dezembro 2008


Caros – eu já ia desligar o computador e ir pra casa, mas trombei com dois temas que me animaram a ficar mais um pouco.

GMAC – o braço financeiro (leasing) da GM recebeu autorização do FED para virar banco, só para poder receber um ‘quinhão’ do pacotão de Paulson & Bernanke – os tais USD 700 bi, lembram-se? Pois bem, o agora GMAC Bank acaba de receber USD 6 bi. E para comemorar, anunciaram uma mega promoção – em conjunto com a montadora – para financiar veiculos. O Financial Times nos reporta que para várias linhas os juros serão 0% (atenção: lá é 0% mesmo, não como aqui!) e os critérios de aprovação serão “afrouxados”, segundo o porta-voz da companhia.

O Blog do Crédito diz o seguinte: já erraram – e muito – ao deixarem a GM chegar à beira da falência. Agora, despejam esta fortuna no seu banco para que este empreste para qualquer um! Qual será o objetivo deles? “Escapamos de quebrar por iliquidez na montadora, mas vamos quebrar por insolvência no banco!!”. Será que esse povo tem como meta e é pago para fazer bobagem?!

Crédito mal dado quebra empresa (lembram-se de varejistas como Arapuã, Casa Centro, etc.?) e bancos também (Nacional, Bamerindus, a lista é longa). A GM parece quebrar como empresa e como banco também. Ver o link abaixo:

http://www.ft.com/cms/s/0/fa819104-d679-11dd-9bf7-000077b07658.html?nclick_check=1

Lehman Brothers – o finado banco de investimento americano, cuja quebra iniciou tudo isso que está aí, volta às manchetes por querer mais prazo para apresentar o seu plano de recuperação da falência. O Lehman alega que o prazo dado inicialmente, janeiro/09, foi curto demais e agora pede uma extensão até julho/09.

Mas será que é tão complicado assim? Dêem uma olhada abaixo e no link:

  1. São 76 unidades do Lehman, espalhadas em 15 países diferentes (todos com contabilidade e legislações fiscais, trabalhistas, etc., específicas).
  2. Com a falência decretada (Chapter 11, nos EUA), foram cancelados a bagatela de 900 mil contratos de derivativos. Os que tinham a receber irão se ‘conformar’?…
  3. A Lehman já teria reconhecido USD 200 bilhões em dívidas para com seus clientes. Não se sabe o quanto poderá fazer de caixa, após vender seus negócios (duvido que chegue a USD 10 bi).
  4. Passados três meses, os funcionários, auditores, autoridades, etc., conseguiram recuperar apenas 50% dos dados e informações relativos ao processo…

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=ajb9ng97Df4Y&refer=home

Essa imensidão de dívidas não pagas afeta brutalmente a vida de quem esperava recebê-las. Afinal, essas outras empresas e famílias também tinham outras dívidas para pagar e por aí segue o maior ‘efeito dominó’ da história do capitalismo!

Abraços,

Prezados Amigos do Blog do Crédito,

Escrevo para desejar-lhes um ano pleno de saúde e muita energia positiva.

Será um ano de crise, e isto não muda só porque é dia de festa. Porém, aqueles que se posicionarem com inteligência sairão vencedores e prontos para viver grandes realizações.

Tudo de bom + abraços,

Fernando

Promessa é dívida!

A grande maioria das empresas é ‘vítima’ da chamada sazonalidade de Natal. Em outras palavras, elas vendem muito mais durante: (a) outubro e novembro (as indústrias), (b) dezembro (o comércio). Digo que elas são ‘vítimas’ porque a sazonalidade requer um planejamento todo especial para dar conta da demanda irregular desta época.

Significa que meses antes da venda ocorrer a empresa já teve que planejar (i.e. adivinhar) o quanto terá de comprar de matéria-prima (indústria) ou produto para revender (comércio), além da necessidade de capital de giro! No entanto, este ano tivemos um complicador extra: a volatilidade causada por esta crise maluca.

De qualquer forma, a maioria das empresas deve estar neste momento:

  1. Sem ou com pouco caixa.
  2. Com muitas duplicatas a receber no seu ativo –  e com maior risco de inadimplência.
  3. Com mais estoque do que de hábito, porque previu vender mais do que conseguiu.
  4. Boa parte das duplicatas a pagar já foram pagas.
  5. Endividamento bancário elevado – garantido, em parte, pelas duplicatas acima.

Esta é uma fotografia clássica de um balanço em final de ano/janeiro. Só que desta vez há um problema adicional: o cenário de crise deste primeiro trimestre de 2009:

  1. Os bancos entrarão 2009 com menos apetite de lhe dar crédito do que antes.
  2. Razão: eles sabem (ou supõe – e tanto faz!) que sua empresa vendeu menos do que esperava neste Natal.
  3. Sabem – ou supõe, e tanto faz! – que sua empresa está com pressão de capital de giro e que está com menor oferta de crédito do que antes!
  4. Antes de liberarem mais crédito, a tendência é que os bancos solicitem o balancete do primeiro trimestre do ano… que só será produzido em maio, i.e. tarde demais para quem precisa de caixa já.
  5. Grandes setores estão estocados e produzindo pouco ou nada, e.g. automotivo, siderúrgico e construção civil (só para citar alguns que empregam bastante).
  6. A volatilidade do câmbio e o cenário depressivo internacional não ajudarão as exportações.
  7. A indústria irá demitir com mais frequência e os juros subirão (por conta do crédito menos ofertado). Moral da história: a propensão marginal a consumir das famílias cairá consideravelmente.

Resumindo, o cenário de horrores acima citado promete o seguinte às empresas:

  • Poucas vendas
  • Pouco crédito (e caro)

O que fazer (sob a ótica de crédito – não tenho a pretensão de sugerir estratégia empresarial):

  1. Limpar o balanço, i.e. o que não conseguiu vender no preço justo no Natal, não será vendido agora! Então liquide pra valer os seus estoques, pois financiá-los com empréstimo bancário será DIFÍCIL, CARÍSSIMO e ainda DETERIORARÁ O SEU CRÉDITO NA PRAÇA.
  2. “E alongar o crédito?” Se conseguires, sereis dígno do reino dos céus! (texto com estilo bíblio) Os bancos só alongarão créditos para clientes que estejam, comprovadamente, quebrando. E cobrarão juros, taxas e multas contratuais irracionais (e pedirão todas as garantias possíveis e imagináveis).
  3. Não reponha estoques. E se precisar fazê-lo, barganhe como nunca por maiores prazos com os seus fornecedores. Acredite: é melhor pagar mais juros (ou preço mais alto) para o fornecedor alongar o prazo de pagamentos, do que pedir dinheiro em bancos. Os bancos, ao sentirem que sua empresa não precisa deles, voltarão, aos pouquinhos, a procurá-lo para emprestar e aí você poderá reequilibrar o jogo.
  4. Se precisar muito, recorra a empresas de factoring de 1a. linha e faça suas duplicatas virarem caixa – mas só com as de 1a. linha. Procure a ANEFAC (associação do setor) para mais informações. Eu gosto da ANEFAC e de algumas factorings top, mas tem muita gente no setor que cobra como agiota. E saiba: os bancos têm precoceito com empresas que descontam títulos com factorings (palavra de um preconceituoso convertido), i.e. muito banco deixará de te emprestar se ‘cheirar’ que a situação do seu negócio está tão ruim, que você está precisando de factorings…
  5. Outra opção que é válida, mas só para quem vende para empresas muito grandes e poderosas, é descontar o título com o proprio sacado. Grupos que têm seu próprio banco gostam disso. O problema, segundo tenho sido informado, é que tem muita empresa deste perfil que também está com pouco crédito na praça…dureza!

Simples, não é?! A crise está tão dura, que a regra única a ser seguida é CASH IS KING (ou caixa é o rei). E eu diria mais: neste momento CASH IS GOD (…é deus, com ‘d’ minúsculo para não blasfemar).

É isso mesmo, converta seus ativos em caixa e reduza ao máximo seu endividamento bancário.

Opinião deste Blog: 2009 não é ano para se apostar “ah, o mercado vai virar”, “não vou vender por tão pouco e ter prejuízo”, “meu produto vale mais que isso”, etc. A regra é clara: o seu cliente está sem grana!

2009 é ano para empatar ou perder pouco.

A vida é longa e a gente reconstrói as perdas deste ano – mas para quem quebrar agora, o futuro será muito mais incerto e doloroso. Não esqueça: o seu carro tem acelerador e freio (além do breque de mão!): não queira acelerar sempre.

Com meu abraço, que é simpático com a sua causa,

Fernando

O cenário geral para 20o9 deve estar claro para todos, i.e.:

  1. O Brasil crescerá pifiamente.
  2. As vendas das empresas andarão de lado ou cairão.
  3. Empregos sumirão em larga escala.
  4. O crédito será de difícil obtenção, curto e caro.
  5. A vida será dura para quem está endividado.
  6. Apenas uns poucos se darão bem, na PF e na PJ

Sendo este um cenário previsível para o primeiro trimestre que logo se iniciará, o Blog do Crédito divide com você algumas dicas, conselhos e sugestões sobre como lidar com o seu passivo financeiro. Ops, esqueci de dizer que este Blog também assume que:

  1. As famílias estão com dívidas das compras de Natal (sem falar nas de “pré-Natal”…)
  2. As empresas idem, por conta de duplicatas a receber das vendas natalinas e possíveis estoques encalhados

Detalhando temos:

Pessoa Física

  • A primeira coisa a se fazer é conhecer corretamente o seu orçamento mensal.
  • Monte uma planilha que contenha, entre outras coisas, seu salário, suas outras rendas, despesas fixas (aluguel, condomínio, escola, supermercado, ajuda pra sogra), compromissos já assumidos (cheques pré-datados, IPVA, IPTU, seguro, prestações e carnês, etc.).
  • Compras de Natal: separe e organize com atenção o talão de cheques (de onde saíram os últimos pré-datados), tickets de cartão de crédito e carnês de lojas.  Agora faça uma planilha, respeitando as datas de vencimento.
  • Juntando os números do “pré-Natal” e do Natal, você saberá corretamente o que te espera no “pós-Natal” que, aliás, já chegou!
  • Vai ter que financiar as dívidas? Procure as fontes mais baratas.
  • O cheque especial, o crédito pessoal de financeira e o financiamento do cartão de crédito são os mais caros. Evite-os!
  • Converse com o gerente da sua agência e negocie que todas as dívidas sejam consolidadas num empréstimo parcelado. Mas negocie duro. Explique que se não solucionar o problema agora, em breve, você E  O BANCO TERÃO UM PROBLEMA. Ameace mudar de banco – conte daquele seu vizinho que é gerente do banco concorrente e que vive te assediando para mudar de banco. E o prazo?
  • O ideal é que você pague as suas dívidas no menor prazo possível, pois quanto mais tempo elas ficarem em aberto, mais juros você irá pagar.
  • Na hora de negociar o empréstimo, o ideal é você levar a sua planilha de gastos e mostrar para o gerente que tem controle das suas contas, assim como o citado empréstimo se encaixará no seu planejamento.
  • Se você tem dívidas e dinheiro aplicado “para uma emergência”, estará fazendo um mal negócio. A sua grana renderá perto de 10% ao ano enquanto que o custo com juros será entre 4% e 10% ao mês. É melhor zerar o investimento e pagar o que deve, para não empobrecer.

E não se esqueça que em 2009:

  • Nem você nem eu estaremos seguros nos nossos empregos;
  • Nem você nem eu teremos fartura de crédito!

Mais tarde publicarei as recomendações para PJ.

Abraços e bom domingo!

Fernando

A Business Week acaba de publicar o Top 10 das piores previsões de “analistas” americanos! Dá para notar que os de lá assim como os daqui chutam muito, e com o viés que lhes interessa! Gente séria não diria o que esse povo disse!

Aliás, tomem sempre muito cuidado com analistas muito enfáticos, com mais recurso cênico do que intelectual: tendem a ser “analistas”.

Abraços, Fernando

PS: as traduções abaixo são de minha autoria, para facilitar o entendimento.

“Here are some of the worst predictions that were made about 2008. Savor them—a crop like this doesn’t come along every year.

1. “A very powerful and durable rally is in the works. But it may need another couple of days to lift off. Hold the fort and keep the faith!” —Richard Band, editor, Profitable Investing Letter, Mar. 27, 2008

“Uma poderosa e duradoura alta das ações está em produção.”

By FB: quando a previsão foi feita, ou melhor, quando o chute foi dado, o índice Dow Jones/Industrial Average estava em 12.300 pontos – hoje está em 8.500.

2. AIG (AIG) “could have huge gains in the second quarter.” —Bijan Moazami, analyst, Friedman, Billings, Ramsey, May 9, 2008

AIG pode ter enormes lucros no segundo trimestre”

By FB: a AIG perdeu USD 5 bi naquele trimestre e outros USD 25 bi no trimestre seguinte. O governo americano injetou USD 150 bi para sustentá-la. A AIG tornou-se uma estatal americana três meses após a “previsão”.

3. “I think this is a case where Freddie Mac (FRE) and Fannie Mae (FNM) are fundamentally sound. They’re not in danger of going under…I think they are in good shape going forward.” —Barney Frank (D-Mass.), House Financial Services Committee chairman, July 14, 2008

” FM e FM têm fundamentos sólidos. Elas não correm risco de quebrar…acho que elas estarão em bom estado daqui para frente”

By FB: em apenas 2 meses, repito, 2 meses (!!) o governo precisou federalizá-las, liberando USD 100 bi para cada uma através de uma linha de crédito garantida. E o pior é que essa ‘obra’ não foi realizada por um “analista”, mas por um Deputado Federal!!

4. “The market is in the process of correcting itself.” —President George W. Bush, in a Mar. 14, 2008 speech

“O mercado está em  processo de auto-correção”

By FB: pobre George Bush, mal assessorado acabou falando bobagem. Mas por aqui não é diferente, não é mesmo? A revista fez piada dizendo que o mercado ainda não parou de se auto-corrigir.

5. “No! No! No! Bear Stearns is not in trouble.” —Jim Cramer, CNBC commentator, Mar. 11, 2008

“Não, não, não! A Bear Stearns não está com problemas”

By FB: em apenas 5 dias o JP Morgan adquiriu a BS  a preço de banana, com os acionistas do BS perdendo quase todo o valor investido. O tal Cramer é comentarista econômico de horário nobre!! Patético se propor a isto…ou haveriam outros interesses em jogo?!…

6. “Existing-Home Sales to Trend Up in 2008” —Headline of a National Association of Realtors press release, Dec. 9, 2007

“A tendência do mercado de imóveis prontos é de alta das vendas”

By FB: a mesma entidade declarou, um ano depois, que o ritmo de vendas está em seu pior nível desde a Grande Depressão de 1929.

7. “I think you’ll see [oil prices at] $150 a barrel by the end of the year” —T. Boone Pickens, June 20, 2008

“Eu acho que veremos o preço do petróleo a USD 150 o barril no final do ano”

By FB: na época, o preço estava por volta de USD 135. Hoje anda ao redor de USD 40-50. Eu também acreditava que veríamos o petróleo a USD 150, mas a economia mundial deu uma “pequena virada”…

8. “I expect there will be some failures. … I don’t anticipate any serious problems of that sort among the large internationally active banks that make up a very substantial part of our banking system.” —Ben Bernanke, Federal Reserve chairman, Feb. 28, 2008

“Eu acredito que haverá algumas quebras…eu não antecipo nenhum problema sério com bancos que tenham ativa presença internacional, que lideram o nosso sistema bancário”

By FB: o Presidente do FED poderia ter passado 2008 sem essa. Ele não tinha nada que se fazer de adivinho ou otimista. Já foi traumático demais o fato de ele não ter idéia do que os bancos tinham em seus portfolios, ou os riscos que corriam. Basicamente, os bancos de investimentos desapareceram, uns 20 bancos comerciais quebraram irremediavelmente (entre eles o Washington Mutual, que foi a maior quebra da história americana). Nem o Citibank, ícone americano (como a Coca-Cola e o Mc Donald’s), se safou da avalanche que soterrou a banca americana.

9. “In today’s regulatory environment, it’s virtually impossible to violate rules.” —Bernard Madoff, money manager, Oct. 20, 2007

“No atual ambiente regulatório [dos mercados], é virtualmente impossível violar as regras”

By FB: apesar de ser uma auto-profecia, acho que esta é a melhor de todas, não? Mas talvez seja incluída na categoria Top 1o Fraudes. Mr. MadOFF, please fuckOFF!!

10. A Bound Man: Why We Are Excited About Obama and Why He Can’t Win, the title of a book by conservative commentator Shelby Steele, published on Dec. 4, 2007.

“…por que Obama não poderá vencer”

By FB: este é o nome do livro que a comentarista conservadora Shelby Steele publicou em dezembro de 2007, prevendo que Obama não venceria a eleição. A Srta. Steele terá os seus livros majestosamente encalhados (graças a Deus)!

Coy is BusinessWeek‘s Economics editor”

Bom dia,

Mas o que será que o crédito, o nosso Banco Central e o finado (e lendário) MOBRAL teriam em comum? Muita coisa. Resumindo, temos:

  1. O BC lançou às vésperas do Natal os números do crédito no país (ver link a seguir). O citado relatório não mostra nada de bom, mas nos induz a pensar que o crédito está, de fato, em expansão no país. http://www.bcb.gov.br/?ECOIMPOM
  2. Focando-se na expansão do crédito, ele nos mostra uma realidade ATÉ POSITIVA, se nos limitarmos a uma rápida análise QUANTITATIVA .
  3. Porém, a realidade é RUIM se fizermos uma análise QUALITATIVA, adicionando outras informações que passaram ao largo do citado relatório oficial.
  4. Economistas, “analistas”, empresários, líderes de todo tipo, gente do governo e jornalistas (*) passaram batido, como de hábito, nos fatos mais relevantes porque não dominam e pouco se interessam por crédito.

(*) O jornalista Carlos Alberto Sardenberg e os ouvintes da rádio CBN viram uma luz diferente sobre o tema, por conta da entrevista que este nada modesto escriba deu para a rádio no último dia 23 (link abaixo).

Entrevista com Fernando Blanco, presidente da seguradora de crédito Coface, ex-diretor de crédito do banco ING e ex-diretor comercial do banco ABN no Brasil

(*) e a ótima jornalista Sheila d’Amorin escreveu o seguinte, no caderno Dinheiro, da Folha de S.P. (edição do dia 24/12): “Este resultado [o aumento do crédito] está inflado pela incorporação de juros e pelo impacto da desvalorização de 10,3% do real em relação ao dólar no mês, sobretudo nos créditos em dólar concedidos pelo BNDES…”.

Note que os 10,3% de desvalorização do dólar que ela menciona, significaram mais de R$ 20 bilhões de aumento no estoque de crédito da economia, sem que um único centavo tivesse sido desembolsado!!

Ah, sim, e o MOBRAL? – o governo militar, que ‘gerenciou’ o país a partir de 1964, lançou o Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL, cujo objetivo era reduzir o alarmante índice de analfabetismo da nossa população (o link informa mais). http://pt.wikipedia.org/wiki/Mobral

Pois muito bem, como cidadão e contribuinte, eu lanço a campanha para que o Governo reviva o MOBRAL,  objetivando a erradicação do analfabetismo financeiro e creditício do Brasil.

“Fala-se muito, muda-se pouco!”   mas é lógico, pois empresários, executivos e gente do governo não entende como o mundo do crédito funciona! E olha que eu já tentei aproximação (formal!) com um mundo de entidades de classe, políticos, etc., e…nada! Todos acham interessante o que eu digo, mas o tema sai da pauta mental desses senhores na velocidade da luz.

“Mas por que o BC não resolve isso?” – o BC entende muito de um monte de coisas, mas não é um oráculo. Por exemplo, os altos escalões e os funcionários de carreira de uma autarquia, como o BC, ou de um ministério, como o da Fazenda, não dominam o modus operandi de um banco e do seu processo de aprovação de crédito. E não interessa quantos diplomas de PhD o cidadão tenha: falta-lhe vivência! Não é burrice, mas sim falta de experiência em crédito (e isto não está escrito em livro algum, por sinal).

Em suma, para quem não tiver paciência para ouvir e ler os links, aqui vai o meu resumo:

  1. O crédito aumentou no Brasil, mas não da forma que interessa a mim, a você, a nossas empresas e ao país.
  2. O Brasil precisa do crédito crescendo (ou até diminuindo), mas de forma harmônica por todo o sistema, i.e. PF, PJ grande e pequena, etc. Sobressaltos em volumes e custo, assim como migrações de um segmento para o outro, são daninhos para o sistema!
  3. O que ocorreu (I) é que muitas mega-empresas substituíram o crédito externo pelo doméstico. Então, enquanto 1.000 empresas têm suas linhas de crédito reduzidas ou cortadas, uma única empresa, como a Petrobras, saca um único empréstimo e pode dar a falsa impressão de que está tudo normal.
  4. O que ocorreu (II) é que está aumentado a rolagem de dívidas não pagas, com os juros incluídos. Como os juros são altíssimos, o valor do novo “principal” é muito maior do que o “principal” anterior.
  5. O que ocorreu (III) é que os créditos dolarizados (e.g. Res. 63, Lei 4131, ACC/ACE/EPP, etc.) aumentaram muito em valor nominal em reais (conforme entrevista à CBN e Sheila d’Amorim).

O crédito até aumentou contabilmente, mas diminuiu e encareceu para a maioria.

Notem que é um festival de tecnicalidades, mas nada difícil de entender. Se eu e você entendemos, o governo, o BC, as entidades de classe, etc., deveriam entender também. Mas tem que querer entender e ter vontade de comunicar direito…

Crédito é tão importante no Brasil que deveríamos ter o Ministério do Crédito!

Bom último final de semana de 2008 + abraços,

Fernando

Uma crônica sobre o Bom Velhinho e os dias vindouros

E mais um Natal chegou e se foi. Família reunida, crianças ávidas por mais um monte de presentes. Nada a se reclamar. Afinal, não falta amor, saúde e harmonia na família. O lado material também está devidamente equacionado.

Mas este ano, ou melhor, neste Natal, eu fiquei querendo um presente que ninguém da família, ou nenhum dos amigos, pôde me dar: uma visão precisa do que nos espera em 2009. Resolvi, então, pedir para que Papai Noel esclarecesse minha tão solene dúvida. Como tal presente não viria num pacote, postei-me ao lado da lareira, de tocaia, e abordei o Bom Velhinho de forma decidida, assim que ele estacionou seu trenó e suas belas renas.  Naturalmente, ele foi pego de surpresa, mas não me negou o tão desejado e esclarecedor presente.

Primeiramente ele me disse que o Brasil não é diferente de sua amada terra natal, a Lapônia, que fica nos confins da distante Finlândia. Os duendes que lá vivem só falam da tal crise – disse-me que até as renas andam indóceis. Os jornais locais, como a Gazeta de Noel e o Folha da Lapônia se parecem com os daqui: informam a população sobre temas locais – mas pouco explicam o que de sério acontece nos mercados americano e europeu. Reclamou que até parece que a Lapônia está ‘blindada’ contra a crise, pois trazem muito pouca análise e poucos discutem as perspectivas para 2009. Contou-me também, com indisfarçável descontentamento,  que existem aqueles que tentam tirar proveito da crise, exagerando sua magnitude, e os duendes metidos a gurus das causas perdidas, que só sabem dizer que “passaremos por esta crise sem maiores problemas” e “que é preciso ser otimista”.

Curioso, perguntei ao Papai Noel como ele tem se comunicado com seu povo. Afinal, ele é o seu grande líder. Sábio que é, Noel (sim, já estávamos ficando íntimos) disse que se limita a dizer que “a crise é complexa e demanda cautela, pânico jamais”. Brilhante. Provoquei-o ainda mais, sequioso por previsões. Ele me concedeu o seguinte:

  1. “Na Lapônia não confiamos nos políticos. Eles falam o que lhes interessa. Não iremos produzir mais brinquedos só porque nosso Primeiro Ministro acha que a economia crescerá 4%”. Não contente, emendou: “E não recomendamos que nossa população de pobres duendes trabalhadores saiam consumindo e se endividando, só porque queremos a fábrica cheia”.
  2. “A coisa lá está preta, apesar da neve tão branquinha – piadista este Papai Noel -, pois o Banco da Lapônia cortou nossas linhas de crédito em 25% por causa da falta de liquidez internacional, a tal crise americana e tudo o mais. Depois cortaram outros 25% porque acham que nossa fábrica de brinquedos sofrerá com a falta de linhas de crédito”. Conformado, vaticinou: “E será assim durante 2009, com alguma recuperação em 2010”.

Sentindo-me ansioso por mais informações, ele abriu o coração e prometeu os seguintes presentes para nós Brasileiros:

  1. “Olhando coletivamente, todos empobreceremos. No entanto, e como sempre, há os que ganharão com esta crise. Portanto, ninguém tem que ficar olhando para o chão, reclamando da vida, declarando-se perdedor antes mesmo do jogo começar.” Sábias palavras!
  2. “Mas – afirmou categoricamente – perderá irremediavelmente todos aqueles que ignorarem a seriedade desta crise. Ela trará recessão e dimimuição de mercado e emprego, assim como diminuição e encarecimento das linhas de crédito. Portanto, recomendou, é fundamental que as famílias e empresas gerenciem suas compras, capital de giro e endividamento como nunca antes na história dessas terras geladas”. Ele se referia à Lapônia, naturalmente, mas a mensagem é a mesmíssima para o Brasil.
  3. Incomodado, eu intervi: Mas será impossível crescer, expandir, Papai Noel??? Para minha surpresa, ele me disse: “Ora, ora, é lógico que oportunidades surgirão. As famílias encontrarão pechinchas por conta do aperto financeiro generalizado. E desde que não façam loucuras, poderão adquirir um imóvel (pronto ou quase pronto) ou um automóvel por preços muito razoáveis. Mas é fundamental que antes analisem como andam suas contas pessoais, sua poupança e, principalmente, sua empregabilidade!!”.
  4. Aproveitando a deixa, abordei a questão do emprego. “Emprego, disse ele, entre risonho e apreensivo, isto é uma questão difícil até para mim! Lá na Lapônia estamos com poucas encomendas…vai saber se eu mesmo não entrarei em férias coletivas em 2009…”. É, para bom entendedor, meia palavra basta…
  5. Ele também falou que boas oportunidades surgirão para as empresas, pois “…você sabe, meu filho, muitas empresas terão dificuldades sérias em 2009 e as mais sólidas ganharão mercado de outras mais fragilizadas. Prevejo até um movimento de fusões e aquisições!! Mas é fundamental que a equação financeira esteja bem ajustada antes de qualquer movimento desta natureza!”, arrematou meu mais novo guru de negócios.
  6. E quanto às aplicações financeiras, Papai Noel, perguntei já em posição fetal? “Depende! Se você pretende aplicar em ações, elas estão muito desvalorizadas mesmo, mas ainda poderão perder mais valor se a asfixia financeira não se reverter. Note que nossa Fábrica de Brinquedos está valendo apenas 25% do que valia no IPO que fizemos lá na Bolsa da Lapônia, mas se os investidores continuarem sem crédito para suas outras necessidades, é provável que vendam ainda mais do nosso papel, mesmo sabendo que estão fazendo um mau negócio. Ah, continuou, e nem sonhe em querer ganhar uns cacarecos a mais fazendo negócios exóticos através de instituições menos sólidas! O risco será altíssimo, porque a volatilidade também o será”.
  7. Já atrasado para a próxima chaminé, Papai Noel concluiu: “Meu filho, assim como o seu carro tem um pedal de acelerador que é para você ganhar velocidade nas grandes retas, ele também tem um pedal de breque, que deve ser usado para evitar acidentes. E 2009 será um ano para preservar patrimônio ou perder pouco! Crescer, sem fazer loucuras, será para poucos”.

E com suas bochechas coradas e suadas, cortesia do nosso Natal tropical, o Bom Velhinho se despediu, partindo em disparada com suas renas mágicas.

Que Natal foi esse…e que ano esse 2009 promete ser.

E não se esqueçam das observações e recomendações do Papai Noel. Eu acredito nele e vou seguí-las.

Com meu abraço,

Fernando

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