Desculpem-me o atraso para colocar essas visões no blog, mas a agenda está apertada e o WordPress saiu do ar na hora errada…

Se eu esqueci de algo, por favor, comentem, discordem, etc. Abraços, F.

1. Fusão ou Aquisição?

Vendida como “fusão de iguais”, foi uma “aquisição amigável” em que o Itaú terá, naturalmente, mais poder. É muito maior, nada de estranho.

2. Por que tão de repente?

O Unibanco era a “noiva mais cortejada” do mercado financeiro brasileiro. Era o banco que se fosse comprado por um dos grandes (como acabou ocorrendo), criaria um gigante. E se fosse comprado por um menor, este seria automaticamente catapultado para a liga dos grandes. No passado, sobraram rumores de muitos bancos terem interesse pelo Unibanco, com destaque para ABN, Citibank e o Bank of America. Repito, rumores.

Mas, conforme informado, o Itaú já o cortejava seriamente há tempos. Foi acelerado pela crise? Sim. O Unibanco tinha problemas? Difícil afirmar, como alguns o fazem sem cerimônia. Mas se os teve, naquela semana complicada em que houve boataria sobre seu envolvimento com derivativos, estes não foram tão sérios. Do contrário, a participação do Unibanco na nova holding não seria de tamanho destaque. E o Itaú não daria a cobiçada cadeira de Chairman para um banqueiro quebrado. Isso não existe.

Cheguei a ler na blogosfera que os dois estariam com problema. Ora, o Banco Central jamais permitiria um “abraço de afogados”, pois qualquer tentativa de salvamento ficaria absurdamente mais complicada.

3. Vai dar certo?

Vai, lógico. Nem que seja na marra. Os dois banqueiros já declararam que “as culturas são semelhantes”. Não são. Até onde sei, os Setubal são mais frugais em seus hábitos. O Unibanco sempre teve gestão mais profissional (de mercado), enquanto o Itaú sempre teve um comando familiar mais intenso. O Unibanco sempre foi mais “corporate” e o Itaú mais “varejo”.

Diferenças intransponíveis? Não, nem de perto. Banqueiros são incisivos, mas pacientes no jogo político interno. E como todos são focados em resultados, sublimam suas diferenças na busca pelo lucro, bônus, etc.

4. Como se dará a fusão operacional?

Como toda fusão de grande porte: sem pressa!

Esse é um tema para tirar os cabelos de qualquer um. É uma complicação sem igual, pois: os incontáveis sistemas terão que ser integrados; complexas decisões sobre as diversas marcas (e.g. Personalité, Unibanco 24H, Fininvest vs. Taií, etc.) terão que ser tomadas; terão que decidir quem fica em cada uma das mais de 40 diretorias que cada banco tem e quem liderará os milhares de processos de integração, etc.

Como já disseram – e não poderia ser diferente – as duas “bandeiras” continuarão rodando em separado por um bom tempo. Isso já aconteceu em todas as fusões/aquisições passadas e está acontecendo com Santander e Real também. Não dá para ser diferente.

Além disso, existem diversas (centenas) de agências que estão uma na frente (ou ao lado) da outra e, obviamente, uma delas será fechada – para talvez ser reaberta onde nenhum dos dois está hoje.

5. Como ficará o mapa competitivo no mercado financeiro?

Talvez vocês não saibam, mas no mercado financeiro o Itaú era o banco mais admirado e temido pelos competidores diretos. Apesar de bem menor que o gigante Bradesco, era com o Itaú que o Real e o Unibanco se mediam, se comparavam…“queriam ser quando crescessem”. Bem, os dois cresceram, na marra.

O mercado varejista ficará com os seguintes gigantes: IU, Bradesco, Banco do Brasil e Santander. A Nossa Caixa, que será comprada por BB ou Bradesco, não mudará esse fato, mas apenas aumentará o poder de fogo de um desses. O HSBC é que ficará bem menor que os demais, ainda que com um porte respeitável.

O nome do jogo é o Varejo: é pela disputa das pessoas físicas e PME’s que bancos são comprados ou se fundem. O mundo corporate é de importância secundária, mas ainda assim sofrerá algumas transformações. O Itaú já estava muito forte com o poderoso Itaú BBA, enquanto que o Unibanco tinha acabado de lançar sua própria grife de banco de investimento. Conheço a maioria dos ‘caciques’ dos dois lados. Não haverá cadeiras para todos. De qualquer forma, os dois lados têm nomes muito talentosos e a escolha será difícil.

A piada que corre é que Don Emilio Botin, todo-poderoso do Santander, que havia visitado o país na semana passada e esteve no GP de F-1, mal desembarcou em Madrid e, ao ligar o seu Blackberry, leu a mensagem da fusão dos concorrentes diretos e deve ter ficado roxo de ódio!

6. “O Brasil ganhou um banco global…” – Sério?

O ufanismo falou alto. Afinal, o IU será uns dos 20 maiores bancos do mundo em valor de mercado – mas isso depende das cotações em bolsa, da taxa de câmbio, etc. De Mantega a FHC.

Mas é global mesmo? Não. Os bancos brasileiros sempre ganharam muito dinheiro no país para perderem o foco indo para o exterior onde se ganha muito menos dinheiro. Poderão comprar “pechinchas” no exterior? Um dia, quem sabe. Hoje não, pois são dois mamutes tendo que se auto-absorver; não há capacidade gerencial para que se desenvolva outro projeto de tamanho porte.

Foi bom para o Brasil? Olha, sob o ponto de vista de imagem foi. Passou a impressão de gigantismo, solidez. Mas como não temos que enfrentar nenhum tipo de invasão como se propalou no passado, a coisa toda fica só na imagem, na percepção, no imaginário dos comentaristas.

Vale destacar que nossos principais bancos já estão presentes nas principais praças da América Latina, em NY, Miami, Londres, Genebra/Zurique/Luxemburgo (para Private Banking) e China. Só não estão em outros lugares porque não há nada para fazerem lá. “Ah, mas somos pequenos nessas praças internacionais”, dirá alguém. Sim, mas para que um bancão brasileiro iria comprar um bancão português, ou espanhol, ou belga, ou francês? Eles ganham menos lá do que aqui. Além disso, a banca internacional está com sérios problemas para ser resolvidos e isso vai durar uma década.

7. E a concentração bancária?

O novo banco IU teria hoje algo como 19% do crédito bancário do país. É muito? Sim, sob qualquer ângulo.

Mas existe muito mito sobre isso. Exemplos mundiais: a Holanda tem apenas 3 (!!) bancos com relevância nacional (ABN, ING e Rabobank) e tem uma das taxas de juros/spreads mais baixos do mundo. Por que? Lá, o povo poupa muito e se endivida pouco, i.e. tem excesso de oferta e, por conseqüência, os juros são baixos. No extremo oposto temos os EUA com os 6 ou 7 mil bancos (depende da fonte). Lá, os juros são bem mais altos do que na Holanda, justamente pelo motivo oposto: tem muito banco, mas o povo poupa pouco e se endivida demaiiiissss. E o nosso Brasil, hein? Fica no meio do caminho na quantidade de bancos, mas pagamos as taxas de juros mais altas do mundo! Poupamos muiiiiito pouco em relação ao que nos endividamos (isso apesar do crédito representar apenas 39% do PIB, contra 150% nos EUA).

Portanto, concentração bancária não é sinônimo de juros altos. Mas, no Brasil concentração tende a jogar contra os clientes. E a causa é simples: diminuem as chances dos clientes barganharem, de procurarem outra opção de banco. Mais do que nunca, teremos um oligopólio clássico – ainda que não cartelizado como muitos acreditam. Com o quase certo desaparecimento de vários bancos pequenos que atendem PMEs, a coisa tende a piorar.

Limites de crédito – se você tem limite de R$ 10 no “I” e R$ 10 no “U”, muito dificilmente terá R$ 20 no “IU”. É assim desde o início dos tempos e não vejo nenhum fato novo para a mudança. O novo Diretor de Crédito do ‘banco novo’ não dobrará o apetite de risco dele por você/sua empresa só porque o banco cresceu. Seu limite ficará entre R$ 10 e R$ 15. É hora de ficar esperto! E esperto em dobro, pois tem também a fusão entre Real e Santander acontecendo e lá a análise de limites Corporate já está sendo feita de forma consolidada por um espanhol.

8. Capital para emprestar mais. Ôba!! Calma…

Foi divulgado, em tom de fanfarra (e sem qualquer contraponto), que o novo banco terá um ratio da Basiléia de 15% (o oficial é 8% e o nosso, mais conservador, exige 11%), i.e. o IU terá capital de sobra para emprestar. Balela. Eles, individualmente, já tinham folga de capital e não emprestavam tudo porque não tinham conforto suficiente para tal. Como um todo, os bancos brasileiros são pouco alavancados, poderiam emprestar mais sob a ótica do capital disponível. E vinham crescendo, aos poucos, até essa drástica brecada. Depois voltarão a emprestar, pois é assim que ganham dinheiro pra valer.

O Ministro Mantega, da Fazenda, fez uma breve apologia, segundo li na Folha: “Acho que favorece [o destravamento do setor de crédito no Brasil], visto que fortalece as instituições”. Lamento discordar do Ministro, a quem respeito muito. O fato é que os dois bancos estarão é mais atrapalhados até decidirem quem manda na área de Crédito, quem fica e quem sai entre os gerentes e analistas de crédito, etc. Talvez estes fiquem até mais conservadores para mostrar aos nossos ‘patrões’ que são melhores do que os da turma que está chegando.

As análises tendem a esquecer os fatores humanos que regem esses processos complexos de integração…

9. Ganhadores e perdedores desse negócio:

a. Ganhadores:

  • Os acionistas dos dois lados.
  • Os executivos mais bem posicionados politicamente e que apoiarem a fusão de forma construtiva.
  • Os fornecedores que conseguirem permanecer no novo banco (as ordens de compra serão gigantes).
  • Consultores no curto-prazo, pois a demanda aumentará por conta da imensa integração.

b. Perdedores:

  • Bancários em geral, pois muitos serão demitidos (20% ? Ninguém sabe ainda) e diminui a oferta de boas vagas em mais um banco (dois virarão um só). Aliás, se adicionarmos Santander + Real…executivo de banco é carreira em extinção.
  • Executivos mal posicionados e com postura destrutiva que só defendem o seu ‘território’.
  • Fornecedores que perderam a briga, pois perderão um clientaço.
  • Consultores no longo-prazo, pois perderão um clientaço.
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