Primeiramente, espero que todos os amigos deste Blog e do Blogueiro tenham tido uma excelente passagem de ano! E, só para reforçar, que tenhamos todos um 2009 venturoso!

As palavras eternas de Carlos Drummond de Andrade sugerem a importância de “fatiarmos o tempo”, para que possamos parar e refletir, repensar, reinventar. Bom conselho para estes tempos bicudos. Por outro lado, o lendário jornalista econômico Alberto Tamer escreve hoje sobre “O Ano que não Acabou”. Apesar de aparentemente confrontar o texto de Drummond, o de Tamer é igualmente sábio. Estou com uma estranha sensação que 2008 terá 24 meses – ou, pior, 36…

Enfim, rompi o ano em minha terra natal, o Principado de Santos, cercado da família e daqueles amigos que são mais família do que muitos parentes que temos por aí – valeu Rony e Simone! Pois foi lá em Santos que li em A Tribuna, tradicional e centenário diário local, a manchete “Vendas de Natal superam expectativas e animam os comerciantes”.

O comércio da baixada vendeu mais do que esperava e, aparentemente, mais do que a média nacional.

Com base nisto, um empresário afoito ou desavisado poderá até pensar: “Crise, que crise? Aqui em Santos o Lula acertou: é só marolinha”. O negócio é deletar este Blog do Crédito da lista de favoritos e reforçar estoques, investir na ampliação da loja ou,  por que não comprar uma concorrente?

Calma, muita calma! Será que este FATO (vendas maiores) se transformará em TENDÊNCIA (vendas continuamente maiores), ou será apenas uma OCORRÊNCIA PONTUAL? Para desvendar esse mistério – e isto é fundamental – para que o empresário possa tomar suas decisões estratégicas, existem dois caminhos:

  1. Consultar um economista, um analista de banco ou um acadêmico de primeira linha.
  2. Utilizar o seu Desconfiômetro Econômico, ou “Desconômico” para facilitar.

Bem, meus caros, faz bem pouco tempo que eu escrevi um artigo aqui esculhambando com a categoria dos “gurus econômicos” e suas projeções. Acho que eu mesmo me incluo nesta categoria. Então, sugiro que ninguém se baseie apenas e tão somente neste grupo de profissionais.

Por outro lado, tomar decisões complexas e importantes baseadas pura e tão somente no seu Desconômico não é um exercício tão simples. Precisa ter método e ele precisa estar muito bem calibrado. Em breve, escreverei mais sobre o processo de calibragem, mas neste post testarei o meu Desconômico pessoal sobre o momento econômico da minha tão querida Santos. Como?

Listarei as hipóteses para o crescimento registrado e testarei a consistência desses fatos à luz das perspectivas econômicas para 2009 (*):

  • Maior fluxo de turistas

É bem possível, pois a Cidade voltou a cair no gosto da classe média-família. Também é possível que a alta do dólar tenha empurrado mais turistas para cidades como Santos, pois os turistas sem bala de encarar o euro parisiense acabam por inflacionar os preços dos pacotes para o Nordeste e Mercosul.

  • Intensificação da migração de aposentados para a cidade

É verdade. A cidade é ótima para a terceira idade e este fluxo é notório. A renda é baixa (R$ 1.000 por familia), mas sempre ajuda.

  • O pré-boom do pré-sal

É fato que já tem gente vindo para Santos por conta das maravilhas do pré-sal. E muitas mais virão. E virão empresas de serviços também. A cidade tende a ‘explodir’ no futuro. Mas…o pré-sal será “pré” por um bom tempo por conta da crise de crédito. Se a Petrobras está tomando dinheiro caro na Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, é sinal que não haverá dinheiro sobrando para os massivos investimentos necessários para este projeto. Há que se ter paciência.

  • Maior fluxo de navios de turistas

Logo agora que estava virando moda… não tenho dúvida que esse tipo de turismo perderá clientes se a crise que se avizinha estacionar aqui no Brasil – como eu acho que acontecerá. Mas talvez o mercado de percursos mais curtos cresça e Santos se beneficie (e a Argentina, por exemplo, perca). O efeito para a cidade tende a ser neutro.

  • O porto de Santos teve um ótimo ano

Acho que nem foi tão ótimo assim, mas há várias obras viárias em andamento e investimentos retroportuários e isto agita a economia local. Mas se há um fato indiscutível é que o comércio mundial irá desacelerar muito nos próximos dois anos – a China já é prova disso! Exportaremos menos volume com preço menor, e importaremos menos porque a economia brasileira crescerá muito pouco. Portanto, parece-me certo que o Porto de Santos, o maior da América Latina, irá gerar menos riqueza em 2009.  Salvo se o governo federal usar a cabeça e investir pesado em infraestrutrutura portuária.

  • A indústria de Cubatão teve um ótimo ano

A indústria de Cubatão,  forte em fertilizantes, também não teve o seu melhor ano, mas não vejo nada de muito positivo acontecendo em 2009, pois o crédito será escasso e caro e isto irá brecar a economia como um todo. E mais: com o preço das commodities agrícolas em baixa, o consumo de fertilizantes despencou e não subirá tão cedo.

(*) as perspectivas econômicas que eu aplico nas minhas decisões empresariais são baseadas num conjunto de informações que eu vou continuamente obtendo. As fontes são as mais diversas e eventualmente mudam também. Em suma, há uma espécie de DNA 100% pessoal nisto, dado que nunca me baseio num guru ou fonte específicos. Acho que este é o jeito certo de se pensar.

Em suma, não vejo uma crise atingindo a economia santista, mas o bom Natal de 2008 não deverá significar um 2009 dos sonhos. As decisões empresariais, portanto, devem refletir este pensamento – na minha humilde opinião. Se considerarmos que o importante setor da construção civil santista está paradinho – por falta de crédito -, minha visão está reforçada.

Espero que este post, tipicamente bairrista (pois Santistas o são!), seja útil para o importante processo de ‘calibragem’ econômica.

Abraços e bom ano!

Fernando