Prezados amigos,

Este post é dedicado ao sofrido povo brasileiro que, por séculos, tanto sifu por conta da desigualdade social.

E aí, quando este mesmo povo sofrido começava a tirar o pé da lama, tendo acesso a bens de consumo típicos da classe média graças ao financiamento abundante (para os nossos padrões), vem essa crise maldita. E sifu de novo!

Mas como nosso Presidente é um defensor do povo e não quer vê-lo se ‘afogando na marolinha’, ele não se cansa de falar/declarar/discursar/urrar que não podemos ser pessimistas, que não podemos deixar de comprar, etc., “porque o governo não vai deixar que essa crise importada estrague o sonho dos brasileiros“.

A maior pérola da sua verve porém, aconteceu ontem, quando disse que ele, como líder nacional, não poderia fazer como o médico que dá uma má notícia para o paciente, “…e sifu“. Eu estou chocado. Tomem imediatamente o CRM deste médico grosseiro!

Como fiquei e permaneço sem palavras, apenas repetirei o que já escrevi antes, até porque tais palavras não ‘perderam a validade’:

  1. Um governante NÃO tem que vir à mídia pregar o pessimismo.
  2. Mas nenhum governante tem o DIREITO de vir à mídia dizer que o povão deve gastar (e, por tabela, se endividar).
  3. Será que Lula não tem capacidade de ser realista, alertando para o óbvio? O mundo não vai acabar, mas não podemos descuidar; não é preciso pânico, mas não é hora para ser arrojado, e por aí vai.

Alguns fatos irrefutáveis e irremediáveis:

  1. Nem o Presidente, nem a mídia e nem ninguém veio a público dizer que nosso crescimento recente e a conseqüente prosperidade vinham sendo frutos do crescimento mundial que, em grande medida, eram financiados pelo ‘cassino’ financeiro internacional.
  2. Agora que o ‘cassino’ quebrou e o mundo está devolvendo a prosperidade construída sem sustentabilidade, o governo quer jogar a culpa pra cima da gringolândia. E, de quebra, pra cima de quem mostra que a situação é preta!
  3. É sem uma ponta de orgulho que eu, desde o início deste blog, em maio, já escrevia que o povo brasileiro estava endividado demais, que não tinha educação financeira e que, mais cedo ou mais tarde, teríamos uma crise de crédito “made in Brazil”, etc. É só checar os posts mais antigos.
  4. Pois é esse mesmo brasileiro que o Presidente quer-porque-quer que continue comprando com o dinheiro que não tem. E sem qualquer garantia de que terá emprego amanhã!
  5. Mas e os pátios das montadoras, lotados, e o número imenso de obras civis em andamento (e que, irresponsavelmente continuam sendo lançadas)? Se o povão não comprá-los, as empresas quebrarão? Sim! E o emprego gerado por estes negócios? Desemprego à vista!
  6. Bem-vindos ao mundo maravilhoso do capitalismo. Mas com um adendo, digamos, mega-importante: a economia brasileira vinha crescendo a 6% a.a. no primeiro semestre, enquanto que o mundo lá fora já dava sinais exaustivamente claros que a crise era séria, séria demais! E nós? Marolinha pra cá, blindagem prá lá!
  7. E dá-lhe produção de automóveis, dá-lhe lançamento de imóveis, etc.
  8. Agora a economia brasileira deve estar crescendo ao redor de 1% a.a., i.e. vinha a 12o km/h, brecou violentamente e o motorista saiu pelo párabrisa.

Como consertar? Não tem conserto, pelas regras de mercado! Não haverá crédito disponível nem geração de renda suficiente para ‘patrocinar’ uma retomada de atividade que absorva os estoques. E tais empresas não terão como se sustentar durante uma longa recessão, com os estoques cheios e crédito restrito e caríssimo.

Mas o que fazer, deixar quebrar? Não! Governo ativista neles! A solução será fiscal e heterodoxa. O governo que abra mão de todos os impostos embutidos nos automóveis e imóveis, do IOF dos financiamentos para esses bens, etc. Esses produtos terão de ficar tão baratos a ponto de estimular sua compra. E que BB e CEF os financie em condições FORA DE MERCADO, i.e mais longo e muito barato.

O Brasil começou a enfrentar essa crise da forma certa. Só que não previu o tamanho do buraco! Agora o governo já está atrasado na tarefa suprema de aumentar a dosasem do remédio, como vem fazendo Bush, Paulson & Bernanke, nos EUA. Ou, como diria o Silvio Santos em um dos seus programas antigos: “Quem quer dinheiroooo???”.

E, olha, não adianta meter o pau nos bancos. Pode desopilar o fígado, mas não resolve nada. A sociedade brasileira faz isso há séculos e nunca adiantou nada! Banqueiro tem a pele grossa e não se intimida com gritaria pela (e da) mídia. No fim – e com sua razão -, eles sempre poderão dizer: “OK, querem quebrar o sistema financeiro brasileiro, como fizeram lá fora?”. Aí todo mundo afina!

Enfim, vocês sabem bem que a crise é séria e ela veio para ficar por uns 12 a 18 meses. Seguir o Presidente será sifu em dobro!

Abraços e bom final de semana, F.