Há dias que eu penso em escrever sobre esse tema, mas sempre surge algo mais importante (na minha opinião, mas talvez não na sua…). Aí, ao xeretar o blog da Miriam Leitão, achei dois posts interessantes (lá embaixo), enchi-me de coragem e apresento a vocês a minha visão sobre o assunto:

  1. Disclaimer: a única relação que eu tenho com o mercado da construção civil – e sua cadeia de valor – é um imóvel que comprei e estou pagando (e rezando…).
  2. A maioria das empresas do setor que abriram capital nos últimos anos não tinha estofo sequer para tomar um crédito para capital de giro de 180 dias. Imagine então se estavam preparadas para fazer um IPO e serem gerenciadas profissionalmente logo após. Reinavam a informalidade, a promiscuidade (caixa da empresa e do empresário), a governança “à moda antiga”, os lucros tinham forte componente de sonegação (do contrário o lucro minguava), etc., etc.
  3. A Miriam e eu temos fontes similares: a turma pegou o dinheiro e torrou em terrenos sobrevalorizados. Os menos éticos “ajudaram” a sobrevalorizar o terreno para dar um ‘tombinho básico’ nos novos sócios minoritários.
  4. De qualquer forma, se tivessem um mínimo de planejamento financeiro, não teriam problemas sérios para tocar suas obras. Afinal, construção civil só pede funding de longo prazo (ou capital próprio). Qualquer coisa diferente disso é brincar de roleta russa. Mas muitos o fazem.
  5. Será que fizeram? Provavelmente, talvez pensando que a crise era ‘café pequeno’ e logo fariam o segundo IPO, este para levantar os prédios.
  6. Em outras palavas, muitos teriam começado a levantar os prédios sem a captação adequada, veio a crise aguda e os bancos congelaram (e encareceram) as linhas.
  7. Pior, com a crise, as vendas devem ter sofrido uma bela queda…com o noticiário sobre o assunto esquentando, aí é que menos gente compra mesmo. Alguém já ouviu falar de risco sistêmico? É igualzinho a banco!

Não tenho dúvida que a situação de várias delas é grave. Fico incomodado só de pensar no governo criando uma “linha de redesconto” para construtoras/incorporadoras incompetentes. Porém:

  1. O negócio imobiliário guarda muita semelhança com o setor bancário, i.e. usa a poupança do cidadão, i.e. quando a construtora/incorporadora quebra, geralmente o cliente perde muito dinheiro (mesmo que a obra seja tocada por outra construtora – como aconteceu em vários imóveis da Encol).
  2. O governo não quer: (a) levar a fama de ter deixado a “Crise que aqui será marolinha” quebrar milhares de mutuários que acreditaram no ‘discurso’ do Presidente Lula; (b) dar de presente esse gigantesco capital político para os adversários do PT; (c) que um imenso ‘imbróglio’ deste venha a danificar ainda mais o clima econômico do país (quebradeira, desemprego, etc.).

Engraçado é que eu ainda não li os jornais (impressos) atacarem esse possível casuísmo político-econômico. Será que é porque todos eles dobraram de tamanho graças aos imensos anúncios do setor?

Bem, e o que deve sair desse ‘saco de bondades’? Nada muito especial, creio eu. Provavelmente uma linha de capital de giro a perder de vista, a ser oferecida pela CEF que é quem entende do assunto na esfera federal.

Lamentável….

Abraços, Fernando

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=onde_esta_lucro_das_empresas_que_pedem_ajuda&cod_post=134254&a=73

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=construtoras_erram_governo_vira_socio&cod_Post=134246&a=73