Olha, se isso acontecer mesmo e se funcionar direito, os franceses darão um ótimo exemplo para o resto do mundo – Brasil incluído.

A Ministra da Economia, Christine Lagarde, informou hoje que o governo injetará 10,5 bilhões de euros nos 6 maiores bancos de varejo da França, mas exigirá que esses recursos sejam direcionados para destravar o crédito para famílias e empresas.

Segundo o anúncio, o governo comprará Dívida Subordinada ao invés de comprar ações, como deverá acontecer nos EUA e na GB. Abaixo, segue a lista dos bancos “premiados”:

  1. Credit Agricole: 3 bilhoes de euros
  2. BNP Paribas: 2.55 bilhões de euros
  3. Societe Generale: 1.7 bilhões de euros
  4. Caisse d’Epargne: 1.1 bilhões de euros (*)
  5. Banque Populaire: 950 milhões de euros (*)
  6. Credit Mutuel: 1.2 bilhões de euros

(*) Esses dois mega bancos são controlados pelos próprios clientes na proporção do volume de negócios. É esquisito, mas funciona bem na França. Os dois são os controladores do banco de investimentos Natixis, que controla a Coface, empresa em que trabalho. Para finalizar, Caisse d’Epargne e Banque Populaire estão em negociação para uma fusão que resultaria num banco com 40 bilhões de euros de capital. Monstruoso!

Voltando ao apoio governamental condicionado ao crédito, creio que isto é MUITO MAIS FÁCIL DIZER DO QUE FAZER. Isso me cheira como marketing político, por dois motivos: 

  1. O governo francês (como todos os demais do mundo todo) teve que usar dinheiro do contribuinte para salvar alguns bancos, para dar liquidez ao sistema, etc. Para o cidadão francês – e eu os conheço bem – isso é um ultraje sem igual!
  2. A França, apesar de toda a pirotecnia de Nicolas Sarkozy, ficou para trás do Reino Unido de Gordon Brown, nesse episódio da crise. O ego de Sarkozy deve ter ordenado aos seus ministros de estado que criassem alguma solução tão única quanto mágica que devolvesse para a França o prestígio perdido quando Brown decidiu que iria injetar capital nos bancos e semi-estatizar o sistema.

Pergunta que não quer calar: os bancos franceses estariam sem capital, daí a necessidade de capital do governo? Isto é 100% verdade nos EUA e no Reino Unido, mas não me consta que os bancos franceses estejam na penúria.

De qualquer forma, fica a mensagem (que vale para a França, para o nosso Brasil e para qualquer outro país):

  1. Hoje, esquerda, centro e direita, sabem bem que banco quebrado é sinônimo de complicação econômica. Está claro que até o nosso governo de esquerda prefere vê-los ganhando dinheiro do que quebrando.
  2. Em épocas de recessão, onde há desemprego e queda na geração de caixa das empresas, bancos (de qualquer lugar do mundo) emprestam menos.
  3. Forçá-los a emprestar mais, em condições adversas, significa induzí-los a perder dinheiro e enfraquecer seu capital. Se eu fosse acionista de um banco (mesmo minoritário, via um fundo de investimento) eu odiaria esta decisão.

Enfim, a mensagem diz que isso acontecerá mais para o final do ano. A ver, portanto.

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=a9dkor6OdHdw&refer=home

Neste outro link (em francês), o Primeiro Ministro francês mostra que está alinhado com sua ministra. Ele informa que se reuniu com banqueiros e obteve destes um “comprometimento” de que os empréstimos para pequenas e médias empresas crescerão, em 2009, ao redor de 3%. É fácil: basta rolar todas as dívidas do sistema, sem emprestar um centavo de dinheiro novo para ninguém, que o volume de crédito crescerá algo como 7%…

http://www.lemonde.fr/la-crise-financiere/article/2008/10/20/chrtistine-lagarde-juge-tres-probable-que-la-croissance-n-atteigne-pas-1-en-2009_1109150_1101386.html

Abraços, Fernando