Meus caros,

Em 22 de janeiro, o Valor Econômico publicava uma manchete que dizia algo como “Coface prevê um banho de sangue”. A top jornalista Cristiane Perini Lucchesi escrevia a matéria de Paris onde participava a meu convite do Seminário Global de Risco Paris que nossa companhia promove anualmente (lá, aqui e em vários outros países). Nesta 4af encontrei-me com ela, por acaso, num restaurante, e nosso comentário foi: “Puxa, na época parecia uma manchete bombástica, mas foi premonitória e nada exagerada“…

Talvez por conhecer bem demais as entranhas do processo de decisão dos bancos, eu sempre achei que esta crise seria diferente, pior do que qualquer outra, mas nem nos meus dias mais apocalípticos eu previa tamanho massacre.

Hoje, dia 10/10, 6af – leio e ouço (quase) surpreso que o mercado asiático derreteu espetacularmente (link do Terra, abaixo http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200810100648_RED_77520107 e que a Europa segue pelo mesmo caminho.

Mas por que isso? Estão seguindo o Dow Jones, em NY? Não! Explico:

  1. O mercado acionário é 100% globalizado. Os fundos de investimentos e os asset managers – ambos gerenciam os trilhões que seguradoras e fundos de pensão têm em caixa – investem em ações (e outros ativos) em todas as bolsas (e através de outros mecanismos) do mundo todo.
  2. Quando têm que fazer caixa na sua unidade matriz (a maioria está no EUA onde a liquidez está mais apertada), começam a vender nos lugares onde já realizaram lucro (para mostrar resultado). A coisa chegou num ponto que estão vendendo em toda parte.
  3. Não faz sentido econômico a Ásia e o Brasil caírem tanto, pois é onde a crise pegou mais levemente, mas os estrangeiros precisam fazer caixa, estão vendendo e pronto. A coisa é simples e qualquer explicação mais “inteligente” é balela.
  4. Também é simples por que mesmo estando menos afetado nosso mercado muitas e muitas vezes cai mais do que o afetadíssimo mercado americano. O nosso mercado (assim como todos os outros) é muito menor do que o americano. Se alguém colocar uma ordem de venda de USD 100 mi de ADRs da Petrobras em NY, não faz nem cócegas no índice Dow Jones, mas se vender R$ 100 mi de ações de Petrobras aqui, a casa cai.

A expressão “O céu é o limite” definitivamente deve ser substituida pelo “O magma é o limite”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Magma

Reparem também no seguinte: reforço minha visão de que esta crise “maior” está sendo alimentada por uma crise crise “menor” que é a falta de liquidez do cidadão comum. Notem que:

  1. A crise bancária tem início na insolvência dos bancos americanos e britânicos. Este assunto já está (em tese) equacionado. Porém, a crise de liquidez no mercado interbancário, não – e nem irá se equacionar, salvo se a federalização dos bancos acontecer! Mas o Bush não quer, está resistindo e está sózinho, pois até o liberal-libertário-libertino Henri Paulson já se engajou na tese dos “marxistas-leninistas” Roubini e Krugman.
  2. A consequência óbvia do processo acima todos sabemos: é a crise de crédito que já nos atinge no dia-a-dia. Só que essa crise de liquidez, que para o cidadão americano é muito mais aguda, está forçando-o a resgatar todos os investimentos que permitam fazer caixa rapidamente.
  3. E lá não se investe “na poupança” como aqui. O John Smith, do meio do Kentucky, tem carteira de ações com o banco local. Só que o banco local investe numa carteira da Merril Lynch, que por sua vez comprou ações em Kuala Lumpur, na Malásia, e na Bovespa, do Brasil. Quando Mr. Smith precisa trocar uma peça do seu trator e arrumar a cerca da fazenda, e o First National Bank of Kentucky diz para ele, “Sorry, sir, no credit”, ele tem que ‘fritar’ sua carteira de ações e inicia (juntos com outros milhões de cidadãos do mundo todo) o tsunami que testemunhamos (e que está afogando muitos de nós).

Ouço no rádio que “analistas” (aqueles, que tanto “respeito”…) dizem que A CRISE É DE CONFIANÇA. Sim, existe a crise de confiança, mas isso não é mais o centro gravitacional da crise maior: a coisa agora “progrediu” para crise de caixa mesmo, por conta da ausência generalizada de crédito.

Uma noite com a indústria – ontem palestrei e conversei reservadamente com muitos empresários e me surpreendi com algumas informações que obtive:

  • Uma pesquisa informal mostrou que 48% dos participantes de um determinado evento já sentiam os efeitos da crise no financiamento bancário de suas empresas. Meu intelocutor – um líder empresarial – cinicamente me disse: “É que os outros 48% ainda não foram ao banco pedir empréstimos este mês”. Corretíssimo.
  • Vários empresários me perguntaram, em público e reservadamente: “Qual é o risco de bancos brasileiros quebrarem?”. Notem que são pessoas esclarecidas e que estão acompanhando o esforço do Banco Central em garantir que aqui não falte liquidez e mesmo assim há uma legítima preocupação. Procurei tranqüilizá-los, pois acho que nosso sistema é solvente, mas impressiona o poder que uma crise dessas tem de assustar a sociedade.
  • Um empresário cuja empresa fatura R$ 25 milhões (i.e. uma empresa do chamado Middle Market e que não tem, portanto, uma equipe financeira formada na NASA), recebeu uma oferta de um banco estrangeiro de grande porte (lá e aqui – não, não é o meu ex-ABN) para FAZER A MESMA OPERAÇÃO DE ALTA COMPLEXIDADE E RISCO QUE A SADIA FEZ E ONDE PERDEU RIOS DE DINHEIRO E DE CREDIBILIDADE. Esta foi a pérola do ano para mim. O gerente que fez a oferta e seus superiores que o autorizaram deveriam ser presos ou banidos do mercado financeiro (para que ter certificação da ANBID se é para usar seu conhecimento de forma IRRESPONSÁVEL?). A Sadia, pelo porte e prestígio que tem, conseguiu linhas rapidamente para cobrir o rombo e refazer seu caixa. A empresa do meu amigo estaria quebrada hoje se o empresário não fosse esperto e negasse.

E vamos que vamos porque este será mais um dia quente por aqui.

Saudações, Fernando