Amigos,

Acho que já não há mais dúvida para ninguém que:

  1. Os governos estão decididos a resolver a crise na marra.
  2. Não há saída para a crise sem os governos.
  3. Os governos não estão conseguindo resolver nada.

A minha explicação para este fato é:

“Discurso de Mercado”  versus ” Execução Burocrática”

Os governos vêm hipotecando todo apoio possível ao sistema financeiro internacional, primeiro para salvar os bancos e depois para que estes voltem a emprestar. Também estão se virando para reduzir a carga fiscal dos contribuintes.

Naturalmente, os anúncios dos pacotes e planos são sempre feitos pelos ministros. Estes, porém, ainda que tenham formação técnico-acadêmica, ocupam uma função política. Em outras palavras, o sujeito “está” ministro…ele não “é” ministro.

Por outro lado, todas as medidas – quaisquer medidas – são normatizadas e executadas pelas máquinas burocráticas do Poder Executivo (e.g. do Ministério da Fazenda), dos bancos estatais (e.g. Analistas de Crédito do Banco do Brasil, Gerências de Produtos da CEF, etc.) e/ou das autarquias (e.g. Banco Central, SUSEP, CVM).

Sucede que todos os atores desse processo de “salvação nacional” são funcionários de carreira, fizeram concurso, etc. E todos eles são alvos de todo tipo de auditoria e controle, e.g. Procuradoria da União, Procuradoria da Fazenda, TCU, etc.

Então, meus caros, entre o anúncio de uma medida e a estruturação da mesma, há um longo caminho a percorrer. Em tempos de emergência como estes que vivemos, a coisa complica mais do que de hábito. Afinal, o burocrata não irá colocar o seu pescoço na guilhotina “só porque o Ministro disse o que disse na TV”.

Exemplo 1: o Banco Central anunciou na última 5af, dia 11, que abriria uma linha especial no valor de USD 12 bilhões, utilizando-se de recursos das reservas cambiais. Ainda não foi regulamentada. Em tese, os bancos repassarão esses recursos para aqueles clientes que tinham linhas de crédito de bancos internacionais, mas que não conseguem rolá-las.

Notem que uma medida dessa, tão simples de se explicar, tem um mundo de detalhes e ninguém do BC vai querer ser criticado, acusado, processado daqui a um ano por ter dado funding barato demais, ou com garantia de menos, ou em condições diferentes de um banco para o outro, etc., etc., etc. A lista de riscos é longa! E por isso demora tanto para ser viabilizada.

Exemplo 2: e todas aquelas mega-linhas de crédito que BB, BNDES, CEF, etc., que têm sido “comunicadas”, que deveriam ser desembolsados para todo tipo de cliente?…vocês acham que os Comitês de Crédito desses bancos federais saem aprovando empréstimos assim, na raça, só porque viram o Presidente Lula esbravejar no palanque? Pois sim! E se o empréstimo não for pago? Quem irá cuidar da carreira do Analista que deu “luz verde”? O Lula? Não…

Ou ainda: alguém acredita que o Gerente de Contas do BB, lá da agência de Praia Grande, vai  dar o crédito baratinho só porque o Ministro Mantega reclama do spread bancário? Pois sim! E se o Gerente não cumprir a meta dele e não levar a sua Remuneração Variável? Quem vai ajudá-lo a pagar a prestação do carro? O Ministro? Não…

Existe, portanto, uma assimetria entre os “pros” e “cons” que regem a carreira dos funcionários públicos e de estatais. São eles que fazem a ‘máquina andar’, mas são eles que têm pouco a ganhar e muito a perder.

Muitas vezes, os políticos prometem coisas – seja no palanque ou na entrevista coletiva -, que apenas um barnabé, lá do 3o. sub-solo, sabe que não é factível. E quando descobrem o problema, a mega-medida salvadora é enterrada sem cerimônia.

Em outras palavras, eu quero dizer que muitos dos bilhões de ajuda governamental que são diariamente anunciados pela mídia, não chegam na ponta do crédito ou no bolso do consumidor. Está explicado.

Portanto, e concluindo, não esperemos milagres nem celeridade nesse calvário que será 2009.

Meu abraço,

Fernando

PS: a palavra barnabé era utilizada antigamente em Santos, minha terra natal, como sinônimo de funcionário público. Eu tenho orgulho de ser filho de barnabés que honraram o serviço público.