Após mais um dia de “meltdown” (derretimento, em inglês), muitos questionamentos e desinformação, eu resolvi escrever sobre a crise que nos atinge e suas perspectivas. Como sempre, aguardem textos baseados na minha experiência em crises e vivência nos mercados…e sem fantasias.

Serão 6 posts. Espero que lhes sejam úteis. Abraços, FB

1. Como tudo começou e por que se desenvolveu:

  • Primeiro criou-se a liquidez internacional (desenvolvimento da China, preços do petróleo e commodities, etc.).
  • Daí o FED (Banco Central dos EUA) resolveu manter os juros baixos demais.
  • Como a economia tinha tudo para crescer – por conta do crédito barato -, houve uma incrível combinação de interesses entre cidadãos, bancos comerciais, bancos de investimentos, investidores e governo.
  • Os bancos comerciais davam crédito imobiliário barato para qualquer um (literalmente). Sabendo que tinham créditos ruins nas mãos…
  • …os bancos comerciais encontraram bancos de investimentos ansiosos por “empacotarem” tais empréstimos em “notas estruturadas” e vendê-las…
  • …para investidores (em sua maioria através de gestores de fortunas) que tinham dinheiro “queimando nas mãos” (devido à liquidez internacional).
  • E para quem em algum momento tivesse medo do risco, bancos de investimentos e seguradoras também vendiam derivativos que cobriam (em tese…) tal risco.
  • Com isso, os imóveis subiam de valor rapidamente porque a oferta de residências não dava conta da demanda (turbinada por crédito barato).
  • Aí o instrumento da segunda hipoteca se notabilizou de vez nos EUA. Explico:

(a) O cidadão que tinha uma poupança de USD 300 mil pedia USD 700 mil para o banco e comprava uma casa por USD 1 milhão – assumindo a tal dívida por 30 anos.

(b) Poucos anos depois, a casa que fora comprada pelo preço de USD 1 milhão passava a valer, digamos, USD 1,5 milhão. Aí, o banco, que tinha excesso de liquidez nas mãos e ganhava pouco com os juros baixos, chamava o cliente e oferecia mais USD 500 mil de crédito, pois a casa (que era dada em garantia) havia se valorizado.

(c) Estes USD 500 mil adicionais eram usados para os mais diversos fins, e.g. reformar e mobiliar a casa, carro novo, pagar contas, etc. – notem que estamos falando de uma infinidade de clientes NINJAS, i.e No Income, No Job, No Assets.

  • E assim foi criado um verdadeiro “castelo de cartas” que só se manteria de pé se o valor das casas continuasse subindo, etc., num interminável círculo virtuoso.
  • Quando o “castelo” ruiu, os NINJAS  – e outros que haviam comprado imóveis para especular – simplesmente devolveram (i.e. abandoram) suas casas para os bancos que se tornaram gigantescas “imobiliárias”.
  • Tal movimento de devolução (e de venda) depreciou o valor dos imóveis nos EUA e os bancos passaram a ter aqueles empréstimos não pagos, só que agora garantidos por imóveis que valem uma fração dos empréstimos.
  • Detalhe: com a derrocada de todo o sistema, os derivativos e notas estruturadas que garantem a solvência dos bancos comerciais, que deram início à “pirâmide” da felicidade, tornaram-me uma suposição. Se os bancos de investimentos e seguradoras tivessem que honrar estes compromissos hoje, quebrariam imediatamente.
  • O governo Bush também deu uma bela ajuda para que este modelo se tornasse viável, pois ao desregulamentar os bancos de investimentos, permitiu que se alavancassem demais e que fizessem negócios fora da esfera regulamentada (o chamado “shadow banking”) – em outras palavras, o governo americano PERDEU O CONTROLE DO SISTEMA.
  • Como os banqueiros de investimentos ganhavam fortunas, na medida que os lucros dos bancos subiam graças a estas operações, todos (do analista ao Chairman) fecharam os olhos.
  • É importante lembrar que vivemos numa economia brutalmente globalizada, interconectada, financeiramente falando. Bancos de boa parte do mundo (os brasileiros não!) também entraram na “ciranda” e vêm acumulando perdas multi-bilionárias há 1 ano. Investidores de todo tipo idem.

Concluindo esta parte: foi um ato de irresponsabilidade coletiva. Não tem santo neste episódio. Os bancos – comerciais e de investimentos – jogaram pelas regras vigentes. Foram regras erradas, ditadas pelo governo americano. Andaram falando em fraude. Pode ter havido, como há em qualquer atividade, mas estou certo que isto é pouco relevante no contexto mais amplo. Por outro lado, a ganância dos bancos de investimentos e a ingenuidade do bancos comerciais jogaram os EUA (e o mundo) nesta situação em que nos encontramos.

Brasil: nossos bancos estão limpos deste tipo de risco.