Prezados:

Após tantas conversas com clientes e amigos e os posts sobre essa crise, eu cheguei a duas conclusões:

  1. Acho que as pessoas estão cansadas de tanta leitura.
  2. Acho que a maioria ainda não entendeu a dinâmica dessa crise.

Resolvi então juntar os meus limitados conhecimentos de PowerPoint com a minha experiência em crises e gestão de crédito e de bancos. Surgiu daí uma visão esquemática desta crise. Espero que com essa abordagem mais lúdica e didática, o tema torne-se menos árido:

 

 

Então, as Crises Clássicas, sejam elas motivadas por um desequilíbrio macroeconômico (e.g. crise cambial) ou por crises nos mercados de ações e de bonds, logo desagüam em recessão. Estas, em geral, atingem as famílias (por conta do desemprego) e os elos mais fracos do sistema empresarial (varejo e indústria de pequeno e médio portes). Caem as vendas, cai o fluxo de caixa e…reduz-se brutalmente a capacidade de se obter crédito. Quadro clássico. 

Já as indústrias líderes das cadeias de valor sofrem menos, pois caem as vendas e os lucros, mas continuam com prestígio junto aos bancos e investidores, não tendo problemas de liquidez. Rapidamente reduzem suas estruturas operacional e administrativa, limitando seus prejuízos. Os bancos e multimilionários se machucam, mas sobrevivem. Ou, como representado acima, o tsunami varre os menores, mas tem pouca inércia e apenas respinga nos maiores.

Na Crise de Crédito é diferente. Destaco que, nesta crise, o duradouro derreter das bolsas é função do desespero gerado em todos os agentes de mercado por conta da falta de crédito! Se é verdade cristalina que os bancos perderam a confiança uns nos outros – paralisando o mercado interbancário -, é razoável afirmar que o topo da pirâmide desta vez foi atingido primeiro e com impacto fulminante. Da mesma forma, as indústrias que lideram suas cadeias de valor e que fazem boa parte da irrigação da liquidez (via antecipação a fornecedores e/ou dando prazos aos seus clientes), enfrentam problemas com seus fornecedores e clientes, pois o crédito foi cortado no andar de cima da pirâmide! 

Mas e a base, como fica nesse contexto? Afinal, o consumo continua forte, salvo em certos setores dependentes de crédito mais longo (e.g. veículos e imóveis). Notem que o sistema demora a parar na base. Tem sua própria inércia. Mesmo que a montadora suspenda a produção, tem muito consumidor com dinheiro – pois o desemprego no topo ainda não impactou a base – e os distribuidores (i.e. o varejo) têm produto estocado.

No entanto, a lei da gravidade joga a favor da avalanche, diferentemente do tsunami. Mais cedo ou mais tarde, a grande indústria e o sistema financeiro desempregarão e os juros já aumentaram, reduzindo o consumo num quadro clássico de recessão.

Pior: este é um cenário que é retro-alimentado, pois começou no topo, chegará na base e este processo deixa o topo – bancos e investidores – ainda mais temeroso de liberar o crédito e viabilizar a retomada da economia.

O quadro não é bonito. Eu adorarei ouvir os comentários e críticas a este modelo. Como nunca se viu crise similar, eu estou bem longe de ter absoluta certeza do que estou dizendo.

Forte abraço, Fernando