Foi emocionante, não foi? A minha esposa chorava que nem criança ao assistir o discurso da vitória de Barack Obama, numa Chicago inundada de entusiastas igualmente emocionados.

Parecia até que os americanos estavam exorcizando seus traumas bushnianos, recentemente potencializados pela crise econômica que apenas se inicia por lá.

Sem muito esforço, Obama foi ungido pela nação americana como a liderança carismática que lhes trará a redenção. Ao ver e rever as cenas de entusiasmo explícito, ao rememorar minhas análises sobre a crise americana, vem-me à cabeça a carência que os americanos têm de uma liderança que, de fato, lhes dê esperança. Que os ajude a enfrentar a difícil travessia que os espera, tal qual um Moisés bíblico em pleno século XXI. Aliás, diga-se de passagem, impressiona a empolgação que toma conta do mundo por conta da eleição de Mr. Obama. Este fato demonstra claramente a importância que os EUA têm para todos nós e, surpresa (até para mim), como sentimos falta de um EUA forte e equilibrado.

Barack Obama é puro simbolismo. Ele é a globalização encarnada. É negro com branca. É África com América. E tal qual a globalização, é sinônimo de mudança. É uma figura simpática, mas é de uma racionalidade cortante.

Mas os desafios que o esperam são únicos e de difícil superação. É coisa para alguém com muita firmeza, obstinação, senso de oportunidade, habilidade para cercar-se das pessoas certas e…muito, mas muito carisma. A meu ver, ele tem todos estes atributos. Aos 47 anos, faltam-lhe idade, vivência, “chuva no lombo”. Mas nada como um bom time de assessores experimentados para compensar essa lacuna.

Destaco também o apoio manifestado pelos governos de todos os países relevantes, Brasil incluso. E, com grande oportunismo, todos já deixaram claro que esperam diálogo, parceria, etc. Mas urge alertar que não devem esperar moleza por conta do jeitão “bom-moço” de Barack Obama. Ele sabe muito bem que tem que agradar primeiro os seus eleitores. Aqueles mesmos que sentem-se roubados pela crise econômico-financeira que deixou a América de joelhos. E o lado global da crise? Bem, cada um com seus problemas, certo?!…

Vejo uma América menos invasiva e menos preocupada com os problemas alheios, até porque tem que cuidar das suas mazelas internas. Pelo contrário, acho que se esforçará para repatriar empregos, dividendos, focando na exportação (e dane-se o superávit comercial do Brasil, da China, etc.). Enquanto Bush tanto defendia o “free trade”, acho que Obama e seu time sacarão que “free trade” ajuda mais China et caterva do que seu próprio país. Eu aposto em mais protecionismo, não para enriquecimento extra, mas limitar o empobrecimento irremediável. A boa notícia é que, em termos fiscais, o brutal esforço que o Tesouro está fazendo – e continuará a fazer – dificultará tais ações predatórias.

Um último aspecto importante, mais do lado geopolítico, é a complexa equação do Oriente Médio. Os pequenos avanços por lá registrados se deram nas gestões de Carter e Clinton, ambos Democratas. Espero que o novo Presidente dos EUA consiga, de vez, viabilizar a criação de um Estado palestino decente e que isso reduza a abominável violência que tanto aflige aqueles povos.

Acho que é isso. Que Obama tenha toda a sorte do mundo – para o bem dele, dos americanos e para o nosso também.

Abraços, Fernando