Há um axioma tupiniquim que diz: “Inflação fere, câmbio mata”. Coisa antiga, mas verdadeira.

Os mais jovens não viveram os bons (?) tempos das crises internacionais dos anos 80-90 (México, Ásia, Rússia, Brasil e Argentina) que tiveram em comum uma brutal crise cambial. Eu os vivi intensamente, testemunhando os seguintes fatos recorrentes:

  1. Investidores liquidavam seus títulos (ações, fundos, renda fixa) no “país hospedeiro” e repatriavam seus investimentos.
  2. Como conseqüência, as cotações das moedas locais derretiam frente ao dólar.
  3. Visando conter a sangria de divisas, os governos aplicavam massivos aumentos de taxas de juros, o que gerava profundas recessões localizadas – nunca globais.
  4. Passado algum tempo, as reservas cambiais dos países sucumbiam e os países se rendiam à moratória e/ou a empréstimos do FMI.
  5. Os bancos internacionais, temerosos da deterioração interna e de uma possível restrição quanto ao pagamento dos juros e principais, simplesmente cortavam as linhas de crédito desses países.

E nesta crise? – espero que não haja dúvida que a “Grande Bolha”  foi benéfica para os países exportadores de commoditites como o Brasil. Houve transferência de riqueza e nosso país acumulou reservas em moeda forte que agora nos permitem enfrentar essa Crise de Crédito sem incorrer numa Crise Cambial.

Porém, cabe ressaltar que, quando as autoridades e muitos “analistas” dizem que o “Brasil está blindado”, “Nunca estivemos tão fortes”, “O Brasil sairá mais forte desta crise”, etc., na verdade dizem que há baixíssimo risco de termos uma (acima-citada) Crise Cambial. Mas nada disso significa que não teremos problemas cambiais. Problemas microeconômicos que afetam a vida de pessoas e empresas – e com alto impacto.

Por exemplo, como tínhamos – e ainda temos – um volume enorme de “capital cigano” (copyright Dr. Carlos Lessa) saindo do país, este pressiona a cotação do dólar. E também sofremos outras hemorragias, como:

  • Multinacionais estão pagando e remetendo todos os dividendos possíveis e imagináveis para suas matrizes no exterior, pois estas estão sofrendo com a falta de crédito lá fora e com a recessão.
  • Bancos não estão rolando empréstimos internacionais feitos para empresas e bancos brasileiros.

Se por um lado tem saído mais dólares do Brasil, por outro tem entrado menos também:

  • Multinacionais não estão investindo aqui…
  • Fundos de Private Equity e Hedge Funds idem…
  • Bancos não estão emprestando dinheiro novo…
  • Exportações estão mais comprimidas, pois há recessão lá fora (menos volume) e o preço das commodities despencou.

 Problema duplo, então. E o que isto significa?

  1. REAL DESVALORIZADO AO REDOR DE 50% NESTE ANO
  2. COTAÇÃO DO CÂMBIO VOLÁTIL
  3. INFLAÇÃO DE PRODUTOS QUE TENHAM ITENS IMPORTADOS

Novamente, apesar de não corrermos o risco de uma crise cambial, típica dos anos 80/90, já vivemos numa situação de maxi-desvalorização da nossa moeda. Isso pode ser ótimo para quem exporta, mas é péssimo para quem importa (e para quem consome bens importados).

Existe uma ‘cadeia de sofredores’ em situações como essa:

  1. Importadores de bebidas, automóveis, eletro-eletrônicos, etc.
  2. Indústria do turismo internacional (mas é muito boa para a nacional!)
  3. Endividados em dólar (seja para banco, seja para fornecedores!)
  4. Etc., etc., etc.

O seu crédito – o seu banco já vem analisando se a sua empresa está sujeita aos problemas acima citados. Seja lá qual for a sua exposição cambial, você deve se antecipar ao risco do banco cortar suas linhas por medo da sua empresa quebrar devido a risco cambial. Eu já vivi a seguinte situação:

  1. Nosso Real estava hiper-valorizado, dificultando nossas exportações.
  2. O setor calçadista de Novo Hamburgo (RS) exportava muito para os EUA e as empresas de lá sofriam com o câmbio desfavorável.
  3. O Comitê de Crédito do banco decidiu: “Congelem todas as linhas de crédito para calçadistas no Brasil todo”.
  4. Aí eu tive que gritar: “Alto lá! Os calçadistas de Jaú não exportam um centavo; os calçadistas de Birigui só exportam 15% da produção….”. Aí eu consegui salvar boa parte dos limites, senão o banco teria gerado um problemão para os clientes e para si próprio.

Em anexo, segue matéria do Leandro Modé, craque do Estadão, na edição de hoje.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081205/not_imp288676,0.php

Em tempo: link do blog da Miriam Leitão em que ela noticia que o câmbio cedeu um pouco hoje, graças a uma intervenção forte e “na incerta”.

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=banco_central_muda_estrategia_dolar_cai&cod_Post=145061&a=73

Então, meus amigos, atenção redobrada com o câmbio: ele pode por si só acabar com o seu negócio. Pior, crises como esta e má gestão de relacionamento bancário da sua parte, podem fazer com que os seus financiadores acabem com o crédito também (e na pior hora possível).

Abraços preocupados,

Fernando

PS: e não esperem dólar barato em 2009. Para mim, é de R$ 2,30 para cima!