Caros – vocês sabem que eu sou bem crítico com entrevista “café-com-leite”, mas nesta, com o novo CEO do HSBC no Brasil, Leandro Modé e Ricardo Grinbaum não deram trégua. Muitas respostas pareceram fora do contexto, mas não se pode culpar os jornalistas. Afinal, eles tentaram ao máximo.

Segundo o entrevistado, vem uma forte recessão por aí, mas o HSBC não reduziu o ritmo do crédito (“Não, nada mudou no HSBC”). Interessante, não?! Sugiro que empresas e famílias abram contas no HSBC, pois este é um banco que entendeu e acreditou que o Brasil está realmente blindado contra a crise – e se alguém que já é cliente teve problema com crédito, leve cópia da entrevista para o seu gerente. Afinal, o Big Boss garantiu que lá “tem muito dinheiro” e nada mudou. Sort of.

Parabéns ao Leandro e ao Ricardo.

Abraços, F.

”Vamos emprestar se o crédito for bom”

Entrevista – Shaun Wallis: presidente da filial brasileira do banco HSBC; segundo executivo, incertezas sobre a economia global reforçam a postura historicamente conservadora do banco

Leandro Modé e Ricardo Grinbaum

O inglês Shaun Wallis assumiu há quatro meses a presidência da filial brasileira do banco britânico HSBC, um dos menos afetados, até agora, pela crise global. Segundo ele, a conjuntura reforça a postura conservadora da instituição. “Não sabemos o que vai acontecer em 2009 e em 2010. Temos uma forte sensação de que há uma grande recessão vindo pela estrada”, disse ao Estado.

O que o surpreendeu no País?

O Brasil é um país simplesmente fantástico. É enorme e tão diverso. Vocês têm tudo. É difícil dizer em que medida vamos ser contaminados com o que está acontecendo no resto do mundo. Vamos ser em alguma medida. Para a maior parte da população, o real a R$ 2,17 ou a R$ 2,34 não faz muita diferença. Pode fazer alguma diferença em seu devido tempo. Mas e as exportações? Quem quer que esteja comprando alimento vai continuar comprando.

Muito do crescimento brasileiro nos últimos anos é baseado no crédito. O sr. acha que isso vai ser afetado pela crise?

Isso é uma generalização. Não achamos as empresas brasileiras tão alavancadas quanto muitas outras no mundo. Provavelmente, porque tiveram a experiência de outras crises no passado. As pessoas também têm sido mais cuidadosas na gestão financeira. Não quer dizer que as pessoas não possam ir à falência.

O governo está reclamando que o crédito não está circulando.

Crédito encurtado? Não sei se é verdade. Temos muito dinheiro e as pessoas continuam fazendo empréstimos parcelados, consignados, cheque especial. Não sei se isso está correto, mas o BC provavelmente tem uma idéia melhor do que nossa. Mas há bancos retirando o crédito de clientes pessoais? Não. Fizemos isso? Não. As pessoas estão emprestando menos? Há uma sazonalidade. O Natal está chegando. As pessoas emprestam muito dinheiro em setembro e outubro? Não sei. Provavelmente esperam até perto do Natal.

Não há restrição de crédito no HSBC para clientes e empresas?

Não, nada mudou no HSBC.

O Itaú diz que houve uma queda na demanda por alguns tipos de empréstimos.

O que está acontecendo agora? Em todo o mundo, as pessoas estão vendo uma instabilidade massiva. O que isso significa? Muita incerteza nos mercados. As pessoas não sabem onde isso vai levar. Conservadoramente, você pensaria duas vezes antes de abrir uma loja. Talvez não uma loja, mas outras 20 lojas. Porque você não sabe o que vai acontecer. A única coisa que os homens e mulheres de negócio podem realmente controlar é o seu fluxo de caixa e os seus custos.

Os juros vão subir?

Globalmente, há menos dinheiro. Os mercados financeiros secaram em muitos países. Em nosso caso, somos extremamente líquidos, muito capitalizados e preferimos emprestar dinheiro para nossos próprios clientes. É por isso que você não nos vê comprando outros bancos. Agora não é o momento. Não sabemos quais balanços os bancos nos EUA, na Europa e em muitos outros países têm. Não sabemos quais problemas eles têm. Nossa prioridade nesta situação em todo o mundo é nos apoiar em nosso capital.

Vocês têm tido grande pressão, pelo negócio entre Itaú e Unibanco. A outra vem do governo para comprar carteiras de crédito de bancos menores e aumentar o crédito.

O Banco Central aqui tem sido fantástico. Eles têm colocado bastante liquidez, rapidamente, no mercado. Por mais estranho que seja, foram mais rápidos em colocar liquidez no mercado do que suas contrapartes em outros lugares do mundo. Algumas coisas que eles fazem nós podemos gostar ou não. Mas essa não é a questão. A questão é a liquidez do sistema e nós somos extremamente líquidos aqui e globalmente. Muitas companhias estão mais vagarosas em tomar empréstimos. Precisamos saber se os indivíduos vão nos pagar de volta, ou se precisam mesmo tomar empréstimos.

Mas no Brasil há uma diferença. O BC está dizendo que vai punir os bancos que não emprestarem.

O BC está fazendo tudo o que pode para colocar liquidez no mercado, para estabilizar o mercado. É assim que eu vejo e essa é uma boa estratégia. O resto de nós tem de ver o que pode fazer para ajudar.

Vocês vão comprar carteiras de crédito?

De novo, não é apenas uma questão de colocar liquidez no mercado. Para comprar uma carteira, tenho de saber o que há naquela carteira. Não vamos nos afastar dos nossos princípios básicos. Nosso princípio básico é que vamos conceder empréstimos a pessoas – e para pequenos bancos ou as carteiras que eles têm – se o crédito for bom. Não é uma euforia em que todo mundo empresta dinheiro para todo mundo. O perigo nesse tipo de situação é criar uma crise de crédito futura, em que as pessoas terão muita dívida ruim.

Vocês compraram alguns desses portfólios?

Estamos estudando várias coisas o tempo todo.

E a qualidade dessas carteiras? As pessoas dizem que, em geral, é boa e o risco, baixo.

Ninguém pode fazer esse tipo de julgamento.

Qual sua opinião sobre a fusão entre Unibanco e Itaú?

Não sei se podemos comentar isso (risos). Quem sabe por que as pessoas fazem coisas? Não é no que estamos concentrados. Supostamente, eles tomaram a decisão à luz das suas circunstâncias.

Outros bancos, como o HSBC, são pressionados por essa fusão?

O HSBC agora é o maior banco do mundo, o mais fortemente capitalizado e o mais líquido. E nos perguntam essa questão em todo o lugar. Por que não estamos comprando bancos no Reino Unido? Por que não estamos comprando bancos nos EUA? Porque essa não é a nossa estratégia. É bastante simples. Não sabemos o que vai acontecer em 2009 e em 2010. Temos uma forte sensação de que há grande recessão vindo pela estrada. Tendemos a ser mais conservadores.