Caros – a revista Exame traz uma corajosa e realista matéria (de capa) que esculhamba com a categoria acima citada de profissionais. E, lógico, a carapuça também serviu para este “palpiteiro econômico das horas vagas”.

Primeiramente, deixe-me explicar um pouco como funciona esse negócio de análise de bancos e similares:

  1. Analista macroeconômicos: todos os bancos tem os seus. Eles são funcionários dos bancos e tem como missão apoiar a decisão de investimento de seus clientes. Os bancos, na hora de decidir o que farão na mesa de operações ou com a carteira de crédito, NEM SEMPRE SEGUEM as opiniões dos seus próprios economistas.
  2. Analista de ações: idem, só que a análise é voltada para ações, setores da economia e fusões e aquisições. É a área mais controversa, pois, apesar de gozar de uma suposta independência, é fortemente influenciada pelos chefões das áreas de mercados de capitais, e até pelas próprias empresas analisadas.
  3. Economistas/gurus externos: aqui falo de gente como Nouriel Roubini, que em tese não tem maiores interesses em jogo (salvo seus próprios investimentos).

Tem de tudo neste mercado e, como sempre, o ideal é que o investidor e/ou interessados em geral coletem opiniões diversas, preferencialmente divergentes, para que possam decidir com mais embasamento.

O problema é encontrar as tais opiniões divergentes. Leram o meu post recente sobre Síndrome do Pensamento Único (link abaixo)? É difícil achar e acreditar nas poucas vozes dissonantes quando a manada já se estabeleceu e “decidiu qual é a direção certa”.

https://blogdocredito.wordpress.com/2008/11/29/sindrome-do-pensamento-unico/

Mas voltando às relações viciadas entre bancos/corretoras e seus analistas, dou-lhes dois exemplos cabais:

  1. Independência para valer: nos anos 90 eu trabalhei num banco estrangeiro que liderava o mercado de emissão de bônus internacionais de empresas, mas não conseguia vencer mandatos para lançar títulos do governo federal. Uma vez, numa reunião com o presidente do nosso Banco Central, este disse na nossa cara: “Como é que vocês dizem que vão lançar o nosso papel no mercado e vendê-lo, se o próprio economista-chefe de vocês vive avacalhando com o Brasil, dizendo que vamos quebrar? No dia que vocês conseguirem controlar este economista nós voltaremos a conversar”. Vexame total. É que, de fato, o nosso economista, que ficava sediado em New York, era cheio de opiniões contrárias ao Brasil e ‘adorava um microfone’, i.e .não ficava quieto nem quando estávamos negociando um mega negócio.
  2. Quando há corrupção: as crises americanas das “ponto-com” e da Enron/MCI (no início dos anos 90) foram alvos de investigações do governo dos EUA, que descobriram que analistas chegavam a trocar e-mails entre eles, fazendo gozação das suas próprias análises e recomendações irrealistas.

Lamentavelmente, o mercado de ações só ganha dinheiro pra valer quando o mercado sobe. E é assim que estes analistas mantem-se empregados e ganhando belos salários e bonus. Há, portanto, um interesse natural que o mercado suba, sempre. Eliminar a promiscuidade deste mercado, portanto, é muito difícil.

Querem exemplo melhor que o festival de emissões de ações no Brasil, nos últimos anos? Eu não daria crédito para mais da metade delas, que dizer comprar suas ações. Eram (ou melhor, são) empresas com todo tipo de vício: sem a menor noção de governança corporativa, imenso grau de informalidade, só cresceriam se tivessem crédito abundante, não tinham balanço para mostrar (faziam balanços “pro-forma” às pressas), montaram equipes “profissionais” também às pressas, etc. Enfim, uma receita perfeita para o desastre que agora vemos.

Não sou arquiteto de obra pronta: cansei de comentar isso com amigos e colegas de mercado – e até com jornalistas. Mas o Pensamento Único já havia decidido que os investidores queriam comprar de tudo, inclusive lixo, e os bancos de investimentos foram atrás de coisa boa e de muito lixo também.

E não estou teorizando, não! Eu já fui membro de Conselho de Administração de empresa-alvo de IPO e sei bem o que ouvi dos bancos de investimentos!!

Enfim, vale a pena a leitura da bela reportagem abaixo (se houver problema para conectar, digitem a palavra-chave HANÓI) .

http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0932/financas/oue-servem-analistas-405036.html

Destaque final para a conclusão do jornalista, impagável!

Abraços e boa semana! FB