Caríssimos:

É difícil escolher por onde começar. Depois de baterem cabeça durante 6 meses, os líderes do nosso Planeta Azul (incluindo os brasileiros) decidiram resolver tudo em uma semana, mais precisamente em um único fim-de-semana.

Agenda cheia – enquanto os 15 principais eurolíderes se reuniram extraordinariamente em Paris para tratar da crise deles, os ministros das finanças do G7 e do G20 se reuniram em Washington para discutr a crise do mundo todo – e neste último jamboree até o nosso Ministro Mantega participou e discursou. Para arrematar, também aconteceu a reunião anual do FMI e do Banco Mundial.

Algumas notas relevantes

1. A BOA NOTÍCIA – HOUVE CONVERGÊNCIA À TESE DE SE CAPITALIZAR OS BANCOS COM DINHEIRO PÚBLICO, AO INVÉS DO EXÓTICO PLANO PAULSON (i.e. comprar ativos podres, criação de fundos, mercado secundário, etc. OS EUA IRÃO SEGUIR O REINO UNIDO E A EUROPA DO EURO VAI JUNTO.

2. Mas por que demoram tanto para decidir sobre o óbvio?

  • Já dissemos que ultra-liberais como Bush et caterva têm imensa resistência de anexar às suas já surradas biografias palavras como “…durante o seu mandato foi responsável pela estatização dos bancos americanos...”;
  • OK, o governo decide comprar ações dos bancos, mas e o resto, e os detalhes? (i) quais bancos? (ii) a que preço? (iii) qual o percentual de controle? (iv) com quais direitos? (v) como e quando desmontar tais operações, etc. A lista de complexidades e dúvidas é imensa para qualquer um;
  • O lado político, com ou sem eleição [Obama vs. McCain].

Imaginem a situação abaixo descrita pela Bloomberg, i.e. o governo americano tendo que injetar capital para salvar o Morgan Stanley, banco de investimentos mega-protagonista nesta hecatombe financeira. Imagine a situação do Henri Paulson tendo que explicar isso para os eleitores, para os seus vizinhos, filhos, etc.

Morgan Stanley “Urgently needs rescue” by the U.S. Treasury, which should buy preferred stock to help protect Mitsubishi UFJ Financial Group Inc.’s stake in the investment bank, George Soros wrote in the Financial Times today.

Notem que até o George Soros dá palpite. Logo ele, que de tanto especular quebrou o Bank of England em 1992, desvalorizou a Libra Esterlina e ganhou USD 1 bilhão em um único dia, segundo diz a lenda.

E esta outra abaixo: além dos bancos, seguradoras, investidores e fundos de investimentos, muitos Estados americanos também estão ‘beijando a lona’  (como se diz no mundo do boxe).

California, Alabama and Massachusetts are urging the Fed and Treasury to include their securities in rescue plans designed for banks and businesses. The $2.66 trillion U.S. market for state and city bonds has been all but frozen since Lehman Brothers Holdings Inc., weighed down by losses in mortgage-backed bonds, declared history’s largest bankruptcy on Sept. 15.

A Califórnia, ensolaradao estado governado pelo Governator Arnold Schwarzenegger, precisa de UD 7 bilhões, do contrário faltará merenda escolar nas escolas públicas, entre outras amenidades – não é piada!

California has said it needs to sell as much as $7 billion in notes to maintain its schools, health system and other public services. The Bush administration said it is reviewing the states’ financial positions.

Enquanto isso na Europa…

…entre um gole de Veuve Clicquot e um naco de terrine de fois gras, os líderes europeus cedem ao:

  • Charme de Nicola Sarkozy, Presidente da França e, conforme já escrevi aqui, candidato ao futuro cargo de Presidente do Mundo. Ele está aproveitando como ninguém sua passagem como Presidente em Exercício da União Européia – cargo itinerante, que muda de mãos a cada seis meses.
  • Pragmatismo de Gordon Brown, escocês que lidera o Reino Unido que teve ‘guts’ para lançar o plano de capitalização, i.e. estatização dos bancos britânicos. E que agora é copiado por todos! Detalhe: a carreira política dele estava com os dias contados e talvez agora ganhe uma sobrevida.

Abaixo, dois textos de primeira qualidade em inglês (lamentavelmente), sobre o affair Europa. O primeiro link é da Business Week e o segundo é do Wall Street Journal.

http://www.nytimes.com/2008/10/13/business/13europe.html?pagewanted=1&hp

http://online.wsj.com/article/SB122381862224826507.html

E o Brasil até que mandou bem

Gostemos ou não do governo Lula e/ou do Ministro Mantega, o fato é que partiu do próprio Henry Paulson a indicação para que o nosso Ministro da Fazenda fosse o ‘chairman’ da reunião do G20 – e isso é algo muito positivo. Pelo que eu li na imprensa daqui e lá de fora Mantega não empolgou, mas também não decepcionou. Fez um discurso politicamente correto a partir da ótica de uma nação emergente que já fez muita lambança no passado, que levou muitos pitos internacionais em público, mas que agora está bem arrumadinho e sofrendo do mesmo jeito que antes. “Assim não dá, né, Bush!”…

Brazilian Finance Minister Guido Mantega suggested the IMF should “establish a new set of measures to strengthen and protect” the world financial system, shifting focus away from the U.S. and European models it has long championed.

“The world is watching incredulously as the crisis reveals serious systemic weaknesses and policy limitations in what used to be considered model countries, countries that were presented as the reference point for good governability, as examples to be emulated,” he said. “We need a new financial structure, with more controls and less favoritism.”

Brazil has for years pushed for an IMF restructuring that would increase its sway in the institution’s decisions.

Mantega chaired a Saturday meeting of leaders from the G20, a group of the world’s biggest economies, including the European Union, Brazil, Mexico and Argentina. The group will meet again in Sao Paulo on Nov. 8 and 9 to further address the economic crisis.

http://www.businessweek.com/ap/financialnews/D93P67S81.htm

Uma nota sobre o FMI – há 25 anos eu escuto a esquerda brasileira esculhambar com o FMI – lá atrás tinha a famosa frase “Fora FMI” (que alguns saudosistas ainda usam, talvez ignorando que o Fundo já se foi…). Agora temos o presidente Lula (um dos que mais a usou) vociferando esta semana: “Cadê o FMI??? Agora que o problema é lá na casa deles, cadê o FMI???” – acho que foi um desopilar de fígado de várias décadas de ódio retido…

O fato é que o FMI tornou-se uma organização patética. No passado, seja lá qual for o viés político de cada um e o grau de entendimento das suas constantes “visitas” ao Brasil, o fato é que o Fundo tinha um missão clara e a exercia com galhardia: país de terceiro mundo quebrou? Precisa de dinheiro de longo prazo? O FMI ajuda, mas o país terá que engolir um receituario de política econômica duríssimo (juro alto, recessão, sem inflação, corte de gastos públicos, etc.).

Agora que países como o Brasil e boa parte do resto do mundo arrumaram a própria casa, o tal do FMI passou a fazer projeções econômicas ridículas: sempre errando pra cima, tornaram-se os bastiões do otimismo. Quer dizer, até o mundo derreter semana passada, pois agora o managing director do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, passou a dizer frases de efeito e fora do tempo, como: “O sistema financeiro mundial está à beira do abismo”. Faça-me o favor, eu quero novidade!

Uma nova liderança mundial

Os chefes de estado do mundo (quase) todo clamaram neste final-de-semana por uma nova arquitetura das finanças internacionais, ou como disse alguém, “para novos tempos, uma nova governança”. Mas como bem disse outro líder, “é difícil achar uma solução global quando temos problemas locais”. É isso mesmo. A natureza do problema é similar no mundo todo, mas todos os detalhes são locais e cada país tem os seus para resolver – em particular as injunções políticas.

Curisiosidade final – vocês sabiam que o FMI é sempre liderado por um europeu e o Banco Mundial sempre por um americano? É uma convenção internacional, não escrita, mas é assim que vem funcionando desde sempre.

Abraços e que tenhamos todos uma semana menos turbulenta!

Fernando