Quem se lembra da expressão Acionistas Ativistas (do inglês Activist Shareholders)? A seguir, o link da Wikipedia (em inglês) que a detalha: 

http://en.wikipedia.org/wiki/Activist_shareholder 

Em poucas palavra, são acionistas (em geral, pequenos) que não se limitam a coletar dividendos e torcer pela alta das ações: eles querem ser protagonistas e fazem de tudo para que suas proposições sejam levadas a sério. O case do agora desaparecido conglomerado financeiro holandês ABN AMRO notabilizou esses novos personagens do capitalismo global acelerado.

Agora, eu cunho a expressão Governos Ativistas, i.e. aqueles que não se limitam a normatizar, supervisionar e intervir nos mercados a partir de instrumentos universalmente aceitos. Governos Ativistas se propõem a complementar a ação dos mercados, confrontá-los e ameaçá-los publicamente, utilizar instrumentos e políticas heterodoxas, injetar capital onde não são supostos a fazê-lo e até onde tais aportes não são necessários ou bem-vindos, etc.

Atualmente, no entanto, difícil é encontrar algum governo que não seja “Ativista”. Alguns exemplos que merecem destaque:

  1. Tudo começou com Gordon Brown, do Reino Unido, ao decidir socorrer bancos privados via injeção de capital acionário nestes.
  2. Nos EUA Mr. Paulson obrigou o Wells Fargo a aceitar capitalização do Tesouro, mesmo com o banco provando que não precisava!
  3. A nossa MP 443 que permite que BB e a (nova) CaixaPar comprem bancos, construtoras, etc., num movimento quasi-estatizante.
  4. O FED (BC americano) emprestou dinheiro para capital de giro para empresas, via aquisição de commercial papers, ao invés de fazê-lo somente a bancos.
  5. O Presidente da França vem ameaçando publicamente estatizar os bancos franceses que não retomem os empréstimos ao setor produtivo.
  6. Reduções seguidas e orquestradas das taxas de juros, no mundo todo – o Brasil foi uma exceção, naturalmente…
  7. Agora foi a vez da China informar que irá injetar mais de meio trilhão de dólares em sua economia doméstica (quase um terço de suas reservas cambiais!).

A lista de ações “ativistas” é longa…e surpreendentemente INEFICAZ!

As bolsas de valores, como sempre, são a face mais visível de uma situação única: a cada “ação ativista” as bolsas sobem para logo em seguida sofrerem quedas em suas cotações. Indo direto ao ponto, o mercado acionário vem ignorando solenemente as ações conjuntas dos governos.

Mas a grande surpresa continua sendo o mercado de crédito. A começar pelo mercado de crédito interbancário, onde a confiança simplesmente desapareceu e ninguém a encontra. Em seguida, temos o mercado de crédito corporativo, igualmente congelado e encarecido, sendo isso por conta da recessão que já aflige EUA, Europa e Japão.

O link abaixo, do fórum do Financial Times, que é liderado pelo lendário Martin Wolf, nos informa que nem mesmo o Fortis, banco que foi federalizado 100% pelo governo belga, tem acesso às linhas do mercado interbancário. Em outras palavras, o mercado interbancário mantém-se seco, pois a desconfiança mútua de seus participantes permanece, a despeito das intervenções firmes dos governos nacionais.

http://blogs.ft.com/wolfforum/2008/11/money-market-on-strike/#more-246

Incoerência da História? – acompanhem o meu raciocínio. É impressão minha ou governos de centro-esquerda, como Brasil, França, Alemanha e Reino Unido, estão queimando dinheiro público para “ajudar os mercados”? – a despeito do desgaste que os políticos poderão ter com seus eleitores! O caso americano também merece destaque, ainda que pela razão inversa: Bush & company rasgaram suas bíblias neoliberais numa intervenção trilionária jamais imaginada! E ainda assim perderam pontos eleitorais suficientes para elegerem Barack Obama, o mais improvável Presidente dos EUA.

E não é que os supostos grandes beneficiários dessa injeção de recursos “nos mercados” estão rejeitando essa ajuda suprema, outrora impensável? Estarão os mercados se auto-imolando? Será uma expiação coletiva de seus próprios pecados capitais?

Dá para afirmar que os governos ativistas estão tentando salvar mercados que não querem sê-lo. Será suicídio em massa, tal qual costumava acontecer com aquelas seitas malucas nos anos 70?

Muito doido tudo isso! Boa semana para todos!

Fernando