Os dois primeiros links abaixo, da White House, talvez entrem para a história como sendo o registro do início da Grande Reforma que alguns acreditam estar por vir.

Neste final de semana, o presidente dos EUA, George W. Bush, recebeu as visitas ilustres do francês Nicolas Sarkozy e do português José Durão Barroso que representaram a União Européia. O objetivo foi alinhar o discurso sobre a necessidade de se iniciar uma reforma do “Sistema”.

Será uma batalha duríssima, tanto no plano institucional (dadas as diferentes visões dos governos envolvidos), como no plano privado (pois se os bancos mal e mal controlam seus próprios negócios, como controlar instituições que operam fora do sistema, como Hedge Funds?).

Não acreditem no que digo. Reflitamos:

1. Diferenças Institucionais

Enquanto a Europa não demorou para semi-estatizar vários dos seus grandes bancos, Bush resistiu até à beira do colapso do sistema. Para começar, europeus não gostam de bancos, finanças internacionais, derivativos e assemelhados. Já deste lado do Atlântico, respira-se e vive-se banking & finance.  A indústria de serviços financeiros tem um peso importante no PIB americano e no modo de vida do cidadão (que é fortemente endividado). Americanos são liberais até o DNA, enquanto que os europeus são estatizantes e centralizadores. Nos EUA, o sucesso e o destaque público são admirados e incentivados, enquanto que na Europa ocorre o oposto.

Traduzo a seguir uma parte do discurso de Bush: “…Na medida em que façamos as mudanças institucionais e regulatórias para evitarmos a repetição desta crise, é essencial que preservemos as fundações do capitalismo democrático – o comprometimento para o livre mercado, à livre empresa e livre comércio. Nós devemos resistir à perigosa tentação do isolamento econômico e continuar a respeitar as políticas de livre mercado, que subiram a qualidade de vida e tiraram milhões de pessoas da pobreza no mundo todo…”.

Notem que Bush começa bem, mas a sua insistência no não-intervencionismo deixa claro que os europeus terão uma parada dura pela frente.

Este link traz os três discursos oficiais (em inglês), pré-evento.

http://www.whitehouse.gov/news/releases/2008/10/20081018-1.html

Após o evento, saiu este pouco revelador texto para a imprensa (abaixo), onde lemos que após a eleição de Barack Ob…, perdão, após a eleição do próximo presidente americano, no dia 4 de novembro próximo, um Summit será convocado – será nos EUA de novo. A partir desse encontro é que veremos com que grau de profundidade os líderes mundiais estão engajados na criação de um mundo novo.

http://www.whitehouse.gov/news/releases/2008/10/20081018-2.html

2. Gestão de Riscos dos Próprios Bancos

Um dos bons motivos que os governos tem para reduzir o grau de liberdade que os mercados financeiros e de capitais têm é o fato das próprias instituições financeiras não terem o melhor controle dos riscos que correm.

Exemplos? A história recente (últimos 10 anos) é rica o suficiente para se escrever uma enciclopédia sobre o tema. Mas só nestes últimos 12 meses podemos listar:

  • O caso do francês Societé Generale onde um único trader perdeu USD 7 bilhões, numa fantástica fraude interna.
  • O grupo que controla a minha Coface, o francês Natixis, foi surpreendido com perdas ao redor de EUR 1 bilhão, com suas operações nos EUA. Vários executivos foram demitidos recentemente.
  • E um dos controladores do mesmo Natixis, o gigante Caisse d’Epargne, acaba de anunciar a demissão do seu CEO, após descobrir que perderam mais de 800 milhões de euros com operações que foram feitas além dos limites autorizados (ver abaixo).
  • http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aGigtrnYsrsc&refer=home
  • Sem falar no maior fiasco das finanças bancárias internacionais: a aquisição hostil que o ABN AMRO, da Holanda, foi vítima ano passado. Bem, vítimas mesmo foram 2 dois dos seus 3 compradores! O Fortis, da Bélgica, quebrou espetacularmente e a divisão holandesa do ABN acabou sendo estatizada. O Royal Bank of Scotland (RBS, que patrocina os carros da Williams na F-1) ficou ilíquido e desacreditado a ponto do Bank of England ter assumido o controle do banco. Só o Santander, que ficou com o Banco Real aqui no Brasil, escapou ileso da “Maldição Holandesa”.
  • Além do RBS, o sistema financeiro britânico ficou na penúria, pois seus bancos corriam muito mais riscos com hipotecas no próprio Reino Unido e nos EUA do que seus acionistas e reguladores tinham idéia.
  • Nem precisamos falar da banca americana, pois esta implodiu.
  • E em toda a Europa e boa parte da Ásia, a crise bancária atinge mais agentes a cada dia que passa (ver abaixo).

ING (Holanda): http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aFEb7sgN0P2M&refer=home

Bancos da Coréia do Sul: http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aM5S3bpWfGZo&refer=home

3. Outros agentes e ativos não regulados

Não bastasse a endêmica falta de controle dos próprios agentes do mercado e a disparidade ideológica entre EUA e Europa, há ainda uma séria questão a ser resolvida: o que fazer com Hedge Funds e Credit Derivatives (CDS), que não são regulamentados?

Eu tenho uma opinião genérica – essa turma tem que ser regulada e pronto -, mas o tema é complicado demais para nos alongarmos ainda mais neste post. Confiram estes dois links importantes abaixo:

Sobre CDS: http://www.nytimes.com/2008/10/19/opinion/19cox.html?_r=1&scp=1&sq=;;Quoteswapping%20secrecy;;Quote&st=cse&oref=slogin

Sobre Hedge Funds: https://blogdocredito.wordpress.com/2008/10/15/1133/

Bom, é isso. Levar o pêndulo de um extremo para o ponto médio será uma tarefa para os deuses…

Abraços, Fernando