janeiro 2009


Prezados,

Fui surpreendido hoje cedo, ao saber pelo jornal, que Alcides Amaral, lendário ex-presidente do Citibank do Brasil, havia falecido ontem. Lamento muito. Não soube da causa e quem souber pode mandar uma nota.

Há tempos eu escrevi um post sobre ele e sobre um texto de sua autoria. Sempre foi um dos mais visitados deste blog. Talvez fosse pelo fato do Dr. Alcides haver abordado a crise atual sob a ótica humana, ou melhor, a partir da falta de humanismo daqueles que dirigem as instituições financeiras em além-mar.

A segunda surpresa do dia foi agora, pois ao abrir o blog eu detectei recordes de visitas a este meu antigo post. Legal saber que tanta gente procurou informações sobre ele  – o fato de terem chegado aqui é o de menos, mas espero que tenham sido tocados pela mensagem de Alcides Amaral, um banqueiro das antigas…

Abraços sentidos,

Fernando Blanco

Caros – o Paco Debonnaire é um amigo do blog e está muito bem posicionado para comentar o momento que vivemos: ele é analista de crédito na França. O país está numa recessão muito incômoda, mas seus bancos não demonstraram fraqueza. Por outro lado, a gritaria empresarial e política em função da falta de crédito bancário é alta e o Presidente Sarkozy vem sendo bastante ativo nesse campo.

O texto abaixo é um comentário dele, que merece virar post.

Agradeço muito a contribuição do Paco e sugiro a leitura.

Abraços, FB

_______________________________________________

Olá Fernando !

O tema do seu blog nunca foi tão atual: Crédito.
Porque foi a crise financeira que levou (ou seja precipitou) a crise econômica; todos os governos agora tem a obsessão de começar a apagar o fogo pelos bancos…(após aprenderem o drama que foi deixar quebrar o 4° maior banco de investimento do mundo…). E todo mundo concorda que sem uma oferta maior de crédito, a economia real não poderá voltar a crescer.

Porque o Brasil está cada vez mais próximo do modelo econômico conhecido na Europa. Vou tentar lhe dar um quadro da situação do crédito na França de hoje :

A situação do crédito na França

Como você sabe, Fernando, o presidente Sarkozy criou uma função chamada “mediador nacional do crédito”; ele é encarregado (junto com o Banco Central) de facilitar a obtenção do crédito para as empresas que declararem ser prejudicadas pela falta de crédito. Funciona mais ou menos assim:

  • Bancos e seguradoras tem de informar a decisão tomada (sim ou não) em 3 dias.
  • Até o momento, 65% dos casos receberam um Sim e 35% o Não.
  • Aparentemente este processo funciona, só que na maioria dos casos as empresas que acionaram o mediador federal não precisavam tê-lo feito, mas precisavam apenas ter se comunicado com os bancos.
  • Para assegurar a efetividade das medidas, todos os meses os empresários se reúnem com o prefeito da sua cidade e a administração fiscal. Eis a posição de cada um durante esse bate-papo:

I. O DISCURSO OFICIAL:

Os bancos dizem que seus objetivos comerciais para 2009 aumentaram, ou seja, estes se preparam para oferecer mais crédito do que nunca, ainda que:

  1.  As empresas não tenham apetite por investimentos.
  2.  O custo de crédito seja mais alto.

A administração fiscal (o “Leão” francês) autorizou empresas em dificuldade de caixa a estender o pagamento de impostos por alguns meses.

Seguradoras de crédito:
Elas também oferecem crédito (!), porque:

  1. O seguro permite que o cliente do nosso cliente pague suas compra a prazo (pagar em 30 dias é bem melhor para o caixa do que pagar à vista, não é?!).
  2. E o crédito entre empresas representa 25% do crédito empresarial!

O compromisso geral delas é manter estável o nível GLOBAL de crédito (ou seja, manter estável o nível de cobertura).
Ademais, o governo disponibilizou uma garantia pública para completar coberturas recém cortadas pelas seguradoras, chamado “CAP/ Cobertura pública”, não sei se já ouviram falar.  Agora, cada uma promete medidas próprias :

  • A COFACE promete transparência, disponibilizando o rating atribuído para as empresas que quiserem saber.
  • A EULER HERMES diz que usa critérios próprios para cada empresa, sem focalizar-se só no setor dela (por exemplo, uma companhia sólida atuando no mercado automobilístico não vai ser prejudicada só porque o mercado está uma dureza).
  • A ATRADIUS ainda não foi muito ouvida nesta crise , mas diz que, em função da alta taxa de inadimplência, terá de cortar muitas coberturas…

II. E A REALIDADE:


Os bancos emprestam menos e exigem garantias maiores (imóveis próprios da empresa, ou do empresário, por exemplo), geralmente dividindo o risco com outros bancos. Estão sendo mais cautelosos nas análises, deixando de acreditar em “bobeiras” como projeções de crescimento das vendas de 15% ao ano…chega de “business plan” prevendo crescimento de 15% ao ano!

Seguradoras mantêm o nível de cobertura global, sim, mais transferindo-a dos riscos altos (e.g. PME’s com dificuldade de honrar compromissos) para riscos baixos (grandes empresas, do tipo VALE ou PETROBRAS aí no Brasil ) [NDR: é o flight-to-quality à francesa]

Enfim, como pode-se  constatar, a situação do crédito na Europa, apesar das ações políticas (e midiáticaa), não está melhorando para todos… infelizmente…

Um abraço !
Paco

Extremos – de um lado, a pequena Davos, na Suiça, e seus USD 42 mil de renda per capita; do outro, a nossa Belém com meros R$ 15 mil. Lá, uma temperatura de – 4 graus celsius, enquanto que aqui o calor úmido de 36 graus aquece os corações latinos.

A farra suíça chama-se World Economic Forum (WEF) e a tupiniquim Fórum Social Mundial (FSM), criado no início da década para contrapor a visão neo-liberal pregada em Davos.

Pior deve ser o contraste de estados de espírito: Davos recebe os mais importantes líderes do capitalismo financeiro e industrial mundial, assim como os Chefes de Estado que sempre deram o ritmo da economia global. Líderes nocauteados – para sermos mais precisos – procuram respostas para perguntas como “E agora, para onde seguir?”, “Como retomar a confiança e o crescimento?” – pelo menos a pergunta “Onde foi que eu errei?”  já foi devidamente respondida.

Em Belém, quem nunca teve nada e estava começando a se divertir com um mínimo de progresso, procura entender como esta crise – “que não é nossa!”, dizem  – irá nos afetar. Sim, estou certo que a maioria dos políticos latino-americanos ainda não entendeu que, assim como fomos ‘passageiros’ daquela viagem rumo ao desenvolvimento nos últimos anos, também o seremos nesta viagem de derrocada global.

Agendas – se em Davos o foco é a crise, parece-me que em Belém o foco será ecologia e desenvolvimento sustentável. O Renato, do ótimo O Fim da História, está cobrindo o FSM. Acompanhem aqui. E eu farei o possível para postar e comentar o WEF diariamente (ver um exemplo abaixo).

Celebridades – pelo que sei, o WEF deste ano não contará com tantos ‘pesos-pesados’ como de costume, ainda que nomes como o mega-investidor/bilionário/filósofo George Soros, o Premier da Turquia e o Presidente de Israel, entre outros, já tenham se manifestado por lá (quase que aos tapas). Gordon Brown também falará nos próximos dias e terá dificuldades para explicar como consertará o sistema financeiro quebrado do seu Reino Unido. O nosso Henrique Meirelles já está lá. Celebridades em busca de manchetes também estão em baixa em Davos este ano – no passado, ‘bateram cartão’  Bono Vox, do U2, e até a atriz Sharon Stone.

No entanto, pelo que observei, o que não falta em Davos é gente querendo falar mal dos bancos e do mercado financeiro internacional. Uma dessas estrelas é Nouriel Roubini que está num vídeo da Bloomberg que de tão acessado não dava para assistir (amanhã eu o publico). Mas o brilhante Nicolas Taleb, autor do best-seller The Black Swan, os esculhamba com requintes de crueldade neste vídeo, também da Bloomberg.

Entre outras pérolas, ele diz que “Como eu sou trader de opções, posso dizer: se eu não entendo direito como as opções funcionam, os reguladores do FED entendem muito menos” e “deveriam proibir quaisquer derivativos mais complexos do que as opções tradicionais”. E outra: “Nós ficamos reféns dos bancos”. Ou que tal: “Os bancos americanos deveriam ser nacionalizados e o governo deveria dizer como eles deveriam operar”. Para terminar: “Chega de privatizar lucros e socializar prejuízos”.

As palavras de Taleb tem mais conexão com a ideologia pregada em Belém. Seriam seguramente mais aplaudidas em Belém, mas causam mais impacto e são mais úteis para ‘catequizar’ a fauna que frequenta Davos.

Sangue latino – há pouco chegou a Belém o Presidente Lula, o mais pragmático dos presidentes latino-americanos. Ele veio juntar-se a Chávez e seus pares da Bolívia, Equador e Paraguai. Uma tristeza. A Ministra Dilma fez um discurso inflamado em que disse: “Deve haver um outro modelo de desenvolvimento, que não sacrifique os mais humildes…”.

Sim, Ministra, existe. É só podar o capitalismo financeiro de forma, digamos, radical – como Nicolas Taleb mais ou menos nos propõe. Isto acabaria com a volatilidade, desaceleraria a movimentação de capitais, eliminaria os derivativos mais complexos, etc. Mas também reduziria a aceleração do crescimento e a taxa de eliminação da pobreza. Este seria o preço a se pagar para vivermos num mundo mais previsível e de menor risco. Que tal a economia global crescendo entre 2% (EUA, Europa e Japão) e 4% a.a. (BRIC’s) num grande ano? Ou entre 0% e 2% num ano mais fraco? É uma opção a ser discutida.

É isso, vamos monitorar como os debates prosseguem nos dois fóruns.

Em tempo, as notícias da economia real americana são realmente trágicas. Nada de novo, porém. Não se esqueçam do que escrevi ontem: vivemos em tempos de Economia de Depressão (by Paul Krugman).

Saludos, Fernando

Hoje? Nenhuma, pois nenhum dos dois quer te emprestar dinheiro.

Já em termos de retomada econômica, em nível nacional/macro, a coisa será diferente. As economias dos EUA e do UK terão problemas para retomar o crescimento, pois seus bancos estarão fragilizados na hora da relargada. Já o Brasil estará bem posicionado, pois nossos bancos estarão sólidos para apoiar o crescimento.

Abraços, Fernando

Segundo o Banco Central, sim senhor! E vocês do Governo, da FIESP, da CUT, da imprensa, do mundo acadêmico, da Gaviões da Fiel, da CNBB, etc.,  parem de reclamar dos bancos! Afinal, o confiável relatório mensal do BC confirma que o CRÉDITO AUMENTOU de novo (i.e. dezembro x novembro e novembro x outubro).

Mês passado, mais precisamente no dia 23 de dezembro, eu fui entrevistado pelo Sardenberg, na CBN, e disse a ele que QUANTITATIVAMENTE o crédito vem aumentando sim; e que isso seria ótimo, não fosse o fato de que QUALITATIVAMENTE esse crescimento é enganoso e ruim.

Detalhes do relatório recém-emitido:

  • O volume de crédito na economia atingiu R$ 1,2 trilhão, ou 41% do PIB – recorde histórico (de novo).
  • O volume de crédito cresceu 31% em 2008 – outro recorde.
  • Em dezembro, o crédito com recursos livres (*) cresceu apenas 0,9% (menos que a SELIC mensal).
  • Em dezembro, o crédito do BNDES cresceu imensos 4,9%, o crédito direcionado cresceu 3,4% e o setor público captou 11% a mais do que em novembro.
  • Os juros médios cobrados são: PF 43,20%  (= 3 SELICs) e PJ 30,7% (= 2,5 SELICs).
  • O crédito para a indústria cresceu + 2%. “Puxa, assim o Paulo Skaf, da FIESP, não tem do que reclamar!” – calma, muita calma! Ele pode continuar reclamando, sim!
  • Mas o varejo “cresceu” perigosamente apenas 0,2%.

(*) Dinheiro que os bancos emprestam sem qualquer restrição legal ou direcionamento.

Análise do relatório e do cenário

  1. Espelho retrovisor: dizer que o crédito cresceu pujantes 30% em 2008 a essa altura do campeonato, só serve para estudo acadêmico. A realidade virou de tal forma, que este número pujante ficou anêmico.
  2. O crédito que IMPORTA é aquele que eu e você tomamos para financiar nossas compras e que a pequena e média empresas tomam para o seu capital de giro e para sua expansão. ESTE CRÉDITO NÃO ESTÁ AUMENTANDO! E esta é a situação que FIESP et caterva gritam diariamente – com razão, ainda que usando argumentos pouco eficazes.
  3. “Mas como assim? O relatório do BC diz que o crédito aumentou, de novo, em dezembro!” – acontece que quando a Petrobras e outras mega-empresas deixam de tomar dinheiro lá fora (porque o mercado internacional secou) e tomam dinheiro do BB, da CEF e de outros bancos, isso aumenta a base de crédito brutalmente! Só a Petrobras, pelo que foi informado na imprensa, captou mais de B$ 3 bilhões só da CEF!
  4. Enquanto você lê este post, centenas de empresas e cidadãos estão renegociando dívidas bancárias que venceram ou que irão vencer em breve – e cujos devedores não conseguiram ou não conseguirão pagar. Então, ao embutirem parte dos juros vencidos ou a vencer na nova dívida (renegociada), a base de crédito ficará maior artificalmente (principal antigo e não pago + juros não pagos que serão embutidos na nova dívida).
  5. Resumidamente, enquanto as linhas de crédito para os “pequeninos” cai, o estoque de crédito da economia sobe.
  6. Os bancos privados, comprovadamente, colocaram o pé no breque. Os bancos públicos e o setor público é que estão tentando reverter o quadro negro.
  7. E o comércio está sofrendo triplamente: estão estocados porque venderam menos que esperavam; a situação econômica só piora; estão sem crédito. O crédito que haviam tomado e que era autoliquidável (e.g. desconto de recebíveis, como o de cartão de crédito VISA) está sendo debitado aos poucos, mas dinheiro novo para financiar o estoque…hum…este deve estar difícil e caríssimo.
  8. Os juros na ponta são reportados como mais ou menos estáveis, na média, mas este dado não é confiável na minha opinião. Simplesmente não bate com o que ouço dos bancos e das grandes empresas. Não que haja alguma molecagem da parte do BC, mas deve ter algum bug na forma que os bancos informam e/ou o BC calcula os juros.

LAMENTAVELMENTE, o BC não detalha certos números e não faz análises mais pormenorizadas. Aí, fica parecendo que o crédito está normal. E a FIESP, a CUT e a Mancha Verde ficam bringando a briga errada…

Conclusão

Este blog é simpático à sua causa, você que está sofrendo com a questão do crédito. Os bancos – todos, daqui e do mundo inteiro – estão sem vontade de emprestar; estão cautelosos porque temem não serem repagos no futuro. Por que? Porque sabem que estamos vivendo numa ECONOMIA DE DEPRESSÃO (definição usada por Paul Krugman, atual Prêmio Nobel de Economia – seu blog está no Blogroll ao lado).

Aqui no Blog do Crédito você encontrará vários posts com dicas sobre como abordar novos empréstimos, negociação com bancos, etc. Perguntem, em caso de dúvida!

Abraços, F.

 
 
 

O que dizer de uma semana que começa como esta:

  • A FIESP fala em 130 mil demissões na indústria paulista em 2008 – e na Globonews, o diretor Paulo Francini me pareceu realmente preocupado. O baque na indústria foi tão forte que o setor acabou o ano com menos empregados do que que começou – e olha que o ano foi muito forte!
  • O Serasa nos mostra números péssimos: a inadimplência de novembro ’08 vs ’07 aumentou a bagatela de 28%!! E o valor médio das dívidas bancárias não pagas também aumentou: 7%.

Naturalmente, esses números só irão piorar neste primeiro trimestre. As empresas viraram o ano estocadas, sem necessidade de produzir, até porque a demanda também caiu. E o caixa está apertado para todo mundo (e o crédito escasso). Isso vai gerar mais desemprego e este irá alimentar a inadimplência.

Este círculo vicioso só terá fim quando:

  • Ações de estímulo à produção e ao consumo fizerem efeito – e isto é com o governo
  • O crédito voltar a irrigar a economia real (empresas e famílias) – e isto é com o governo também, com os bancos estatais e finalmente com os privados (nesta ordem)

Coface – sabiam que a nossa seguradora registrou 122 avisos de sinistros em dezembro, contra uma média de 60 ao longo do ano? É outro indicador de quão ruim está o nível de atrasos nos pagamentos e a quebradeira na economia real.

É o fim do mundo? Por mais negativo que eu venha sendo – e acertando, infelizmente -, acho que estamos vendo o pico do processo de desemprego. As empresas precisam parar e ajustar as suas estruturas operacionais para o Brasil de…2006, talvez? Estimo que este processo vá até março. Isso gera comoção e uma grande desorganização na economia. Porém, em breve tudo se estabilizará, ainda que num patamar de produção e geração de riquezas mais baixos do que nos acostumamos nos últimos anos.

Calote – de qualquer forma, saiba que eu, você e todo mundo conviveremos com calotes inimagináveis. Aquela história do “eu conheço o meu cliente”...vai ter quebra grande, em vários setores. Quais? Não sei. Falo por experiência e lógica. Por que? Porque quero influenciá-los para que sejam cautelosos com crédito, só por isso!

Adiantamentos para fornecedores, construtoras, fabricantes de máquinas e similares são decisões de alto risco neste momento.

E lá fora – 70 mil anúncios de demissões. Até o meu ex-querido empregador ING, da Holanda, anunciou 7 mil cortes. Lá fora está pior que aqui, sem dúvida.

Chega por hoje…muito negativismo!

Abraços, F.

Caros,

O nosso BC não cansa de surpreender o país! Lá estava eu em Paris, cercado de gente importante a elogiar o Brasil, dizendo que éramos os mais preparados para enfrentar a crise… e olhe que a gringolândia se baseava no fato de que aqui “nem era necessário baixar os juros, como no resto do mundo”.

E de repente, não mais que de repente, vem o choque: COPOM derruba os juros em 1%. Assim, à vista, sem prestações! Até me engasguei com o croissant!!

Lembram, quando todos clamavam por uma redução da SELIC por conta da crise, o BC a aumentou; agora que todos achavam que a taxa cairia o,5% eles socaram 1%! Acho que existe uma banda de pagode chamada Só pra Contrariar, não é?! Taí, pode ser o apelido do COPOM… 🙂

O lance agora é apreciar como isso irá atingir os juros na ponta (aquele que pagamos). Os bancos – a maioria, pelo menos – já anunciou mini-reduções na taxa mensal (que compõe 1% de redução na taxa anual). Esta redução se dá na “tabela cheia” que o gerente enxerga na tela dele. A taxa que nós pagamos pode e deve ser mais baixa do que esta. Mas às vezes é até mais alta… se você marcar bobeira, prepare-se para pagar o que o gerente quiser! Atenção: ele não faz isso por ser sádico ou malvado, mas porque tem que atingir metas de resultado e isso é o problema dele; o seu é brigar por juros menores.

A história mostra que os juros (i.e. os spreads) cairão mais lentamente do que a SELIC. A tendência é que este processo seja ainda mais lento agora, por conta da crise de confiança que toma conta do nosso e de todos os sistemas financeiros do mundo.

O Valor Econômico deste final de semana, em matéria de Fernando Travaglini, traz a manchete “Incerteza mantém spread elevado”. Vamor reler e dar mais precisão a esta manchete: “Incerteza quanto à capacidade de repagamento das empresas aumenta o conservadorismo dos comitês de crédito e, portanto, reduz a oferta de crédito, sendo que este fato reduz fortemente o poder de barganha dos tomadores de crédito, permitindo que os spreads se mantenham elevados”. É só isso… ou melhor, tudo isso.

Nesta matéria, o economista-chefe da FEBRABAN, Rubens Sardenberg (irmão mais novo do famoso jornalista da CBN e da Globo Carlos Alberto) saiu-se bem ao dizer – de forma direta – que o cenário é incerto e que a queda da SELIC não significa que os spreads cairão. Gostei! Parabéns! Eu já disse isso aqui: os mercados financeiro e  segurador (em geral) tem que aprender a dar más notícias de forma transparente. Acho que é a mão do Fabio Barbosa na FEBRABAN, mudando o estilo da casa.

BB, CEF, BNDES, BNB e BASA – no embalo do COPOM e na necessidade de dar uma resposta à sociedade civil, o Presidente Lula reuniu seu alto comando econômico e os Presidentes dos bancos federais, para dar-lhes uma ordem: os bancos estatais tem que sair na frente na guerra pela redução dos juros e do spread bancário.

Já abordei este tema aqui. Juros não caem por decreto, nem no grito. Os executivos e gerentes desses bancos tem metas a cumprir – e bônus a receber pelo seu devido cumprimento. Outro ponto: depois, se esses bancos lucrarem menos que os privados, vão cair de pau neles dizendo que são mal administrados, que há corrupção, etc. Será que vão lembrar que foi o Big Boss que mandou?!

Anotem aí: os juros desses bancos só cairão pra valer se houver algum tipo de ordenamento jurídico adequado, tipo publicação no Diário Oficial, etc. Do contrário, farão uma redução cosmética apenas, só para agradar Lula.

Erro – voltando à reportagem do Valor, o jornalista foi na conversa de acadêmicos que insistem em “fatiar” o spread bancário, como se houvesse uma fórmula mágica para determiná-lo. A reportagem explica que o spread bancário é composto da seguinte forma:

  • 37,4% Inadimplência
  • 26,9% Resíduo liquído
  • 13,5% Custo administrativo
  • 10,5% Impostos diretos
  • 8,1% Tributos e taxas
  • 3,6% Custo do compulsório

A soma, se Deus quiser, dá 100%. Bonito, não?! Pois é, tão bonito quanto errado. Cansei de precificiar empréstimos – i.e. embutir spreads – pra cima e pra baixo única e exclusivamente por conta do que o mercado estava precificando. Ninguém fica fazendo conta “ah, vou cobrar mais 0,075% a.a. porque a inadimplência subiu 0,0009% este mês e precisamos compensar…”. Essas análises são feitas de trás pra frente e perdem a validade 1 segundo após serem publicados porque as condições de mercado mudam.

Ou alguém acha que quando a inadimplência cai, os bancos reduzem angelicalmente as taxas que cobram? E quando o BC liberou o compulsório, alguém baixou a taxa? Ou quando Itaú e Unibanco cortarem zilhões de reais em custos, após a fusão, irão reduzir o spread que cobram? É mercado! Esta análise serve para dar uma noção num determinado momento e olhe lá.

Enfim, boa sorte para todos nós – do meu lado, as empresa sobre as quais corro risco de crédito, precisam de mais linhas de crédito e mais baratas, do contrário elas não pagarão os meus clientes e eu tenho que indenizá-los. Dureza…

Abraços e uma ótima semana!

Fernando

Próxima Página »