Caros – Deus, em sua infinita sabedoria e misericórdia, ouviu as minhas preces e, finalmente, foi publicada uma entrevista lúcida de um banqueiro de peso. E ninguém melhor do que o Fabio Barbosa que preside a Febraban (além do Santander/Real). Vocês sabem que em vários posts eu vinha criticando a ‘falta de pegada’ das entrevistas.

Nesta, publicada na Folha de hoje, a repórter Sheila D’Amorim deu um show. Abaixo, o link (de novo) e os principais destaques da mesma, com comentários que julgo pertinentes.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1111200802.htm

  1. “Não tem reais suficientes para atender a essa nova demanda das pessoas [nde: ele quis dizer ‘empresas’] que migraram de dólar para reais”: o mercado financeiro e os tomadores de crédito estão perdendo na medida que vão vencendo os empréstimos em aberto, algo como 20% (estimativas) da oferta de recursos (funding) que vinham dos bancos e investidores internacionais. Então, todas as demandas de crédito externo vêm migrando para captações em reais e, naturalmente, não tem dinheiro para todo mundo.
  2. “…o crédito vai voltar, mas não como antes…a sensação de falta de crédito ficará”: é a tal história da desaceleração. As empresas e as pessoas vinham investindo, comprando e, portanto, se endividando baseadas num cenário de crescimento de 6% a.a. (imaginemos que isto é igual a um carro a 120 Km/h). Agora, a variável endividamento vai ser reduzida na marra – por falta de funding. Portanto, igualmente na marra, investimentos e compras serão reduzidos também. Eu aposto num crescimento perto de 2,5% em 2009 (algo como o nosso carro vir de 120 km/h para 30 km/h). Vai ser uma senhora brecada; não haverá batida no carro da frente… mas nascerá um ‘galo’ na testa, pois a cabeça vai bater no vidro!
  3. “Não sei de onde saiu essa idéia de que banco ganha mantendo dinheiro em título público”: esta é uma das broncas favoritas da esquerda brasileira e tem sua origem na década de 80 – no famoso “open market”. Na época, os bancos tomavam dinheiro via depósitos nas agências e investiam grande parte em títulos emitidos pelo BC e pelo Tesouro (os mais velhos lembrarão das ORTNs, OTNs, LTNs, LFTs, BBCs, etc.). Hoje é diferente, pois o custo que os bancos pagam pelo nosso dinheiro numa aplicação de CDB pode facilmente passar de 100% do CDI. Em outras palavras, não é um bom negócio para eles, não.
  4. “Ele [o BC] colocou o dinheiro [nos bancos] e está dizendo: ‘não é para você fazer o que quer, mas para usar direcionado'”: ele quer dizer que o BC liberou os recursos do compulsório para que os bancões comprem as carteiras de crédito dos bancos menores com problemas, i.e. não liberou para que eles saiam emprestando para quem quiserem. E tem meio-mundo confundindo tudo: metade achando que os bancos estão escondendo o dinheiro e a outra metade achando que o BC está irrigando a economia. Os 100% estão errados. Espero que com essa entrevista a turma entenda o que está acontecendo de fato.
  5. “Não existe dinheiro de longo prazo”: verdade. Ou melhor, só tem aquele dinheiro santo do BNDES, mas que também está no limite do limite. O resto vinha de fora, de linhas de bancos e de investidores, via emissão de eurobonds. Secou tudo. E mesmo o capital de giro diminuiu de prazo. E como as mega operações tinham funding externo (em dólares), as mega empresas agora competem com as PME’s pelos mesmos reais. Complicado para elas, não?!

O que faltou na entrevista: para ficar perfeita, faltou abordar a questão do conservadorismo dos comitês de crédito; como o Fabio enxerga o atual processo de decisão de crédito, à luz da recessão externa, etc. A lógica seria a seguinte:

  • Falta funding para os bancos emprestarem.
  • Por emprestarem menos a economia crescerá menos.
  • Com a desaceleração econômica, famílias e empresas perdem renda.
  • Menos renda, menor chance de repagar os empréstimos.
  • Os bancos reduzem ou cortam linhas e…
  • …o processo se retroalimenta.

Grande lição desta entrevista: os empresários, de todos os portes, estão lutando pelo mesmo recurso, que é finito e escasso atualmente. Conseguirá crédito adequado aquele empresário que demonstrar para os bancos que seu risco é baixo e que oferecerá boas oportunidades de negócio no futuro. Do contrário, perderá linha para outro. Virou lei da selva. Voltaremos ao tema.

Mas a Sheila D’Amorim mandou muito bem. O Oscar de Melhor Entrevista de Presidente de Banco vai para ela!

Abraços, F.