novembro 2008


Este assunto deu o que falar nesses últimos dias. Muita gente dizendo que a Petrobras tem uma gestão financeira ruim e outros tantos falando que ela foi favorecida pelos bancos estatais por se estatal também e por aí seguiu a repercussão.

O link abaixo, do blog da Miriam Leitão, dá uma boa visão do caso, ainda que com certa “parcialidade”. Mas não aborda a questão por inteiro. Ainda bem, do contrário eu não teria o que dizer… 🙂

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=as_distorcoes_do_caso_caixa-petrobras&cod_Post=143349&a=495

Alguns pontos para reflexão:

  1. Sim, ao tomar R$ 2 bilhões da Caixa (e aparentemente outro tanto do BB também) a Petrobras acabou por contribuir, indiretamente e de forma não intencional, para agravar a oferta de crédito no país.
  2. Não é normal que Caixa e Petrobras façam operações de crédito, pois o banco estatal não foca em grandes empresas e porque nossa rainha do petróleo costuma trabalhar com outro perfil de banco.
  3. Porém, deveria ser óbvio para todo mundo que a Petrobras não tomou crédito na Caixa porque tinha desejos mórbidos de secar a já escassa oferta de crédito do país.
  4. A situação de crédito global está péssima e, creio eu, nem a Petrobras está conseguindo rolar certos empréstimos internacionais (e.g. bilionárias linhas de financiamento de importação de petróleo).
  5. Além disso, a estatal tem mega investimentos em andamento e muitos bilhões de contas a pagar por conta disso, i.e. é perfeitamente razoável que tenha tido um furo de caixa.
  6. Calma, o possível e provável furo de caixa poderia ser facilmente coberto com o dinheiro que a Petrobras tem aplicado. Porém, sabedora do clima negativo do mercado, deve ter preferido tomar crédito dos “bancos aparentados” e preservar sua própria liquidez.
  7. Não pagar seus pequenos e médios fornecedores (sim, não é só gigante que vende para a Petrobras!) seria um mal maior, pois estes não teriam para onde correr.
  8. E também não seria uma boa sinalização para o mercado se ela parasse de importar petróleo, ou “comprar fiado”…

Acho que essa celeuma se deu mais por falta de transparência da companhia do que pelos fatos em si. Não que seja fácil admitir que uma empresa-símbolo como a Petrobras esteja enfrentando os mesmos problemas que o Bar do Gosma, lá da periferia, i.e. falta de crédito.

O governo federal também deve ter pensado mil vezes antes de sinalizar que a “Operadora do Milagre do Pré-sal” está enfrentando problemas de caixa – ainda que temporariamente. Mas é que falou-se tanto que o Brasil estaria blindado contra a “marolinha” graças ao petroleo do pré-sal que agora fica complicado explicar que precisaríamos de recursos financeiros para a realização de tal feito. E os tais recursos financeiros estão em falta no planeta…

É isso, meus caros, Risco de Refinanciamento pega qualquer um! E pega com requintes de crueldade empresas que têm ativos mais longos do que seus passivos e, em especial, as que estão com grande volume de investimentos em andamento (e que não querem paralisá-los) e contas a pagar queimando no caixa.

Sinceramente, não me preocupei em saber se os tais empréstimos foram feitos de forma mais ou menos transparente. Pior se tentaram fazer de forma enrustida. Mas o fato é que o governo – qualquer um – tem como missão ser “emprestador de última instância” e seus bancos oficiais têm esse papel e, aparentemente, desta forma agiram.

O resto é balela, lamento dizer. Ou alguém gostaria de ver faltar gasolina no posto?

Abraços,

Fernando

PS: transparência é tudo, minha gente, com ou sem crise! Sempre.

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Olá – eu ia escrever sobre câmbio, exportações e assemelhados, mas após ler com atenção o Estadão de  hoje, fui tomado por irresistível desejo de escrever sobre o consumo das famílias – importantíssimo elemento da demanda agregada da economia e, portanto, peça fundamental para o crescimento econômico.

Começo por meu próprio exemplo – ontem, dia 29 de novembro, eu comprei a minha primeira TV de tela plana (uma Toshiba, 37 pol., LCD). Eu devia ser o ÚNICO alto executivo do Brasil que não tinha NENHUMA TV de plasma ou LCD. E não é que faltem televisores na minha casa (somos uma família de 5 pessoas). É que até bem recentemente todos os aparelhos funcionavam  bem o suficiente. Para que trocar, então?  Bom, o aparelho do meu quarto perdeu a qualidade e então motivei-me pela troca.

E o pagamento? Logicamente, à vista! Mas com todos os descontos que a boa negociação em dias de crise permite. Mas sem cair no ridículo que alguns praticam, num processo que mistura auto-humilhação e ameaça ao vendedor.

De volta ao jornal de hoje: a página 11 do caderno B de Economia está impagável. Não sei se o Editor fez de propósito, mas ela traz apenas duas matérias: uma entrevista da correspondente internacional (na China) Cláudia Trevisan e a tradicional coluna do lendário jornalista econômico Alberto Tamer. Quanta disparidade num espaço tão pequeno!

O entrevistado foi o economista Michal Pettis, professor da Universidade de Pequim, que escreveu VERDADES, como:

  • “O excesso de produção da China era consumido pelo excesso de demanda americana”
  • “Havia certo equilíbrio [na equação acima], mas ele era insustentável”
  • “O consumo privado nos Estados Unidos não vai aumentar”
  • “As famílias precisam poupar mais e consumir menos”

Já a coluna do senhor Tamer, apesar de nos dar uma boa dica de consulta ( www.time.com/mail_of_america ), concluiu da seguinte forma:

  • O que resta? Esperar que o consumidor americano siga comprando e consumindo cada vez mais, gastando USD 13 trilhões por ano [nde: equivalente ao PIB americano]. Assim, eles poderão continuar importando dos países que, ameaçados pela recessão, não tem mais para quem vender o excesso do que produzem”

Deus meu! Parece comentário de Mesa Redonda de futebol, de final de domingo. Virou torcida! E já que comparei economia com futebol, a fala dele é equivalente a esta abaixo, muito minha:

  • O que resta? O Santos FC ganhar hoje do Atlético e domingo próximo do Náutico, torcer contra todos os 12 clubes que estão na nossa frente na tabela do campeonato, para sermos campeões”

Desculpa Fernando “Santista Roxo”  Blanco, mas fica pro ano que vem, tá bom? Afinal, é matematicamente impossível o Santos FC sequer se classificar para G-4 da Libertadores, quanto mais ser campeão! O mesmo vale para a “análise” (i.e. torcida) econômica do articulista. É impossível que o americano compre/consuma USD 13 trilhões por umas 10 razões irrefutáveis que não tratarei neste post, mas que ele deveria bem saber. OK, darei a dica da mais óbvia: FALTA CRÉDITO!!!

E o jornal de hoje segue em frente com o caderno. Aliás, trazendo a reprodução de um artigo, publicado no The New York Times, escrito por Stephen Roach, chairman do conselho do Morgan Stanley para a Ásia. Apesar do Sr. Roach ser “sócio” da imensa crise que vivemos, pois é um senior officer de uma instituição-chave do capitalismo financeiro internacional, ele escreveu um artigo perfeito. Destaco:

  • O título da matéria: “Depois da orgia do consumo”
  • O subtítulo: “Os americanos precisam economizar”
  • “Eles [os americanos] não precisam de mais uma TV de tela plena fabricada na China”
  • “…aquela estratégia [consumir demais e se endividar demais] fracassou por completo”
  • “Não surpreende que o consumo tenha caído de forma tão acentuada”

Olha, não tenho nenhum prazer em tripudiar em cima do jornalista, mesmo tendo ele sido de uma infelicidade só comparavel com outros artigos dele mesmo. Nestes, mais antigos, sua frase favorita era “o pior já passou”, ou “os EUA estão prontos para dar a volta por cima e comandar a virada…”.

Ora, viés tem limite. Otimismo tem limite. Se eu, que “cismei” – desde o início – que a crise é séria for levado a sério pelos meus 15 leitores não fará muita diferença no agregado. Mas alguém que conta com espaço nobre num jornal de tamanha circulação… é inaceitável.

Mas pior mesmo é o Presidente Lula que vem num discurso irresponsável de “não parem de consumir”. Eu não sigo o “conselho” dele. Presidente algum deveria jogar gasolina na fogueira, instruindo que os menos favorecidos (que o escutam) sigam para o abatedouro do endividamento é… francamente… Deixa pra lá.

Tem que gastar quem pode gastar, quem tem poupança para enfrentar a adversidade, quem tem emprego minimamente estável, renda adequada para o gasto, pouca ou nenhuma dívida. E fecho com o exemplo dos…americanos: sim, eles mesmos! Acordaram e agora, nos EUA, só está vendendo a loja que oferece mega descontos.

Abraços, F.

Dia corridos, difíceis = posts de menos. Lamento. Aqui vai um tema filosófico que explica em grande parte a crise que vivemos.

Você já ouviu falar em Síndrome do Pensamento Único (“SPU”, para facilitar)? Definitamente, a SPU vem norteando os nossos comportamentos, culminando na maioria dos desastres econômicos, ambientais e sociais que infestam a sociedade moderna.

No mundo dos negócios e na prática de governos e mercados, usamos expressões como Efeito Manada e Efeito Cardume. Elas mostram que após um comando central todos se deslocam na mesma direção. É um pensamento único. No entanto, por que será que seres (medianamente) racionais como o homo sapiens também se comportam como manadas e cardumes, ou seja, adquirem facilmente a Síndrome do Pensamento Único?

Virou moda nos EUA, nesses dias de caos, acadêmicos e políticos se perguntarem “como não conseguimos identificar a bolha se formar, assim como prever o tamanho da crise que se avizinhava?”. No NYT (e no Estadão de hoje), Paul Krugman sugere dois bons motivos para que ninguém percebesse nada:

  1. “Quem iria querer escutar aqueles economistas sinistros alertando que o processo todo era, na realidade, um gigantesco engodo?”.
  2. “Todo mundo estava muito preocupado, comemorando o sucesso no combate às crises (Ásia, Rússia, Ponto.com, Enron, etc.) recém debeladas para notar qualquer outra coisa”.

Krugman e eu (pretensão, hein?!) achamos que em períodos de bonança, existe um magnífico acordo (ou seria conluio) implícito entre governantes e mercados. Os primeiros desejam colher dividendos políticos por conta do aumento da riqueza, enquanto os segundos querem continuar vendendo alegremente seus produtos e soluções visando o lucro a qualquer preço.

Por exemplo, Nouriel Roubini ficou 4 anos demonstrando que tudo aquilo era um castelo de cartas, mas quem queria ouvi-lo? Se o Mago Greenspan dizia que os mercados eram soberanos, quem era aquele obscuro professor imigrante para dizer o contrário?

Por aqui, sofremos da mesma síndrome quando o assunto é câmbio e juros, não é mesmo? Nossos governantes, em nome das práticas do livre mercado, adoram ver nossa moeda se fortalecer às custas do Capital Cigano (expressão do Professor Carlos Lessa), para em seguida vê-la derreter graças ao massivo repatriamento à primeira crise. Quanto aos juros, nada de diferente: são sempre altos porque nosso BC enxerga inflação até quando o mundo está à beira de uma depressão. E vá lá você dizer o contrário: seguramente será taxado de ter fugido das aulas de economia!

O mesmo acontece com as mega-fusões corporativas. Eu vejo analistas de mercado, a mídia, os governos e a torcida do Flamengo ejaculando alegria por conta da recente aquisição da Anhauser Bush pela Inbev (que tem suas raízes na Brahma-Antarctica, Ambev e Interbrew, lá na Bélgica). Eu não acho a menor graça quando se criam essas mega-organizações que são inadministráveis no curto-prazo e insustentáveis no longo-prazo. Contudo, essa prática não sai de moda (pelo menos há crédito sobrando). Afinal, “cria valor para os acionistas” graças às famosas sinergias (que são calculadas apenas na elaboração dos planos de negócios).

Mas quem pensar diferente disso é que porque não entende nada de Corporate Finance, não é mesmo?

Ao pesquisar sobre o tema, achei algo no site do Pueri Domus ( www.pdea.com.br ), tradicional colégio de São Paulo. Abaixo, segue um pedacinho do texto de José Pacheco que trata de educação (publicado em 12/02/07), mas que vale perfeitamente para a SPU de mercado:

“A lista das doenças que afetam as escolas é extensa. Tratarei de algumas aqui…

…A “síndrome do pensamento único” consiste em um conjunto de afecções patológicas muito comuns em formadores de opinião e professores. Para esses doentes, existe um só modo de pensar, um só modo de agir, um só modelo de escola. Todo o pensamento divergente, toda a prática dissonante os impele a reações violentas (quase sempre, por escrito). Publicam artigos de opinião, ou meros comentários, em tom persecutório. Quem ousar interpelar o modelo único, sugerir alternativas, ou instituir outras práticas, sofrerá perseguições, porque os cultores do pensamento único não permitem veleidades….”

O autor prometia, à época, publicar o Pequeno Dicionário dos Absurdos da Educação. Não sei se o fez, mas talvez alguém devesse escrever o Pequeno Dicionário dos Absurdos do Mercado. Venderia muito!

E o primeiro e mais maléfico absurdo é o pensamento único. Que Deus nos dê forças para enfrentar a esculhambação que nos será imputada, cada vez que nos posicionamos de forma diferente do grupo dominante que nos impõe o pensamento único. Afinal, como diz Paul Krugman, o momento de começar a impedir a próxima crise é agora.

A sua opinão é importante: comente este post. E se alguém achar textos sobre a SPU no campo da economia e negócios, envie-nos para publicação.

Abraços e bom fdes!

Fernando

As últimas 24 horas provaram que quando os governantes querem não falta dinheiro! Os “neo ativistas” prometem imprimir dinheiro quando e quanto precisar!

Listemos alguns pacotes de maior destaque, que foram lançados entre ontem e hoje:

I) Plano Paulson II – A missão: USD 800 bilhões, para facilitar o crédito, i.e. USD 600 bi para compra de títulos garantidos pela Fannie Mae e Freddie Mac; USD 200 bi para dar liquidez via operações de “repo” com quem tiver Collateralized Debt Obligations (CDO) com lastro em ativos não hipotecários.

http://www.nytimes.com/2008/11/26/us/politics/26paulson.html?_r=1&hp

II) União Européia: EUR 200 bilhões para ações fiscais, visando estimular as economia da UE.

http://www.nytimes.com/2008/11/27/business/worldbusiness/27global.html?pagewanted=1&_r=1&hp

É dinheiro que não acaba mais.
Mas pegando carona num ótimo artigo do Financial Times (FT), os governantes ativistas tornaram-se “machos” (expressão do jornal !!) na prática de anunciar mega-medidas.
O FT nos diz que tornou-se banal falar-se em “trillions, schmillions” de estímulo fiscal, resgate de bancos, seguro para bancos e devedores quebrados. E isso tudo porque os governos já identificaram que as economias não estão simplesmente entrando numa recessão. O fato assustador é que eles sabem que esta não é uma recessão comum: estamos em “economia de depressão”, como dizem Paul Krugman (Prêmio Nobel, Princeton, etc.) e Brad Setzer (do Foreign Council).

A China já fala em 7,5% de crescimento para 2008. Era 11%, caiu para 10%, 9%…e até onde irá? Na Europa já se fala “2009, o ano perdido”. Nos EUA, a cada resultado estatístico que é divulgado, bate-se um novo recorde (negativo). Nem nos Jogos Olímpicos os recordes caíam com tamanha facilidade.

Alguns temas para reflexão:

  1. Os governos fazem barulhentos discursos quando anunciam seus pacotões, mas não deixam claro que boa parte de tais ajudas já estava prevista! Exemplo: dos USD 590 bi de ajuda chinesa, aparentemente só 25% é de dinheiro novo.
  2. E como aqui comentou o Rodrigo, e a inflação?!?! Imprime-se moeda sem constrangimento, mas isso gera inflação, certo?! OK, cada prioridade em seu momento, mas… o engraçado que não se imprime dinheiro para acabar com a miséria, né?!
  3. E o resultado dessas ações também não está gerando resultados, certo?! Normal. Existe um enorme intervalo de tempo entre o anúncio das medidas e o momento em que elas viram demanda agregada. Mas seria bom que a imprensa tomasse nota das datas dos anúncios e monitorasse as realizações.
  4. Os sistemas econômico e financeiro estão desorganizados como nunca estiveram e os governos vêm apanhando (e aprendendo) muito neste processo. Acho que um grande problema é que não querem agir muito fora da cartilha. Mas a porta já arrombou, moçada…
  5. O mundo lá fora já aprendeu que dar dinheiro para os bancos tem apenas evitado uma quebradeira sistêmica. Até agora não ajudou em nada a atividade econômica. Os governos se mobilizam para investir diretamente na economia real. E neste quesito nosso governo tem sido pra lá de tímido. Temos o PAC, mas ele não demonstra gerar os resultados que todos esperamos.
  6. Seria tão mais fácil se Mantega & Meirelles se entendessem e reduzissem impostos e juros…

Dream on…

É isso aí. Abs, F.

Acho que não há tema no mundo, neste momento, que me cause maior interesse intelectual do que as fórmulas pensadas/utilizadas para tirar os bancos internacionais do buraco, salvando, portanto, a economia global de uma depressão – e talvez o próprio capitalismo como nós o conhecemos.

Primeiro foi a idéia de Paulson & Bernanke que achavam que com meros USD 700 bi eles comprariam “ativos tóxicos” dos bancos, criariam um fundo de papéis podres e o mercado iria negociar esses papéis e tudo continuaria como antes. Em outras palavras, conseguiriam restabelecer a confiança do/no mercado. Nada aconteceu, conforme havíamos previsto aqui.

Depois evoluíram para onde eu achava que tinham que seguir: comprar participações acionárias dos bancos problemáticos. O FED e o Tesouro seguiram a prática britânica e o fizeram, só que de forma lenta e limitada. Não resolveu nada também, até para minha surpresa.

E por que? Está cada vez mais claro que o mercado (incluindo a Mrs. Mary, viúva do Kentucky, e o Mr. Smith, aposentado da Flórida) sabe que o conjunto de ativos podres dos bancos é grande demais. Qualquer solução que lance esses ativos a perdas, dilapidará o capital desses bancos, o que limitará sua capacidade de alavancagem (i.e. de emprestar). Além da falta de apetite de risco, teriam falta de capital regulatório mesmo! E o fato do FED/Tesouro entrar no capital dos bancos como minoritários não resolveria a questão, pois o governo seria acionista e isso não garante que o banco não quebraria (o capital injetado pelo governo viraria pó se os ativos fossem lançados a perdas).

OK, é confuso mesmo, lamento dizer.

Agora, no caso do Citibank, lançaram um terceiro modelo de resgate de banco que mistura dois instrumentos, como se um médico decidisse receitar uma combinação de dois antibióticos fortes, pois notara que um só não consegue debelar a doença.

O modelo:

  1. O governo continua injetando dinheiro vivo, pois precisa dar liquidez ao banco para que este possa honrar os depósitos que são resgatados.
  2. Mas agora o governo decidiu também garantir os ativos podres do banco. Em outras palavras, se o devedor do banco não pagar, o governo paga o banco.
  3. Essa solução restabelece o “trading” desses ativos podres criando-se um mercado para eles, pois o garantidor é o Estado.
  4. Melhor ainda, os bancos poderão tomar empréstimos (“repo”), oferecendo tais ativos garantidos pelo governo como colateral.
  5. A coisa toda foi estruturada como um seguro de crédito, com co-seguro (90% é risco governo, 10% é risco Citi). O prazo é de 10 anos, o que é longo o suficiente.

O link abaixo nos leva ao Financial Times, onde Laurence Kotlikoff e Perry Mehrling (economistas de Boston e Columbia), dois craques convidados do também-craque Martin Wolf, discorrem sobre o tema. Vale a leitura (em inglês).

http://blogs.ft.com/wolfforum/2008/11/finally-system-risk-insurance/#more-263

Então, “seus problemas acabaram”, como diriam os Cassetas? Não. Resolveu-se, aparentemente, o problema do Citi, mas existem outros milhares de bancos combalidos, de todos os tamanhos e dos dois lados do Atlântico. Francamente não sei como segurar tudo isso sem uma contrapartida monetária, i.e. um lastro do governo (como era o ouro). Estamos falando de um belo naco do PIB dos EUA!!

Também falta criar um sistema que classifique os ativos em função de sua real qualidade de crédito – esqueçam os ratings da Moody’s e S&P. Esses ativos serão (espero!) negociados por uma fração do seu valor de face e esse percentual dependerá da qualidade do risco. Na medida que a economia melhorar e os devedores começarem a repagar suas hipotecas (e os imóveis se valorizarem), naturalmente o valor desses ativos subirá e quem os detiver (“buy-and-hold”) ganhará dinheiro (em especial com o custo quase zero de financiar as posições).

E no fim das contas, não deixa de ser o velho e mal-falado “prejuízo socializado”. Afinal, sempre que um ativo der calote, o governo (i.e. o contribuinte) é que salvará a pele do investidor e do banco.

Ah, um dos meus heróis contemporâneos, Nobel Prize Winner Professor Paul Krugman ficou furioso com esse plano. Leiam abaixo.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/11/24/citigroup/

E a economia real? Se esse modelo destravar o trauma dos bancos que pararam de emprestar uns para os outros, assim como tranqüilizar seus gestores quanto ao futuro da própria instituição, poderemos ver o crédito voltar a irrigar a economia real. Nunca como antes, mas muito mais que agora. Quando? Mais 6 meses de sombras, pois a máquina demora “a pegar no tranco”. Teríamos mais 1 ano de recessão, mas escaparíamos da depressão mundial.

Meus amigos, essa combinação de ativismo governamental e criatividade é heavy metal. É como jogar uma bomba atômica no olho do furacão da crise. Se isso não funcionar – e nada garante que irá funcionar – seremos todos funcionários públicos. Já pensou, o Lada (da extinta URSS) sendo carro oficial em Washington? 🙂

Gorbachov para Presidente…do Mundo!

Abraços esperançosos!

Fernando

PS: mas que ninguém pense que eu acho que deve-se resolver o imbróglio e ficar por isso mesmo. Tem que processar e prender quem fez coisa errada, cortar o bônus desse povo, etc., etc.

Prezados,

Eu sei que este post está atrasado, mas ele traz pouca novidade, especialmente para quem já leu a minha análise sobre Itaú + Unibanco. A diferença, de fato mesmo, é que esta é uma fusão de bancos públicos – e não há ambiguidade sobre quem mandará (será BB e Lula).

Para quem não leu sobre Itaú + Unibanco, aqui vai de novo:

https://blogdocredito.wordpress.com/2008/11/05/itau-unibanco-verdades-e-mitos/

O jornalista J.P.Kupfer cujo blog ‘bomba’ com seus belos e provocativos textos, trouxe uma matéria que vale a leitura – link abaixo – e que gerou 120 (que inveja!! 🙂 ) comentários.

http://colunistas.ig.com.br/jpkupfer/2008/11/20/ainda-vai-concentrar-mais/

Concluindo, acho que o mapa da nossa consolidação bancária está dado, pois não há muito mais banco para ser comprado. Salvo se os amigos “separatistas” gaúchos resolverem vender o Banrisul, futuro Banco Central da Nação Gaúcha! 🙂

E o Votorantim: Ora, este banco é um misto de financeira (forte!) com banco de atacado (forte em derivativos…). O atacado do BB é forte e só não é mais porque não querem. Preferem não entrar em mercados de maior risco – em sendo isto fato, para que iriam comprar um banco com esse perfil? Pela financeira, é claro, e ali tem muito valor para o BB cuja operação de financiamento de automóveis, por exemplo, é recente.

Acho que vale comentar também que, conforme nos provam esses dias com pouco crédito, a figura do banco estatal faz diferença (para melhor). Na hora do aperto, o Governo vai e manda emprestar; se precisa capitaliza a instituição; faz Medida Provisória, etc. Então, em tempos de crédito curto e governo ativista, viva BB + Nossa Caixa.

No aspecto político, a mídia bem observou que o Governandor paulista, José Serra, ficará com os cofres cheios 18 meses antes de sair para Presidente. Que gaste com parcimônia.

Abraços,

Fernando

Depois de férias forçadas (feriados e uma séria contratura muscular nas costas), o blog volta com notícias impensáveis até outro dia: num domingo que entrará para a história do capitalismo (anotem aí: 23 de novembro de 2008), o governo americano decidiu:

  1. Garantir a bagatela de USD 306 bilhões (quase a metade do já finado Plano Paulson de USD 700 bi) de ativos podres do Citigroup. Em outras palavras, significa que o banco está garantido contra default que esses ativos possam gerar, arruinando ainda mais sua precária liquidez.
  2. Injetar mais USD 20 bilhões de caixa no banco (recentemente o Citi já havia recebido USD 25 bi, junto com outros 8 mega bancos americanos – nota-se, portanto, que esta grana não deu nem para a saída). Sim, o banco enfrenta sérios problemas de liquidez, originado por resgates dos clientes e por má performance dos seus ativos (má qualidade, insolvência).

Fala-se abertamente em venda do lendário banco americano que já foi sinônimo do poderio econômico do país. Um outro ícone, a GM, também agoniza. O “Império” está em coma econômico. Acho que nem Nouriel Roubini imaginava que a coisa afundaria tão rapidamente quando escreveu O Declínio do Império Americano.

Bem… As bolsas européias gostaram das notícias – ou pelo menos estão especulando bem enquanto eu escrevo. A Bloomberg reporta que as ações do Citi subiram mais de 40% hoje cedo (depois de terem caído 60% ao longo da semana passada). Tenho bons amigos – ex-Citibank da velha guarda brasileira – que compraram ações do banco há meses, quando valiam o dobro do que valem hoje. Por que? Parecia que o fundo do poço já tinha sido atingido à época. Parecia…

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aBdUcxoRPkp4&refer=home

E o seu crédito? O apetite de risco deste gigantesco banco está combalido. E o de muitos outros também. Com a retração sistêmica do crédito, a economia desacelera e todos nós sofremos em nossos negócios. E o emprego e a renda sofrem junto. O processo se retroalimenta. Mas acho que isto todos nós já sabemos.

Amigos, não tenho mais dúvida: a saída para a continuidade do capitalismo passará pela transformação do atual “ativismo governamental” para uma séria semi-estatização de bancos e empresas. O modelo/sistema está sem forças para reagir sozinho. Que coisa!

Abraços + boa semana, que será de contínuas emoções!

Fernando

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