[Atualizado às 19:20 hs do dia 18/10, em função de problemas técnicos no final do post]

O Renato Gimenez do ótimo O(s) Fim(ns) da História ( http://www.ofimdahistoria.co.cc/ )está pesquisando as consequências das crises cíclicas do capitalismo. Em comentário recente, ele pede que alguém compare a depressão de 1929, o “crash” de 1987 e a crise da Rússia para concluir perguntando: “o que esta crise possui de singular? E em face das outras crises, o que ela possui de tão terrível?”.

O Hugo Mourão, fera da nova geração de executivos de TI e que toca o HTMLanguage ( http://htmlanguage.wordpress.com/ ), blog focado em TI, deu uns pitacos meio tímidos…mas acho que parou porque lembrou que no dia seguinte o chefe (eu…) poderia querer aprofundar o assunto e…valeu, Hugo, mete a cara mesmo!

Mas chega de blá-blá-blá. Comparemos as crises:

I. 1929 – Crash da Bolsa, ou Grande Depressão:

  1. O que causou: eu, o Hugo e a torcida do Glorioso Santos F.C. de Glórias Mil, sempre acreditamos que a Grande Depressão foi causada por um excesso de oferta de bens e serviços, vis-a-vis a capacidade de consumo da população. Esse “boom” teria acontecdio no pós-guerra (I Guerra Mundial). Mas quem puxou o ‘gatilho’ que detonou a crise foram os investidores de Wall Street, quando concluíram que as empresas perderiam dinheiro para em seguida vender massivamente suas ações.
  2. O que aconteceu: houve uma massiva deflação dos preços das commodities, dos imóveis, dos bens industriais e muito desemprego. Bancos, que financiavam ações e commodities (como café aqui no Brasil), quebraram aos milhares. E o mundo ficou quase 10 anos empobrecendo continuamente. A teoria mais aceitável para mim é que a economia global se recuperou graças a II Guerra Mundial.
  3. E depois? Analisar o pós-Depressão de 29 é complicado porque houve uma guerra com profundas alterações na geografia política e econômica do mundo. A destruição se deu na Europa e no Japão, enquanto que os americanos tiveram a sua indústria fortemente desenvolvida nesse período. E como venceram a guerra e salvaram a pele dos ingleses e dos russos, tornaram-se a potencia hegemônica (ainda que a então URSS desse trabalho no campo político-militar).

Conclusão: as causas parecem claras, ainda que exista um monte de gente inteligente que tem visões diferentes. O link da maravilhosa (para curiosos generalistas sem tempo como eu) Wikipedia trata dessas divergências.

http://en.wikipedia.org/wiki/Causes_of_the_Great_Depression

II. O “Crash da Bolsa” de 1987

  1. O que causou: a partir de 1982, o capitalismo corporativo americano viveu uma onda de eufórica expansão graças aos seguintes eventos: (a) Fusões e aquisições gigantescas, (b) Compras de empresas e ações alavancadas por empréstimos, (c) A expansão do mercado de Junk Bonds (títulos de alto risco e de alto retorno para o investidor), permitindo que empresas de 2a. linha crescessem além do que o fariam normalmente. Já 1986 e 1987 foram anos de enorme valorização da bolsa até que…
  2. O que aconteceu:… no dia 19 de outubro, uma 2af (a “Black Monday”), o índice Dow Jones da Bolsa de New York derreteu 23% sem aviso prévio. Não há uma explicação econômico-financeira para o “gatilho” ter sido disparado. Sabe-se, porém, que houve uma detonação contínua de ordens de vendas dadas eletronicamente (computer trading) e isso obviamente acelerou o processo de queda do preço das ações.
  3. E depois? Nada! Ou melhor, sim, os investidores perderam bilhões. Mas naqueles dias pré-globalização o contágio da economia real foi baixo. Basicamente, o “mercado atleta” devolveu os “resultados anabolizados” que havia conquistado ao longo dos últimos dois anos – digamos que o mercado foi pego no “anti-doping” e pegou dois anos de “suspensão”.

Conclusão: uma crise em que, essencialmente, as empresas se valorizaram de forma irreal, em cima de uma perspectiva de resultados que não tinha lastro real. E, em linhas gerais, ficou por isso mesmo. Tecnicamente, não houve recessão.

Para saber sobre esta crise (e outras), visite http://www.lope.ca/markets/1987crash/ + http://www.federalreserve.gov/Pubs/feds/2007/200713/200713pap.pdf

III. Crise da Rússia, em 1998 (e da Ásia, em 1997…e do Brasil, em 1999)

  1. O que causou: os países desenvolvidos vinham de anos de prosperidade e, aos poucos, iniciou um processo de investimento (especulativo e na economia real) de países periféricos, mais especiamente no sudeste asiático. Com a queda do muro de Berlim, muito dinheiro (europeu) foi também para a Rússia e com a assinatura do Plano Brady e com o Plano Real (ambos em 1994), o Brasil também se tornou um porto seguro para tais investimentos internacionais.
  2. O que aconteceu: mega especulador George Soros – e outros – atacaram o Bath da Tailândia, desvalorizando fortemente essa moeda, o que fez com que a bolsa local perdesse muito valor, os juros subissem (visando estancar a hemorragia cambial) e uma crise cambial iniciou-se. Esse fenômeno espalhou-se como ‘fogo na palha’ por todos os países abertos da região e de forma similar. Na Rússia, que vivia no maternal do capitalismo, o governo lançava títulos (conhecidos pela sigla GKO) cujo lastro era a força das cotações das commodities exportadas pelo país. Quando essas entraram em declínio – em parte pela crise da Ásia -, o governo deu um default nos títulos (por conta de uma incipiente crise cambial) e muito dinheiro foi perdido. Logo em seguida, o preço do petróleo subiu e a Rússia se recuperou, mas o Brasil logo teve a sua moeda atacada, pois ficava claro para todos que o Real estava super valorizado. O governo FHC, com o teimoso Gustavo Franco à frente do BC, achava que podíamos viver com déficits na Balança Comercial sendo compensados pelas entradas de capitais na Balança de Capitais. Quando estas pararam porque os investidores assim decidiram, o Real desvalorizou-se, os juros subiram e o país só não quebrou porque o governo (via BB, segundo diziam) ofereceu “hedge”, via BMF, para todo os endividados em dólar.
  3. E depois? O FMI tornou-se banqueiro de metade do mundo nessa época. Todos esses países sofreram crises cambiais e profunda desorganização econômica. Os avanços de uma década foram destruídos em uma semana.

Conclusão: aprendeu-se que não dá para um país depender da entrada de capitais especulativos pois, ainda que traga prosperidade, esta será momentânea e superficial. Basta dar um ‘click’ e o dinheiro deixa o país massivamente.

Asian Financial Crisis EN.png

A comparação dessas crises com a atual seguirá num próximo post.

Mil perdões pelo texto sem revisão, mas às 2:30 hs de ontem a cabeça já estava cozida. O texto aqui postado era um ‘rascunho’ e este final.

Abs, Fernando