Uma crônica sobre o Bom Velhinho e os dias vindouros

E mais um Natal chegou e se foi. Família reunida, crianças ávidas por mais um monte de presentes. Nada a se reclamar. Afinal, não falta amor, saúde e harmonia na família. O lado material também está devidamente equacionado.

Mas este ano, ou melhor, neste Natal, eu fiquei querendo um presente que ninguém da família, ou nenhum dos amigos, pôde me dar: uma visão precisa do que nos espera em 2009. Resolvi, então, pedir para que Papai Noel esclarecesse minha tão solene dúvida. Como tal presente não viria num pacote, postei-me ao lado da lareira, de tocaia, e abordei o Bom Velhinho de forma decidida, assim que ele estacionou seu trenó e suas belas renas.  Naturalmente, ele foi pego de surpresa, mas não me negou o tão desejado e esclarecedor presente.

Primeiramente ele me disse que o Brasil não é diferente de sua amada terra natal, a Lapônia, que fica nos confins da distante Finlândia. Os duendes que lá vivem só falam da tal crise – disse-me que até as renas andam indóceis. Os jornais locais, como a Gazeta de Noel e o Folha da Lapônia se parecem com os daqui: informam a população sobre temas locais – mas pouco explicam o que de sério acontece nos mercados americano e europeu. Reclamou que até parece que a Lapônia está ‘blindada’ contra a crise, pois trazem muito pouca análise e poucos discutem as perspectivas para 2009. Contou-me também, com indisfarçável descontentamento,  que existem aqueles que tentam tirar proveito da crise, exagerando sua magnitude, e os duendes metidos a gurus das causas perdidas, que só sabem dizer que “passaremos por esta crise sem maiores problemas” e “que é preciso ser otimista”.

Curioso, perguntei ao Papai Noel como ele tem se comunicado com seu povo. Afinal, ele é o seu grande líder. Sábio que é, Noel (sim, já estávamos ficando íntimos) disse que se limita a dizer que “a crise é complexa e demanda cautela, pânico jamais”. Brilhante. Provoquei-o ainda mais, sequioso por previsões. Ele me concedeu o seguinte:

  1. “Na Lapônia não confiamos nos políticos. Eles falam o que lhes interessa. Não iremos produzir mais brinquedos só porque nosso Primeiro Ministro acha que a economia crescerá 4%”. Não contente, emendou: “E não recomendamos que nossa população de pobres duendes trabalhadores saiam consumindo e se endividando, só porque queremos a fábrica cheia”.
  2. “A coisa lá está preta, apesar da neve tão branquinha – piadista este Papai Noel -, pois o Banco da Lapônia cortou nossas linhas de crédito em 25% por causa da falta de liquidez internacional, a tal crise americana e tudo o mais. Depois cortaram outros 25% porque acham que nossa fábrica de brinquedos sofrerá com a falta de linhas de crédito”. Conformado, vaticinou: “E será assim durante 2009, com alguma recuperação em 2010”.

Sentindo-me ansioso por mais informações, ele abriu o coração e prometeu os seguintes presentes para nós Brasileiros:

  1. “Olhando coletivamente, todos empobreceremos. No entanto, e como sempre, há os que ganharão com esta crise. Portanto, ninguém tem que ficar olhando para o chão, reclamando da vida, declarando-se perdedor antes mesmo do jogo começar.” Sábias palavras!
  2. “Mas – afirmou categoricamente – perderá irremediavelmente todos aqueles que ignorarem a seriedade desta crise. Ela trará recessão e dimimuição de mercado e emprego, assim como diminuição e encarecimento das linhas de crédito. Portanto, recomendou, é fundamental que as famílias e empresas gerenciem suas compras, capital de giro e endividamento como nunca antes na história dessas terras geladas”. Ele se referia à Lapônia, naturalmente, mas a mensagem é a mesmíssima para o Brasil.
  3. Incomodado, eu intervi: Mas será impossível crescer, expandir, Papai Noel??? Para minha surpresa, ele me disse: “Ora, ora, é lógico que oportunidades surgirão. As famílias encontrarão pechinchas por conta do aperto financeiro generalizado. E desde que não façam loucuras, poderão adquirir um imóvel (pronto ou quase pronto) ou um automóvel por preços muito razoáveis. Mas é fundamental que antes analisem como andam suas contas pessoais, sua poupança e, principalmente, sua empregabilidade!!”.
  4. Aproveitando a deixa, abordei a questão do emprego. “Emprego, disse ele, entre risonho e apreensivo, isto é uma questão difícil até para mim! Lá na Lapônia estamos com poucas encomendas…vai saber se eu mesmo não entrarei em férias coletivas em 2009…”. É, para bom entendedor, meia palavra basta…
  5. Ele também falou que boas oportunidades surgirão para as empresas, pois “…você sabe, meu filho, muitas empresas terão dificuldades sérias em 2009 e as mais sólidas ganharão mercado de outras mais fragilizadas. Prevejo até um movimento de fusões e aquisições!! Mas é fundamental que a equação financeira esteja bem ajustada antes de qualquer movimento desta natureza!”, arrematou meu mais novo guru de negócios.
  6. E quanto às aplicações financeiras, Papai Noel, perguntei já em posição fetal? “Depende! Se você pretende aplicar em ações, elas estão muito desvalorizadas mesmo, mas ainda poderão perder mais valor se a asfixia financeira não se reverter. Note que nossa Fábrica de Brinquedos está valendo apenas 25% do que valia no IPO que fizemos lá na Bolsa da Lapônia, mas se os investidores continuarem sem crédito para suas outras necessidades, é provável que vendam ainda mais do nosso papel, mesmo sabendo que estão fazendo um mau negócio. Ah, continuou, e nem sonhe em querer ganhar uns cacarecos a mais fazendo negócios exóticos através de instituições menos sólidas! O risco será altíssimo, porque a volatilidade também o será”.
  7. Já atrasado para a próxima chaminé, Papai Noel concluiu: “Meu filho, assim como o seu carro tem um pedal de acelerador que é para você ganhar velocidade nas grandes retas, ele também tem um pedal de breque, que deve ser usado para evitar acidentes. E 2009 será um ano para preservar patrimônio ou perder pouco! Crescer, sem fazer loucuras, será para poucos”.

E com suas bochechas coradas e suadas, cortesia do nosso Natal tropical, o Bom Velhinho se despediu, partindo em disparada com suas renas mágicas.

Que Natal foi esse…e que ano esse 2009 promete ser.

E não se esqueçam das observações e recomendações do Papai Noel. Eu acredito nele e vou seguí-las.

Com meu abraço,

Fernando