Assim como fez o Estadão há duas semanas, faltou ao jornalista entrar fundo na questão do processo de decisão do banco que está mais restritivo, que está emprestando por prazos mais curtos, que subiu o spread, etc. É uma pena que não abordem essas questões, pois permitem que o entrevistado fique na zona de conforto.

Mas nesta entrevista, o Sr. Cypriano deixa claro que o banco está focando na sua própria liquidez para poder enfrentar a crise com menor risco. Ele estará errado?

Abraços, Fernando

Após ação do BC, banco deve subir juro, diz Bradesco

Para Cypriano, taxa deve compensar fim de remuneração do compulsório

De acordo com o presidente do Bradesco, total de carteiras de crédito de bancos menores não atinge meta buscada pelo governo
O presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, que afirma ser preciso preservar a livre competição

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

O presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, considerou uma punição a medida adotada pelo Banco Central de retirar a remuneração de 70% do recolhimento compulsório sobre os depósitos a prazo. “Não concordo com que sejamos punidos por medidas que dependem de fatores técnicos e operacionais para a sua viabilização”, afirma. O problema, segundo ele, é que não existem no mercado carteiras de crédito suficientes de instituições pequenas e médias para os grandes bancos comprarem na proporção que o Banco Central pretende. Para compensar essa perda de rendimento no compulsório, Cypriano afirma que os bancos devem subir os juros. “A perda de remuneração no compulsório terá de ser compensada.”

 FOLHA – Qual a sua avaliação da crise e do impacto no Brasil?
CYPRIANO –
Vi muitos economistas vendendo a idéia de que essa crise é pior que a de 1929. Não sei se é, não me convenço. É tudo muito diferente hoje. A economia é global, utiliza muita tecnologia, a velocidade da informação é impressionante e tem muito mais comércio. Nunca soube de vários governos trabalhando juntos para resolver um problema, sem disputas políticas e de interesses. O resultado é uma liquidez potencial de trilhões de dólares na economia. E, se for necessário mais, haverá mais. No Brasil, os fundamentos econômicos são muito melhores. Estamos com US$ 200 bilhões de reservas cambiais e mais de R$ 140 bilhões de recolhimento compulsório, uma das maiores reservas do mundo. Eu sempre fui um crítico disso, mas admito que acabou sendo um benefício. A crise é grave e pode ser longa, mas é a primeira vez que não precisamos buscar empréstimo-ponte de FMI e Banco Mundial ou comitê de bancos credores. Há problemas na educação, muitos impostos e leis trabalhistas ultrapassadas, mas dá para confiar em que vamos mudar para melhor depois de tudo isso. A crise é muitíssimo grave, mas, desta vez, depende muito mais de nós.

FOLHA – O que o sr. achou da mudança no compulsório na semana passada?
CYPRIANO –
Acho que o Banco Central deve tomar a medida que julgar necessária e nós vamos cumprir aquilo que for determinado. Mas não concordo que sejamos punidos por medidas que dependem de fatores técnicos e operacionais para a sua viabilização. Vamos continuar negociando carteiras, como estamos fazendo, e as coisas estão voltando ao normal. O governo sabe disso. O Bradesco está neste momento analisando R$ 400 milhões em operações e vamos seguir nossos critérios de risco. A análise que fazemos para a compra de carteiras deve ser a mesma que usamos para operar com nossos clientes. O Bradesco sempre adquiriu carteiras de crédito de outros bancos. Temos um estoque de R$ 5,7 bilhões em créditos adquiridos. Essa não é uma operação trivial. Existe um trabalho de análise de crédito de milhares de contratos e também tem que haver compatibilidade de sistemas entre os bancos. O cliente continua vinculado à instituição original.

FOLHA – Por que o sr. acha que essa decisão do Banco Central representa uma punição para os bancos?
CYPRIANO –
A medida é muito dura. O problema é que talvez não haja carteira de crédito suficiente para comprar no montante desejado pelo Banco Central. O Bradesco comprou R$ 3,5 bilhões em carteira e está analisando mais R$ 400 milhões. O nosso volume no compulsório é de R$ 6,6 bilhões. Ou seja, vai ser difícil atingir tudo isso. Acredito que o total de carteiras de crédito a ser comprado pelos bancos não irá atingir a meta definida pelo Banco Central. O problema é compatibilizar a qualidade das carteiras. A oferta é menor do que a disponibilidade no momento.

FOLHA – Como os bancos pretendem compensar esse custo? Os juros podem subir?
CYPRIANO –
O sistema financeiro terá de compensar essa medida de alguma forma, e uma delas é o aumento dos juros. Os bancos podem subir os juros. Essa ao menos é a expectativa. A perda de remuneração no compulsório terá de ser compensada de alguma forma.

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