro de amores por ele. Acho que o governo poderia ter forçado os bancos a se financiar mais no mercado, só dando dinheiro a quem conseguisse. O Goldman Sachs conseguiu. Mas o governo, em vez de fazer isso, saiu propondo ajuda logo na largada. Dinheiro do mercado é caro. Dinheiro do governo é mais barato.

Com todo o respeito ao professor Scheinkman, querer comparar Godman Sachs com as outras centenas (ou milhares) de bancos de todos os portes que estão ilíquidos é forçar a natureza do próprio mercado. Sem dúvida, ele propõe um remédio com amargor proporcional ao nível de especulação do sistema – i.e. quem jogou mais, perdeu mais e deveria pagar mais caro para sair dessa. Contudo, não haveria tempo hábil para se costurar uma solução de mercado e a esta hora estaríamos praticando trocas físicas de mercadorias e serviços, pois o papel-moeda já teria caído em desuso tamanha a crise de confiança que estaria instalada no sistema bancário – isso não invalida a tese (de Krugman e Roubini) que Paulson (e Bush) poderiam ter proposto coisa muito melhor do que este pacote confuso.

5. Brasil é o 4o. maior credor do Tesouro americano

Esta surpreendeu! O Estadão noticiou que nosso país detém USD 148 bilhões de títulos do Tesouro dos EUA, onde estão investidas a maior parte dos nossos mais de USD 200 bilhões de reservas cambiais. Só  Japão, China e Reino Unido estão à nossa frente.

O jornal escreveu na manchete “…e nível de exposição preocupa”. Discordo. Imaginar que os EUA irão dar calote em títulos de sua própria moeda não é razoável. Não podemos nos esquecer que eles têm a “impressora” que imprime dólares – assim como o nosso Tesouro tem a de imprimir reais. Como devedores crônicos – dentro e fora do país – os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de brincar com sua credibilidade neste quesito.

6. União Européia lança o seu “não”-pacote anti-crise

Respondendo ao chamado de Super Sarkozy e bem ao estilo europeu, alguns dos principais chefes de Estado reuniram-se em Paris, comeram muito bem, falaram muito e decidiram o óbvio: não permitirão que o sistema financeiro europeu não naufrague como o americano.

Como era de se esperar – e como já vem fazendo – na Europa eles irão federalizar os bancos que quebrarem, como fizeram os governos de França, Bélgica, Luxemburgo e Holanda para os casos Fortis e Dexia. De resto, cada Banco Central de cada país já vem tomando ações voltadas à normalidade das operações bancárias do dia-a-dia, reforçando as garantias dos depósitos em conta-corrente e poupança.

Conforme dissemos recentemente, isso evita que o cidadão comum encerre sua conta-corrente em bancos mais frágeis e transfira sua poupança para os bancos mais fortes, gerando crise de liquidez na economia. Por outro lado, nada foi feito para evitar que o grande poupador (i.e. empresas e empresários) o faça! E sabe por que nada fizeram? Porque não há o que fazer, salvo esperar que a desconfiança crônica que existe no mercado interbancário termine.

7. Governo quer preservar crescimento, PAC, Natal da famílias, exportação, agricultura, etc.

Não dá, não tem dinheiro e o sistema financeiro, que é o responsável pela irrigação destes segmentos da sociedade e setores da economia, não está suficientemente organizado. É simples:

  • Não há crédito externo – que é barato e viabiliza nosso importante comércio exterior – e o crédito doméstico está desorganizado, i.e. bancos médios e pequenos sofrendo com o “flight to quality” e os grandes estão muito mais conservadores com o crédito de empresas que apresentam alto risco de refinanciamento e de exportação (com financiamento barato).
  • As empresas ficam atordoadas com a falta de crédito (em volume, em prazo e em custo adequados).
  • A combinação acima reduz a produção, corta empregos e gera inadimplência no crédito pessoal e no varejo.
  • Tudo isto poderá ser parcialmente evitado se forem criados – rapidamente – mecanismos para que o BNDES e/ou o Tesouro e/ou as Reservas Cambiais do país tenham seus recursos parcialmente realocados para evitar a crise de liquidez que já se iniciou.

8. As bolsas caem mesmo com a aprovação do Plano Paulson. Especulação?

Este tema foi bem repercutido pela mídia neste final-de-semana. Eu senti um clima de “Mas como assim? Não era importante aprovar o plano? Se aprovaram o plano, então o mercado tinha que subir!”.

Este blog comentou que o mercado apostava no “Aprova-Rejeita” e assim o fez  de forma dramática na “Black Monday”. Agora mudou a aposta: o novo jogo é “Funciona-ou-Fracassa” o plano. A gangorra continuará à medida que as notícias comecem a sair, e.g. o PIB americano (e o nosso) agüentará o tranco da liquidez anêmica ou vai para a recessão de vez ou quando bancos mostrarem bons resultados ou pífios? E por aí seguirá o jogo…

Ufa, acho que compensei a ausência. Sorry pela ‘overdose’…

Abs, F.