A economia global pode ser entendida como uma pessoa muito doente que passou duras semanas na UTI [Congresso, Gabinetes, etc.], foi desenganada pelos médicos [FMI, entre outros] e chegou a receber a unção dos enfermos [da esquerda mundial], pois os sinais vitais davam pouca esperança de sobrevivência.

No entanto, após doses cavalares de medicamentos de última geração [aquisição de controle estatal dos bancos problemáticos], nosso paciente superou o risco de vida, mas ainda continua a inspirar cuidados intensivos.

Analisemos então a situação dos sistemas e principais órgãos desse paciente tão enfermo:

I. Internacional

1.1 Ajuda governamental

(a) EUA: o Secretário do Tesouro Henri Paulson, que não entende nada de crédito, pois foi investment banker a vida toda, passou o dia dizendo que comprará ações de bancos, mas quer que estes emprestem esse dinheiro rapidamente (USD 250 bi só para começar). Ele ignora o fato que bancos comerciais dão crédito em quantidades, prazos, garantias e preço de acordo com outras variáveis que não só a sua própria situação de liquidez. Fazem isso, portanto, se e quando percebem que as condições macroeconômicas e o perfil de risco do tomador do crédito justificam.

Insisto que o governo americano irá tirar a ‘corda do pescoço’ de muitos dos 7 mil (sete mil) bancos americanos, mas isso não significa que as torneiras do crédito irão jorrar dinheiro para os tomadores hoje atordoados pela secura que os afligem. Vai demorar 6 meses, 1 ano, até a coisa se normalizar. E se a recessão for brava mesmo, como imaginamos, a retomada do crédito será muito lenta.

(b) Europa – a grande surpresa (negativa) da temporada é o tamanho do estrago financeiro na Europa. Se somarmos os pacotes-jumbo que os países do Velho Continente já disponibilizaram para seus bancos, garanto que, levando-se em conta as populações de EUA e Europa, a ajuda americana (de USD 700 bi) sairá barata perto do que a turma do outro lado do Atlântico Norte irá colocar.

1.2 FMI e os bancos – números do Fundo (sujeito a todo o tipo de crítica e desconfiança) indicam que as perdas dos bancos (no mundo) chegam a USD 1,4 trilhões. Ainda segundo o Fundo, os mesmos bancos precisam de, no mínimo, USD 675 bilhões de capitalização. Onde quero chegar? Se os números do Fundo estiverem corretos, os bancos precisarão capitalizar-se em, no mínimo, 50% do que perderam durante a crise. E nem precisamos apostar que os Bancos Centrais e Tesouros irão aportar o mínimo para que os bancos ‘sobrevivam’. Imaginemos então o quão menor será o poder de alavancagem, i.e. de emprestar, do sistema! É por essas e por outras que eu sou tão negativo quanto à recuperação econômica do Planeta Azul. Vai faltar coragem, pois os banqueiros estão machucados e na berlinda com todos os holofotes em cima deles e vai faltar capital para emprestar mesmo.

1.3 O mercado interbancário – o objetivo dos governos deverá ser atingido em breve. O quão breve não se sabe, pois o arcabouço jurídico das medidas a serem tomadas é complexo e, pior, ninguém sabe quais bancos irão sucumbir com patrocínio governamental. Em outras palavras, acho que não adianta muito o governo britânico salvar 3 ou 4 bancos, pois há uns outros 30 menores que continuarão na sêca creditícia. Conforme já disse há tempos, não há chance do crédito para PJ e PF se normalizar enquanto o mercado de crédito interbancário não se normalizar.

Conclusão: o tecido bancário necrosado precisou de transplante de controle acionário. Sucede que há uma série de incompatibilidades entre doador e receptor dos órgãos [dinheiro]. Exemplos: qual o percentual de controle acionário dos governos, a que preço se dará essa capitalização, a diluição dos atuais acionistas e quais serão os poderes dos governos na gestão de tais bancos. Não está claro também o mecanismo de saída desses governos. Talvez o pior de tudo seja o fato que nem todos os necessitados receberão aquilo que querem/precisam (seja na quantidade ou no preço) e isso vai dar muita dor de cabeça política em todos os países. Minha previsão é de um festival de fusões e aquisições de bancos, i.e. concentração bancária, em todos os países.

II. Brasil – virá no próximo post.

Abraços, FB