Analisar a evolução das decisões dos bancos centrais brasileiro e americano é uma graça (ou será desgraça?)!

Os dois podem ser acusados de tudo, menos de serem inconsistentes em relação às suas visões e interpretações sobre a situação econômica e os ‘remédios’ a serem aplicados.

Tanto o Brasil como os EUA sofrem do mesmo mal: falta crédito e falta confiança nos agentes econômicos. Naturalmente, as causas da doença são diferentes. Nos EUA, eles criaram o vírus em laboratório e depois, por uma falha de ‘vedação’, o vírus se espalhou causando uma contaminação em massa. Lá, o estado do paciente é gravissímo, pois a doença o destrói por dentro há mais de um ano.

Já o Brasil sofreu contágio por contato. Não que esse contato fosse tão próximo assim, mas como a transmissibilidade é alta, também pegamos a doença, que se apresenta em seu estágio inicial, mas já demonstra ser muito séria.

Estranhamente, porém, cada Banco Central resolveu trabalhar o clássico ‘antídoto’ anti-crise, as taxas de juros, de forma inversa:

1. Nos EUA, o FED entende que precisa zerar os juros básicos. E o fez. A decisão de ontem criou uma banda que varia entre zero e 0,25% a.a. – em outras palavras, é zero mesmo. O pior é que o efeito será (como vem sendo) nulo. A economia não se aquecerá por causa disso. Afinal, os juros já eram baixos demais. Vai dar, sim, um alívio mínimo aos endividados, que são muitos, mas isso se os bancos repassarem essa queda para os seus clientes. Duvido.

2. No Brasil, o BC acredita que o fantasma da inflação ainda nos ronda e a SELIC não sai dos 13,75%. E o pior é que aqui o efeito será nulo também. Não teremos mais ou menos inflação porque os juros da SELIC estão nesse nível ou em 10% a.a. Produtos importados subirão de preço com ou sem alta dos juros, pois nossa moeda se desvalorizou 50% este ano. Para compensar, todas as commodities despencaram de preço. Ainda assim, os juros que nós e nossas empresas pagam na ponta equivalem a várias SELICs, i.e. não seria 1% ou 2% que fariam a diferença na decisão de compra de ninguém.

Alguns “super analistas” já estão dizendo que os juros cairão no Brasil em 2009. Genial, não?! Mas o BC irá esperar sinais claros e cristalinos de que não há inflação ‘escondida atrás do armário’ e que a economia está de fato nocauteada. De qualquer forma, os spreads bancários não irão cair, pelo contrário, irão subir, pois a SELIC cairá e os juros na ponta ficarão nesse patamar, i.e. maiores lucros para o sistema financeiro. Os bancos dirão que é para compensar o aumento da inadimplência.

Nos EUA, até o não-economista, President Elected Barack Obama diz que o ‘armamento’ do FED está acabando. Acabou de fato. O negócio agora é injetar dinheiro na veia do sistema, seja através de rebates fiscais, compras de ativos (podres ou não), perdão (ou rebate) de dívida dos mutuários do sistema hipotecário, etc. Aqui também, mas assim como nos EUA (e na Europa e na Ásia), a recuperação do paciente será lenta e longa (ver último post).

Com meu abraço,

Fernando