O governo está ajudando muitos bancos e empresas com dificuldades de crédito, mas boa parte desses problemas seriam evitados se estes fizessem uma adequada GESTÃO DE RISCO.

Mais especificamente, se bancos e empresas não DESCASASSEM ATIVOS E PASSIVOS. Exemplificando:

  1. O banco faz um empréstimo de R$ 100 com prazo de 1 ano. Se ele captar no mercado esses R$ 100 com prazo inferior a 1 ano, ele terá de rolar essas captações ao longo da vida do empréstimo. Por exemplo: se a decisão do banco for captar por 180 dias, ele terá que rolar seus depósitos 1 vez. Se captar por 90 dias, terá que rolar 3 vezes e por aí vai.
  2. O mesmo se aplica a uma construtora que precisa levantar um prédio em três anos e toma dinheiro – via bancos, compradores, etc. – num prazo médio de 1 ano. Em outras palavras, quando o dinheiro acabar, terá ainda dois anos de obra para construir e financiar. Dependerá, portanto, da oferta de crédito e/ou compradores suficientemente abonados ao longo da obra para que possa concluí-la.
  3. Idem para varejistas, que financiam a compra de uma TV em 12 meses, mas que se financiam descontando recebíveis em 90 dias.

Empresas de todos os ramos – e bancos – vêm trabalhando cada vez mais com ativos longos e passivos curtos, i.e. não tem qualquer flexibilidade em caso de haver uma escassez de crédito que financie esses ativos longos. Se não fossem esses descasamentos, hoje não teríamos esta enormidade de empresas e bancos ilíquidos. Afinal, ao vencerem os passivos, seus ativos virariam caixa e tudo se equilibraria. Em teoria, pelos menos, pois todos temos que conviver com o calote alheio…e isso é uma razão a mais para se fazer um colchão extra de liquidez.

Em se considerando a fartura de crédito que vínhamos tendo nos últimos anos, esta crise é de fato um choque inesperado. No entanto, escancarou uma má prática de gestão de riscos.

Alguns fatores que levam empresas e bancos e se exporem desta forma:

1. Competição: bancos passaram a emitir CDB’s que tornam-se resgatáveis diariamente (após uma certa carência). Bom para o cliente, que tem total flexibilidade, mas péssimo para o banco, que empresta a perder de vista e pode amanhecer com o caixa negativo – tornando-se “cliente” do BC.

2. Custo: como em geral o custo das linhas de crédito são mais baixos no curto-prazo, é comum no Brasil captar-se por períodos mais curtos.

3. Expectativa (eterna) da queda das taxas de juros: se estes vão cair, é melhor captar caro hoje, por um prazo curto, para em seguida captar de novo por um custo mais baixo.

Em suma, eu não sou ninguém para dizer “faça isso” ou “faça aquilo”. Afinal, eu não sou dono de empresa alguma. Mas eu digo sim, claro, em alto e em bom som que gerenciar empresa com  PRAZO DO ATIVO > PRAZO DO PASSIVO é brincar com fogo e quebra muita empresa no mundo todo. Palavra de quem vive de analisar empresas há 25 anos e quatro meses.

Abraços, F.