Caros,

O Presidente Lula vocifera, os líderes da indústria nacional idem, a mídia dá corda e o povo e as empresas encontram-se num misto de indignação e perplexidade.

Não é questão de culpar ninguém, mas o governo e a mídia ao fazerem aquele estardalhaço com a liberação dos compulsórios – que foi uma ação CORRETA -,  esqueceram (ou não sabiam) que a injeção de liquidez no sistema É CONDIÇÃO NECESSÁRIA, MAS NÃO SUFICIENTE para o crédito volta a ser irrigado para a economia real. Com essa gritaria, estão todos ‘chovendo no molhado’ e não chegarão a lugar nenhum, pois falham na argumentação desprovida de fundamento.

Empréstimo privado não é aprovado por Medida Provisória ou por volume de manchetes de jornal. É decisão privada de cada banco e visa preservar os interesses dos acionistas.

Ou alguma empresa vende a prazo para quem ela não quer? E o comerciante do mercadinho do seu bairro? Ele vende fiado para quem ele não confia? E você? Empresta uns R$ 20 mil reais para aquele vizinho que está com um probleminha de caixa para pagar a parcela semestral do imóvel? Banco é igual…e por dever de ofício.

O fato é que, além do aperto que muitas empresas estão passando, a sociedade ficou mal acostumada com os volumes crescentes de crédito disponibilizados pelos bancos nos últimos anos. Eu, como segurador de crédito, aumentei em 40% a carteira de risco de crédito da Coface nos últimos dois anos. Todos os agentes de crédito fizeram isso.

O crédito ficou mais fácil para todo mundo, i.e. para os bons e sólidos, mas também para gente que mal sabe escrever o nome (a minha diarista aqui incluída). Empresas que antes tinham que implorar (fato!) por uma conta-garantida de 180 dias, caríssima, passaram a fazer operações de 2 a 5 anos, “management buy-out“, etc. E as garantias, então, que haviam sido reduzidas drasticamente? No segmento Middle Market, por exemplo, o desconto de duplicata quase desapareceu, pois havia tanta oferta de linhas que os clientes escolhiam de quem tomariam, negociando metade das garantias ou até a sua eliminação integral.

Estou falando porque fui diretor comercial de Middle Market e Corporate até 2004 e vi o volume de crédito dobrar nos últimos 2 ou 3 anos. Créditos que em 2002, 2003 eram impossíveis de serem aprovados, nos últimos dois anos saíam com tranqüilidade!

Mas por que isso aconteceu? Simples. Porque o Brasil surfava uma onda perfeita graças à economia mundial em estado de graça, as commodities em alta (supostamente eterna…) e um mundo de investimentos diretos aportando em nosso país. As empresas apresentavam belos projetos de expansão e as famílias comprando a prazo com vigor, pois o emprego e a massa salarial só cresceu (e muito).

Agora, amigos, tudo mudou! A economia mundial está em péssimo estado e a contaminação já chegou aqui, de leve, mas chegou. E os bancos locais, assim como os internacionais, vão olhar primeiro, analisar em detalhe a cara da tempestade, para só depois abrir os cofres com cuidado (e não será para todo mundo, não!).

Ora, ora, e estarão os bancos errados? Hoje sabemos que foi justamente por termos banqueiros conservadores que nosso país está livre da hecatombe que assola os EUA e a Europa. Não dá para querer tudo na vida, lamento dizer.

Espero ter dado alguma luz para os participantes deste blog. Seria mais fácil meter o pau na sempre antipatizada banca nacional, mas acho que a questão é muito mais complexa do que simplesmente criticar. É mais importante para você e sua empresa saber como lidar com a situação – e este blog está escancarado para responder suas perguntas e ajudá-lo.

Cordial abraço,

Fernando