…parece que estamos falando de lideranças empresariais que vivem em planetas diferentes, né?! Os dois têm razão – parcialmente – e os dois dão o tom que lhes convém, cá entre nós. E como já comentei antes, nenhum jornalista consegue abordar a questão sob a ótica correta. E dá-lhe zona de conforto para o banqueiro.

Mas até achei engraçado como o tom dessa entrevista foi mais leve e otimista do que aquelas feitas com o Marcio Cypriano, do Bradesco, e com o Fabio Barbosa, do Santander/Real.

Acho que o R. Setubal estava mais tranqüilo, seguro e confiante. O M.Cypriano não me pareceu a fim de ser criticado. Já o F.Barbosa me pareceu desconfortável, talvez porque também dirige a FEBRABAN e porque há duas semanas a crise estava numa fase mais aguda que agora.

Agora, temos mais é que torcer para que o otimismo demonstrado pelo Roberto Setubal seja reverberado no comitê de crédito do seu banco. É lá no comitê, e não na sala da Presidência, que acontecem as decisões de crédito de cada empresa, expandindo ou brecando os negócios – do banco e do país.

Aguardem um post que consolidará essas entrevistas, onde pretendo desmistificar certas visões deturpadas que circulam por aí.

Abraços, FB

”Vamos comprar as carteiras de crédito dos bancos pequenos”

Segundo Setubal, os grandes bancos estão atendendo à determinação do BC para injetar recursos nas instituições menores

Ricardo Grinbaum

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O Banco Central anunciou na semana passada uma medida para forçar os grandes bancos a injetar recursos em instituições financeiras de menor porte. A medida prevê um corte na remuneração dos depósitos compulsórios – dinheiro dos bancos depositados no BC – que não forem usados pelos grandes bancos para comprar carteiras de crédito das instituições menores.

O presidente do banco Itaú, Roberto Setubal, diz que a medida é correta. Setubal afirma que os grandes bancos ainda não compraram todas as carteiras esperadas pelo BC porque as negociações levam tempo. “A medida do BC vai eventualmente acelerar ou dar mais incentivos para que isso ocorra”, disse Setubal, na seguinte entrevista.

Como o sr. avalia a medida do BC?

A medida está correta e vai eventualmente acelerar ou dar mais incentivos para que isso ocorra. A liquidez está melhorando. No caso do Itaú, a gente vai usar esse compulsório plenamente, provavelmente em duas semanas. Imagino que todos os bancos estão numa situação semelhante.

A medida do governo parece uma punição aos bancos grandes por não estarem comprando as carteiras de crédito dos bancos menores. O que está acontecendo?

Há certa dificuldade operacional para implementar esse uso do compulsório. Há um procedimento operacional que é complicado, trocar carteiras, não é como comprar um CDB. Tem que analisar a carteira, trocar ativos, fazer transferência da cobrança, demora um pouco mais. Na medida que o tempo passa, a gente consegue resolver essas dificuldades. Os bancos estão procurando usar seus compulsórios. Porque é mais interessante para o banco comprar carteira de bancos pequenos do que deixar depositado no Bacen. A medida do BC vai, talvez, agilizar um pouco isso, porque a penalidade aumentou ou, pelo menos, a vantagem de comprar carteiras aumentou.

Existe uma cobrança para que os bancos normalizem a situação do crédito. Qual é a situação atual?

Houve um certo constrangimento do crédito. O BC tomou uma série de medidas e a liquidez está voltando. Isso não se refere só à questão dos bancos pequenos, mas ao sistema em geral. Os empréstimos estão voltando. No caso do Itaú, em momento algum deixamos de emprestar. A carteira de pessoa jurídica, por exemplo, teve em outubro o segundo maior crescimento do ano. O volume de empréstimos para pequenas e médias empresas cresceu acima de 5%, que é um número alto.

Como se explica que esse crescimento teria ocorrido no auge da crise, quando mais se falava da falta de liquidez?

Pois é. Acho que há uma certa dessintonia. Imagino que os bancos menores, que tiveram problema maior de liquidez, estavam sem condições de oferecer crédito para seus clientes. Isso dificultou, causou certa apreensão, certo travamento. Mas os bancos grandes de forma geral tiveram uma operação normal no mês. Vou dar um exemplo. Vamos fazer mais de R$ 2 bilhões este mês em financiamentos para compra de automóveis, que é um número alto, mas um pouco menor do que vinha sendo. O que mudou em relação ao mês anterior? Em relação às propostas que recebemos, aprovamos e liberamos uma quantidade de financiamentos praticamente igual ao mês anterior. No entanto, o número de propostas caiu.

E as outras operações de crédito do banco?

Foi tudo praticamente normal. O que está havendo um pouco é um limite para grandes operações, em que um único cliente pede R$ 1 bilhão. Para R$ 1 bilhão, vamos devagar, porque a liquidez não está tão folgada assim. Quando um único cliente quer levar valores muito elevados, temos que dividir entre dois, três bancos.

O sr. diz que o crédito está praticamente normal, com exceção dos bancos pequenos e médios. Então por que houve tanta reação?

Houve um aperto de liquidez no começo do mês, o governo passou a soltar os compulsórios. Então nas notícias há uma mistura de efeitos sérios e uma situação normal. Acho que em duas semanas vai estar tudo normalizado.

Como está a situação dos bancos pequenos e médios?

Não consigo avaliar exatamente. Quem pode avaliar melhor isso é o Bacen.

O crédito vai melhorar para eles?

Minha expectativa é que os grandes bancos vão usar todo o seu compulsório, e isso vai melhorar bastante a situação. Agora, se vai normalizar, não sou capaz de avaliar.

E na economia em geral, o pior já passou?

Por uma série de coincidências, as duas semanas anteriores a esta que estamos terminando agora foram ruins. Foram ruins no exterior e no Brasil houve esse problema de câmbio e derivativos que atrapalhou bastante. O BC administrou muito bem os problemas de câmbio, derivativos e de liquidez. Criou as condições para a situação se normalizar. A tendência é de melhora. Também há uma questão de expectativas. Todo mundo quer as coisas para ontem. Mas entre o BC entender o problema, fazer seu plano e aprovar as medidas, demora um, dois, três dias. Aí os bancos recebem aquilo, discutem o que fazer e agem. Tudo isso leva três, quatro, cinco dias. É como tomar um remédio. Demora um tempo para fazer efeito. As condições internacionais também estão caminhando para uma melhora. No meio daquelas semanas críticas, os governos da Europa tomaram medidas muito importantes, garantindo todo o sistema financeiro. Isso também está tirando a tensão dos mercados.

Qual é a dimensão do problema com os derivativos?

Acho que a mídia amplificou muito o problema. Houve um exagero. O fato de ter tido dois ou três casos, em específico o da Aracruz, que foram muito exagerados, passou uma impressão de que aquilo era a regra e não a exceção. Era exceção. Não existe e não haverá nenhum outro caso com números próximos aos que vimos de duas ou três empresas. É evidente que o caso Aracruz é um equívoco inimaginável, de uma dimensão incompatível com a realidade. Daqui para a frente, haverá uma redução nos números. Para a maioria das empresas – ou pelo menos aquelas envolvendo grandes valores -, os exageros já foram fechados. As empresas estão liquidando suas operações. Tudo isso vai se normalizar. No caso do Itaú, anunciamos que tínhamos 96 empresas. Essas operações já caíram para 79. E tem mais empresas reduzindo e refinanciando suas operações. De forma geral, a maior parte das operações que foram feitas estão num nível adequado para as exportações das empresas.

Foi por isso que o Itaú antecipou a divulgação de seus resultados financeiros?

Nesse período da tempestade, o mercado estava com muitos boatos e informações trocadas. O fato de os três grandes privados terem antecipado suas divulgações de resultados em relação ao cronograma original até ajudou a acalmar o mercado. Foi uma excelente medida. Todo mundo viu que os bancos estavam bem, com exposição relativamente pequena a esses problemas de derivativos, e que o problema era muito menor do que se chegou a especular.

Qual sua perspectiva para a economia brasileira em 2009?

É positiva. A economia brasileira está fazendo um ajuste. Com a queda no preço das commodities e da demanda internacional e o recuo de volume de investimentos, é preciso ajustar a balança de pagamentos. Isso se dá via desvalorização cambial. No caso brasileiro, acho que já ocorreu. O câmbio a R$ 2,10 ou R$ 2,20 é suficiente para reequilibrar a balança de pagamentos.

Pode haver uma crise no Brasil?

Não vejo crise, de jeito nenhum.

Qual a sua expectativa em relação ao crescimento?

Continuo achando que o Brasil vai crescer por volta de 3% no ano que vem.

Muitas empresas estão suspendendo investimentos. Como o sr. vê essa situação?

Na medida em que a demanda internacional recua, exportadores recuam seus investimentos. O crescimento da economia será um pouco menor. Mas não vejo crise. O mercado financeiro vai encontrar novos patamares, mais baixos que os anteriores, mas as coisas tendem a se normalizar.