Confesso que a reação de hoje dos mercados me surpreendeu. Quer dizer, surpreendeu a alta ser tão violenta (NY/Dow Jones: +11,5% e Bovespa: +14%). Afinal, tudo o que foi dito/escrito por líderes dos principais países neste final de semana já estava mais do que previsto e deveria “estar no preço”.

Mas não estava. A razão para isso tudo é que o mercado – que não agüentava mais se auto-imolar – resolveu então acreditar que os governos dos EUA e Europa estão falando sério quando dizem que resgatarão bancos grandes com problemas de solvência. E por tabela tal medida restaurará a liquidez do mercado financeiro (e.g. money markets, commercial papers, etc.).

A notícia abaixo, da Bloomberg, resume bem os motivos que levaram os mercados à euforia. Exemplos:

  1. 1,2 trilhão de euros (USD 1,8 tri) é a somatória das garantias que os governos de Alemanha, França, Espanha, Holanda e Áustria anunciaram hoje.
  2. Cada país o fará à sua moda, mas vários anunciaram que, além da capitalização de bancos com problema de solvência, os governos também irão garantir o crédito interbancário.
  3. Começam a sair informações sobre quais bancos serão semi-estatizados. No Reino Unido seriam o Royal Bank of Scotland, HBOS e LloydsTSB. Nos EUA, os rumores sugerem Citigroup, Wells Fargo, JPMorgan Chase, Bank of America, Goldman Sachs, Morgan Stanley, State Street,Bank of New York Mellon e Merrill Lynch.

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=azerJ573HcbI&refer=home

Fica patente que o mercado, que IGNOROU SOLENEMENTE OS GOVERNOS E BC’s DOS MUNDO TODO, queria uma palavra que trouxesse de volta CONFIANÇA. Bom, ninguém pode reclamar das declarações e documentos divulgados hoje. Então justifica-se a alta.

No entanto, a alta foi grande demais para um mundo ainda sem liquidez. Isso sugere ESPECULÇÃO E NÃO ME SURPREENDEDEREI SE O MERCADO DEVOLVER PARTE DESTES GANHOS na 3a e/ou na 4af. A ver.

Agora, achar que está tudo lindo e maravilhoso e que já se pode assumir posições direcionais para bolsa, moedas, commodities, etc. é um desatino. Mais que isso, considerar que “O PIOR JÁ PASSOU“, como adoram dizer certos colunistas e “analistas” badalados é outro. Por que:

  1. Não há um único analista neste planeta divergindo de que teremos uma bela recessão global até 2010.
  2. Todos os líderes mundiais (menos os nossos) disseram que irão proteger APENAS bancos grandes e relevantes, i.e. não estamos livres de mais turbulências financeiras.
  3. Tirar o nó do crédito interbancário é apenas o primeiro passo de uma longa jornada rumo à retomada da normalidade dos mercados de crédito (locais e internacionais).
  4. Nesse meio-tempo, por conta da recessão (item 1), empresas quebrarão às pencas, no mundo todo, e isso irá atrasar a retomada plena do crédito num movimento de ida-e-volta por conta do conservadorismo dos comitês de crédito dos bancos e dos capitais reduzidos destes.

PS: no item 4, a experiência de mais de 60 anos da Coface em crises internacionais (e os meus 25 anos também) justifica o pessimismo.

O Brasil sofrerá menos, provavelmente, mas sofrerá também. E o “provavelmente” não se refere às variáveis macroeconômicas (que geram tanta manchete, artigos, etc.), pois essas estão bem demais.  Refiro-me aos aspectos microeconômicos que afetam a sua e a minha vida, pela quebra de empresas e redução do crédito disponível. Sobre isso poucos falam (a reportagem da Cris Barbieri abaixo explora o tema – https://blogdocredito.wordpress.com/2008/10/12/escassez-de-credito-muda-financiamento-de-empresas-por-cristiane-barbieri-da-folha-de-sp/ ).

Fica aqui, portanto, o meu mais solene conselho de que tenham prudência, seja na economia real, seja no trading.

Abraços, Fernando