Minha relação com Alan Greenspan é estranha, pois eu nunca o cultuei. Eu era quase “fora de moda” por não elogiá-lo em rodinhas de executivos em seus dias de glória à frente do FED (Banco Central dos EUA). Estou convencido – e não é de hoje – que ele é o maior responsável pela crise: não pelo que tenha feito, mas pelo que deixou de fazer. Ele não especulou, mas era pago e tinha as ferramentas para evitar que o fizessem da forma que o fizeram. Como eu não tenho dinheiro na bolsa e não perdi o emprego (ainda…), escrevo, portanto, com total isenção.

A Audiência no Comitê

Nesta 5af, dia 23 de outubro, o uma-vez-lendário Alan Greenspan, aos 82 anos, voltou ao palco em que tanto brilhou por 18 anos. Só que desta vez o House Committee on Oversight and Government Reform, do Congresso americano, não estava lá em seu costumeiro estado de graça, como quem esperava ouvir a voz do Oráculo.

Tal qual abutres em busca da carniça, esquecendo-se das bajulações de outrora, preferiram sim triturá-lo, sem respeitar a flagelação auto-imposta. Pior, ao invés de buscar extrair conhecimento daquele que tem a rica experiência de ter feito e errado, os congressistas preferiram arrancar humilhantes confissões de culpa. Foi um episódio sem elegância e sem utilidade.

“Piores momentos da Sala de Torturas”

Henry A. Waxman, Presidente do Comitê: “O senhor tinha autoridade para evitar as práticas creditícias irresponsáveis que levaram à crise do subprime. O senhor foi aconselhado por muitos para evitar esta situação. O senhor sente que foi a sua ideologia que o fez tomar tais decisões? O senhor gostaria de não tê-las tomado?

Greenspan: “Sim, eu encontrei um erro [na minha visão]. Mas eu estou arrasado pelo fato. O sistema todo funcionou por décadas. No entanto, o sustentáculo intelectual implodiu irremediavelmente”.

Greenspan: “Seja lá quais forem as mudanças regulatórias a serem implementadas, elas serão pálidas se comparadas às mudanças que já são evidentes hoje. Esses mercados ficarão muito mais deprimidos do que qualquer nova regulação que possa contemplar”.

Melhores (e piores) momentos da Era Greenspan:
  1. (+) Os EUA e o mundo, por tabela, tiveram um dos mais longos períodos de crescimento e sem inflação.
  2. (-) Em 1994 ele venceu uma dura batalha contra aqueles que queriam maior regulação dos derivativos. Desdenhando dos congressitas, dizia que os mercados se autoregulavam muito melhor do que qualquer regulador poderia fazê-lo.
  3. (-) A sua inflexível política de juros baixos – que nos bons momentos ajudaram o país a crescer – hoje é tida como um dos pilares da crise.

Com meu abraço, Fernando