Dando continuidade…

3. A dinâmica interbancária:

  • Os bancos – qualquer banco – fazem centenas ou milhares de transações diariamente. E eles não têm controle sobre elas, i.e. é impossível saber se um cliente milionário irá depositar R$ 5 milhões ou sacar. Mesmo grandes empréstimos que são negociados durante meses, muitas vezes acontecem de um dia para o outro.
  • Isto para dizer que o caixa de um banco flutua barbaramente ao longo do dia e sua Tesouraria vai captando e/ou emprestando dinheiro para outros bancos. Isso ocorre, principalmente, porque uns terão sobra de caixa ao final do dia e outros terão falta de caixa ao final do dia. E se a conta não fechar entre os bancos, estes “se zeram” no Banco Central (i.e. doam ou tomam dinheiro do BC para zerar o seu caixa).
  • Agora, os bancos – todos, aqui e lá fora – determinam limites de crédito uns para os outros. Eles o fazem porque sabem que não basta ser banco para ser tudo igual. Eles se conhecem, têm faro um para o outro. Sem falar no tamanho. Em outras palavras, os bancos têm uma boa idéia de até onde vai a sua capacidade de tomar dinheiro de cada um dos seus bancos parceiros no mercado interbancário. Isto é muito transparente.
  • Quem define os limites, os prazos e quais os tipos de operação permitidas, é o Comitê de Crédito. Este é formado pelo grupo de executivos mais sênior da instituição. Sentam e discutem os números do banco, a análise que foi feita por um analista interno, comentam sobre a competência e seriedade dos executivos (e donos, quando for o caso) e decidem um limite. E também cortam limites!
  • E foi isso que fizeram esses dias: cortaram limites uns dos outros, sem piedade, por uma questão de sobrevivência. Sentem-se melhor aplicando suas reservas no Banco Central, recebendo juros irrisórios, do que correr o risco de um banco que “sabe-se lá como andará nesse período de crise”.
  • É exatamente isso que está acontecendo no interbancário americano, europeu e, numa menor extensão, no brasileiro (e mundo afora).

Isto é simples. Talvez simples demais para o leitor não iniciado em banking, mas é a pura realidade. Vamos evoluir, então, para a complexidade da coisa:

  • O Banco Blanco tem R$ 100 mil de ativos de crédito, R$ 80 mil de depósitos (de clientes e interbancários) e R$ 20 mil de capital próprio.
  • Em função da crise, perdi R$ 20 mil de depósitos e não consigo repor, abrindo um buraco no caixa do banco. À noite, tomaremos um caríssimo e punitivo empréstimo do Banco Central para zerar o caixa.
  • Próxima ação: cobrar alguns empréstimos com URGÊNCIA até conseguir zerar o buraco no Banco Central.
  • Situações dramáticas:

(a) Em momentos de crise como esta, poucos clientes tem dinheiro para pagar suas dívidas, o que dificultará o processo de cobrança do empréstimo por parte do banco.

(b) E o cliente que, forçado a pagar porque a dívida venceu, de quem tomará outro empréstimo, visto que o mercado está com pouca liquidez?

Concluindo esta parte: a vida ficou dura para banqueiros e clientes! Não há exceção. Os “conservadores” que depositam sua sobra de caixa estão perdendo dinheiro; os “pouco líquidos” estão perdendo em dobro; os clientes estão perdendo linhas e pagando muito mais.

No Brasil: idem!