Dia corridos, difíceis = posts de menos. Lamento. Aqui vai um tema filosófico que explica em grande parte a crise que vivemos.

Você já ouviu falar em Síndrome do Pensamento Único (“SPU”, para facilitar)? Definitamente, a SPU vem norteando os nossos comportamentos, culminando na maioria dos desastres econômicos, ambientais e sociais que infestam a sociedade moderna.

No mundo dos negócios e na prática de governos e mercados, usamos expressões como Efeito Manada e Efeito Cardume. Elas mostram que após um comando central todos se deslocam na mesma direção. É um pensamento único. No entanto, por que será que seres (medianamente) racionais como o homo sapiens também se comportam como manadas e cardumes, ou seja, adquirem facilmente a Síndrome do Pensamento Único?

Virou moda nos EUA, nesses dias de caos, acadêmicos e políticos se perguntarem “como não conseguimos identificar a bolha se formar, assim como prever o tamanho da crise que se avizinhava?”. No NYT (e no Estadão de hoje), Paul Krugman sugere dois bons motivos para que ninguém percebesse nada:

  1. “Quem iria querer escutar aqueles economistas sinistros alertando que o processo todo era, na realidade, um gigantesco engodo?”.
  2. “Todo mundo estava muito preocupado, comemorando o sucesso no combate às crises (Ásia, Rússia, Ponto.com, Enron, etc.) recém debeladas para notar qualquer outra coisa”.

Krugman e eu (pretensão, hein?!) achamos que em períodos de bonança, existe um magnífico acordo (ou seria conluio) implícito entre governantes e mercados. Os primeiros desejam colher dividendos políticos por conta do aumento da riqueza, enquanto os segundos querem continuar vendendo alegremente seus produtos e soluções visando o lucro a qualquer preço.

Por exemplo, Nouriel Roubini ficou 4 anos demonstrando que tudo aquilo era um castelo de cartas, mas quem queria ouvi-lo? Se o Mago Greenspan dizia que os mercados eram soberanos, quem era aquele obscuro professor imigrante para dizer o contrário?

Por aqui, sofremos da mesma síndrome quando o assunto é câmbio e juros, não é mesmo? Nossos governantes, em nome das práticas do livre mercado, adoram ver nossa moeda se fortalecer às custas do Capital Cigano (expressão do Professor Carlos Lessa), para em seguida vê-la derreter graças ao massivo repatriamento à primeira crise. Quanto aos juros, nada de diferente: são sempre altos porque nosso BC enxerga inflação até quando o mundo está à beira de uma depressão. E vá lá você dizer o contrário: seguramente será taxado de ter fugido das aulas de economia!

O mesmo acontece com as mega-fusões corporativas. Eu vejo analistas de mercado, a mídia, os governos e a torcida do Flamengo ejaculando alegria por conta da recente aquisição da Anhauser Bush pela Inbev (que tem suas raízes na Brahma-Antarctica, Ambev e Interbrew, lá na Bélgica). Eu não acho a menor graça quando se criam essas mega-organizações que são inadministráveis no curto-prazo e insustentáveis no longo-prazo. Contudo, essa prática não sai de moda (pelo menos há crédito sobrando). Afinal, “cria valor para os acionistas” graças às famosas sinergias (que são calculadas apenas na elaboração dos planos de negócios).

Mas quem pensar diferente disso é que porque não entende nada de Corporate Finance, não é mesmo?

Ao pesquisar sobre o tema, achei algo no site do Pueri Domus ( www.pdea.com.br ), tradicional colégio de São Paulo. Abaixo, segue um pedacinho do texto de José Pacheco que trata de educação (publicado em 12/02/07), mas que vale perfeitamente para a SPU de mercado:

“A lista das doenças que afetam as escolas é extensa. Tratarei de algumas aqui…

…A “síndrome do pensamento único” consiste em um conjunto de afecções patológicas muito comuns em formadores de opinião e professores. Para esses doentes, existe um só modo de pensar, um só modo de agir, um só modelo de escola. Todo o pensamento divergente, toda a prática dissonante os impele a reações violentas (quase sempre, por escrito). Publicam artigos de opinião, ou meros comentários, em tom persecutório. Quem ousar interpelar o modelo único, sugerir alternativas, ou instituir outras práticas, sofrerá perseguições, porque os cultores do pensamento único não permitem veleidades….”

O autor prometia, à época, publicar o Pequeno Dicionário dos Absurdos da Educação. Não sei se o fez, mas talvez alguém devesse escrever o Pequeno Dicionário dos Absurdos do Mercado. Venderia muito!

E o primeiro e mais maléfico absurdo é o pensamento único. Que Deus nos dê forças para enfrentar a esculhambação que nos será imputada, cada vez que nos posicionamos de forma diferente do grupo dominante que nos impõe o pensamento único. Afinal, como diz Paul Krugman, o momento de começar a impedir a próxima crise é agora.

A sua opinão é importante: comente este post. E se alguém achar textos sobre a SPU no campo da economia e negócios, envie-nos para publicação.

Abraços e bom fdes!

Fernando