Caros,

Muito antes dessa crise começar, este humilde escriba já discutia, ou melhor, falava sozinho, sobre a relação simbiótica entre a China e o EUA e seus efeitos sobre o resto do mundo. À época, quando apenas N. Roubini acreditava que uma crise econômica estava em formação, minha única e imensa preocupação era com a sustentabilidade desta “parceria”. Por que:

  1. A China crescia e inflacionava a economia mundial aceleradamente.
  2. Por conta desta “inflação importada” o nosso BC subiria os juros, desacelerando a economia, gerando uma crise de crédito local.
  3. A devastação ambiental – no mundo – crescia na mesma velocidade dos PIBs.

Pois foi para minha grande surpresa, que, hoje, ao ler o blog de Brad Setser (ver ao lado), eu descobri que os economistas Niall Ferguson e Moritz Schularick haviam cunhado o termo Chimérica, em função da simbiose entre China e EUA.

Chimérica = China + América!!

Está provado e comprovado que o modelo “chimérico” é o responsável “por tudo isso que está aí”. Resumindo:

  1. A China mantém a sua moeda, o renminbi (RMB), artificialmente desvalorizado e indexado ao dólar.
  2. Desta forma, os chineses puderam inundar os EUA (e o resto do mundo) com seus produtos.
  3. Ao mesmo tempo em que a China acumulava massivas reservas em dólar, os EUA produziam déficits comerciais.
  4. A conta fechava na medida que o People’s Bank of China (o BC deles) investia substancial parte das suas titânicas reservas em U.S. Treasuries, emitidos pelo BC americano, o FED.
  5. Como conseqüência, a abundante oferta de capital (chinês) puxou as taxas de juros nos EUA para um nível baixíssimo.
  6. E juros tão baixos uniram a “fome” dos bancos “com a vontade de comer” dos investidores, pois ambos tinham baixa rentabilidade.
  7. A saída encontrada, sustentada pela percepção geral de que o mundo entrara num círculo de crescimento virtuoso, foi estimular a construção civil e o devedor hipotecário, incluindo os maus devedores.

O resto é história…

Esse processo foi retro-alimentado por uma onda de investimentos de empresas americanas (e européias…e até brasileiras) na China, todas ávidas por aproveitarem mão-de-obra e moeda de baixo valor. Isso gerou a maior e mais rápida transferência de tecnologia e renda já experimentada na história da humanidade.

Só que o resultado foi um repentino aumento na alavancagem dos EUA, aqui incluindo o Estado, empresas e famílias, de 250% do PIB para 350%. Um assombro!

Chimericans – o conceito é divertido, além de instrutivo. Ele define que a Chimérica é dividida em West Chimerica (Chimérica do Oeste) e East Chimerica (Chimérica do Leste).

Os Chimericans do Oeste são ricos e hedonistas, enquanto que seus compatriotas do Leste são pobres (com renda per capita de apenas 16% daqueles do Oeste). Os do Oeste são especialistas em administração, finanças e marketing, enquanto que os do Leste dominam engenharia e manufatura.

Sucede que os Chiméricos do Oeste não poupam e gastam mais do que têm de renda, sendo forçados a complementá-la a partir da captação de empréstimos garantidos pela 2ª hipoteca de suas belas casas. Já os parcimoniosos Chiméricos do Leste poupam 1/3 da sua renda. O engraçado (e funesto) é que essa poupança vai direto para a Chimérica do Oeste para financiar os hábitos consumistas dos seus cidadãos.

Esse processo foi, aos poucos mas consistentemente, transferindo empregos do Oeste para o Leste, assim como transferência de riqueza.

Concluindo, os autores advogam que Chimérica, ou China e EUA, formaram uma autêntica União Econômica, ainda que sem uma União Monetária – similar ao arranjo entre Reino Unido e a Zona do Euro.

Genial, não?!

O texto abaixo traz a saga de Chimerica no original.

http://www.jfki.fu-berlin.de/faculty/economics/persons/schularick/chimerica.pdf

Abaixo segue o texto de Brad Setser, onde ele advoga que nos últimos dois anos a Europa também entrou no “esquema” e teria criado a sua própria Chieuropa.

http://blogs.cfr.org/setser/2008/12/19/chieuropa/#more-4211

Abraços, F.