Caros – venho conversando (por dever de ofício e também por causa do blog) com algumas feras do mercado de crédito. Abaixo reporto algumas visões, percepções e verdades absolutas:

1. Linhas de Comércio Exterior:

Como é conhecido, esta foi a primeira fonte que secou. Os bancos internacionais que davam linhas para os nossos bancos repassarem para as empresas brasileiras, ou que emprestavam diretamente para as mega empresas, pararam de emprestar. Como estes bancos estão sem liquidez nas suas próprias matrizes (no seu “mercado local”), foi natural cortarem linhas para o exterior.

Sabemos que muito cliente brasileiro simplesmente não está pagando a linha de volta para o banqueiro brasileiro – sim, está em “default”. Sabem que se pagarem não terão a linha rolada (esta externa, ou outra local em reais).

Muita gente – SEM NOÇÃO DO QUE DIZ – quer minimizar o problema, dizendo que as linhas externas são apenas “10% do total do mercado de crédito brasileiro”. Sim, mas representa muito mais do que 10% das linhas de crédito que empresas-chave da nossa economia tomam – em muitas delas pode representar até 30%, e isso é muito! E essa escassez também gera uma tremenda desorganização no sistema, pois a linha externa será – possivelmente – substituída por uma linha doméstica que poderá ser tirada de outra empresa que também precisa!

O Governo começa a tentar solucionar o problema.

a. BNDES

Mudaram algumas regras internas da sua linha de pré-embarque visando apoiar empresas maiores também. O BNDES, que estava com seu orçamento prá lá de tomado (conforme antecipado aqui no blog), passou a contar com uma linha extra do Tesouro Nacional de USD 5 bilhões. O BNDES me informou o seguinte:

  • É uma linha similar a um ACC, usualmente tomado diretamente dos bancos aqui instalados.
  • A linha vem do BNDES, mas a transação é intermediada por um banco aqui instalado, i.e. o empresário precisa convencer o seu banco de relacionamento a aprovar o crédito (pois esse banco irá garantir o empréstimo junto ao BNDES) e tocar o processo junto ao banco federal.
  • O processo é bem rápido, tipo 10 dias a partir da entrada junto ao BNDES.
  • O custo não me foi informado, mas será bem mais caro, pois o custo do BNDES encareceu consideravelmente.

b. Banco Central

Cria uma linha de crédito para bancos captarem diretamente das reservas cambiais do país. Abaixo eu passo o link da Resolução 3.622. Minha leitura é que o Banco Central está mais liberal e flexível na aceitação de garantias. A regulamentação é confusa, pois diz que pode-se oferecer uma ampla variedade de ativos em garantias, mas em outra parte diz que no primeiro leilão aceitará apenas Global Bonds…

Outros pontos relevantes:

  • O Banco Central é mais duro do que qualquer banco privado no que concerne ao volume de garantias aceitas, pois exige 120% do valor do empréstimo se o ativo tiver o rating AA (o melhor possível pelas regras do Brasil), chegando até 140% se o rating for B.
  • Prazo máximo: 360 dias, i.e. bye-bye recursos externos para financiar investimentos. Agora ‘só’ dá para financiar o giro do negócio e olhe lá.
  • Custo da linha: será definido em leilão, o que é justo. O primeiro será na 2af, dia 20. Tá em cima da hora, mas dá para correr atrás do seu banco logo cedo.
  • Não foi anunciado o volume a ser colocado à disposição, mas nossas reservas estão grandes…

PS: taí o Fundo Soberano que o nosso Ministro Mantega tanto queria criar. O Brasil, ao invés de aplicar as suas reservas internacionais em títulos do Tesouro dos EUA, agora as está aplicando para salvar as nossas exportações – perfeito, na minha opinião. Ou quase…: podia ser menos restritivo e acho que o custo vai ficar salgado…

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1890

Melhorando o seu crédito: o amigo exportador/importador já sabe que disputará a tapas um recurso muito escasso. Para conseguir ‘abocanhar um naco desse bolo que será pequeno para tanta gente faminta’, eu sugiro:

  • Negocie forte e use o seguinte argumento: “Hoje o mercado está seco e eu [empresário] não tenho para onde correr, mas logo o mercado estará líquido, cheio de oferta para a minha empresa, e será natural que no futuro venhamos a dar preferência aos bancos que foram parceiros e nos apoiaram neste momento difícil…”
  • Essa frase – ou similar – é para ser dita com firmeza e profissionalismo. A maioria das empresas de médio e pequeno prazos o dizem “com vergonha” ou “com agressividade”. Ambas inapropriadas. O gerente do banco tem que sentir que perderá um cliente importante se não atendê-lo direito.
  • Em tempos bicudos no mundo do crédito, você tem que maximizar a transparência com os bancos, visando minimizar a percepção de risco que eles terão de você e da sua empresa. Aqui ao lado, clique em “Melhorando seu Crédito” e encontre várias dicas.
  • Mostre todo o potencial de negócios que você e sua empresa têm a oferecer para o banco (vale tudo, até a sua conta-corrente PF, sem falar nas dos seus funcionários, seguros, etc.). Isso é uma moeda de troca, pois o gerente irá temer perder tudo isso assim que a crise acalmar.

2. Mercado doméstico:

Adoraria ter boas notícias, mas não as tenho. O que apurei:

a. Banco Central:

Continua no seu esforço de liberar liquidez. Essa prática, conforme venho informando, ganhará o Oscar de Medida Econômica de Governo Pior Entendida do Ano.

O link abaixo mostra a mais nova regulamentação do Banco Central que aumenta o leque de ativos que permite maior liberação de compulsório. No entanto, nada muda na essência da iniciativa: é para ajudar os bancões a comprarem carteiras de crédito dos “banquinhos” (de até R$ 7 bilhões de Patrimônio Líquido!!!)para que estes possam ter liquidez e pagar seus depositantes.

http://www.bancocentral.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P&cod=1888

E por que tais compras estão acontecendo a passo de tartaruga manca? Por que os bancões estão com apetite de risco BAIXÍSSSIMO!!! Se eles mal estão dando crédito para os seus clientes antigos e conhecidos, porque iriam comprar créditos de empresas/pessoas desconhecidas?

b. Crédito consignado:

A alta do custo do dinheiro torna pouco atraente este tipo de empréstimo que foi a coqueluche do mercado brasileiro nos últimos 5 anos. Como muitos bancos pequenos e médios querem vender esse tipo de carteira, eu imagino que terão que fazê-lo com algum prejuízo e isso eles também não querem…

c. Crédito privado (dos bancos conhecidos):

O crédito está escasso, porque os bancos, i.e. os seus comitês de crédito, estão muito conservadores. Ponto. Não há nada nem ninguém que os fará mudar de opinião nesse momento difícil. E como temos alguns grandes bancos estrangeiros no Brasil, o conservadorismo de suas matrizes poderá atrapalhar nessa hora. Algumas informações colhidas:

  • Para muitos bancos não existe mais limite aprovado para vários setores de maior risco, limites mais altos (e.g. R$ 10 milhões), prazos acima de 1 ano, etc.
  • Em outras palavras, para cada emprésimo o comitê se reúne e delibera à luz do momento (econômico e de caixa). Isso atrasa e muito o processo e poderá levar empresas a situação de iliquidez.
  • O spread bancário mais que dobrou de preço. Se a SELIC é perto de 1% a.m., a empresa que pagava pouco acima disso agora paga 2% a.m…
  • Os executivos de bancos têm ordens explícitas de reduzir o risco, mas não de reduzir os lucros, i.e. os juros serão muito salgados nos próximos 12 meses.
  • Os bancos com quem conversei estão refazendo os seus orçamentos, já prevendo aumento das perdas de crédito.

Como evitar ficar sem linha e/ou pagar muito mais caro? ^Vale a mesma regra acima. Negocie duro.

Concluo dizendo que o momento é difícil para todos – e se servir de consolo, está sendo para todo tipo de empresa (o que é raro acontecer num capitalismo tão piramidal como o nosso). Redobre a sua atenção na hora de:

  1. Assumir compromissos com clientes, e.g. aceitar um grande e desejado pedido (que aumentará a sua fatia de mercado, mas que poderá destruir o seu capital de giro e quebrar a sua empresa – cansei de ver isso).
  2. Dar crédito, i.e. vender a prazo por períodos longos e/ou para quem você não está muito certo da solidez, etc. Falo isso com seriedade, pois a Coface vive de segurar esse tipo de risco e nós reduzimos o nosso apetite. Razão: por conta das grandes perdas que estão acontecendo no mundo todo – será que não vai chegar aqui?…
  3. Deixar para tomar crédito em cima da hora. Essa prática, tão comum em nosso país, é um veneno para qualquer empresa – especialmente neste momento.

Meu abraço, esperançoso que essa crise passe logo e que os amigos do blog saiam-se bem desta fase difícil.

Fernando