“Não dá para o governo brasileiro investir bilhões, colocar dinheiro público para ajudar as empresas a saírem de dificuldades e elas continuarem demitindo. Ou essas empresas assumem o compromisso de não demitir ou o governo terá que refazer as linhas de financiamento”, disse Lupi.

Esta foi a reação do Ministro do Trabalho Carlos Lupi, veiculada em cadeia nacional ontem. Ele está errado tecnicamente, mas estará certo moralmente?

I. O Governo:

  1. Governo algum do mundo conseguiu minimizar os efeitos da crise, não obstante os enormes, complexos e abrangentes pacotes de salvação e/ou dinamização econômica.
  2. O nosso governo minimizou a importância de alguma coisa neste processo. Será que foi o tamanho da crise? Será que foi a velocidade com que esta chegaria por aqui? Será que foi com a própria vagareza que a máquina pública se mexe? Será que…etc.!
  3. Aí vem a questão política: “Mas nós emprestamos dinheiro público, abrimos mão de impostos, facilitamos isto e aquilo, e os empresários ainda demitem os trabalhadores! Assim não dá, assim não é possível”…

II. A ótica empresarial:

As dificuldades por que passam as empresas brasileiras, assim como uma eventual solução para tal, vão muito além do que possam sonhar eu, você, o governo todo, a mídia toda, etc.

Uma crise desta – por conta da peculiaridade da redução da oferta de crédito – gera uma DESORGANIZAÇÃO SISTÊMICA, que complica e limita sobremaneira os efeitos de qualquer tipo de ação microeconômica (e.g. reduzir o IPI dos carros, empréstimos de reservas do BC, etc.).

 Ou será que nossos empresários resolveram parar de vender? E de exportar! Ou será que eles é que resolveram parar de tomar crédito?

Olhem a nota abaixo, do Valor online de ontem:

Lupi quer vincular crédito oficial à manutenção de emprego

BRASÍLIA – O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, vai sugerir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que os bancos oficiais passem a exigir a manutenção de empregos como uma das condições para a liberação de crédito às empresas. Ele criticou duramente setores que receberam benefícios fiscais, como as montadoras de veículos, e mesmo assim estão demitindo. “O governo está dando isenções vultosas de impostos e abrindo investimentos para salvar algumas empresas, então não é justo que elas continuem demitindo”, disse Lupi.

Uma empresa padrão, neste momento, sofre dos seguintes males:

  • Falta de demanda
  • Excesso de estoques
  • Crédito reduzido e caro

Ou seja, a situação é tão dramática, que o fato do governo abrir os cofres dos bancos públicos para emprestar dinheiro a uma empresa com o perfil acima, não significa que isto irá resolver os problemas dela! Ajudar, isto a ajuda a não quebrar já…e só! Se a empresa não vai vender – porque o país parou – e não vai gerar caixa, ela tem de reduzir custos (todos!) e rápido, do contrário nem conseguirá pagar as linhas de crédito que acaba de obter do BB , CEF, BNDES, etc.

Aí, vem outra frase ‘complexa’ do ministro:

“Não é uma atitude inteligente do empresário, que obteve altos lucros nos últimos anos, não distribuiu esses lucros ao trabalhador, e agora penaliza o trabalhador”, prosseguiu o ministro.

Questão complicada, não é?! Por partes:

  • Não há governo do mundo que conseguiria analisar empresa por empresa, para determinar quais foram ‘gulosas’, quais foram ‘frugais’, etc.
  • Funcionamento do jogo capitalista: a empresa ganhou dinheiro em 2006, 07 e parte de 08; achava que o mundo continuaria cor-de-rosa (como dizia o Presidente Lula até outro dia); contratou mais gente;  investiu (e até se endivida por isso); distribui dividendos e participação nos resultados para executivos e funcionários conforme a lei permite, etc. Algum erro até aqui? Não.
  •  Aí vem uma crise, paralisa a economia mundial, falta crédito para a empresa e…ela quer reduzir custos, mas o governo acha que ela não pode demitir porque o governo a ajudou e…

Existe uma linha tênue entre o moral e o técnico, que eu deixo para cada refletir a respeito.

De qualquer forma, acho impossível que os bancos estatais possam incluir uma cláusula de “não-demissão” nos empréstimos que venha a fazer.

Querem outra visão sobre o tema? Abaixo texto do Gilberto Dimenstein, da Folha de SP.

O ministro e a mentira do emprego

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, transformou seu cargo, no ano passado, numa festa de boas notícias. Periodicamente, ele mostrava, orgulhoso, o aumento do emprego e seus recordes, como se fossem uma obra do governo –o que, significava, por tabela, também sua vitória pessoal. O que é, obviamente, uma ilusão de marketing.

A ilusão aparece agora quando diminuiu, para dizer o mínimo, a festa dos anúncios. Qual é agora a reação do ministro? Culpar as empresas. Ele defende que, em troca de apoio oficial, as empresas se comprometam a não demitir. O governo era responsável pela boa notícia, mas nada tem a ver com a má notícia.

Assim como as empresas não eram moralmente boas porque contratavam –fazem isso porque contratar significa mais lucros -, elas não demitem porque são “ruins”, mas apenas porque precisam balançar suas contas.

Uma das melhores posições que o governo poderia ter para garantir o emprego, além de gastar menos e melhor para reduzir impostos e sobrar mais recursos ao investimento, era defender a flexibilização das leis trabalhistas.

O que garante emprego é o crescimento econômico combinado com a melhoria da educação –e o que garante isso é o estímulo ao empreendedorismo e inovação. O resto é ilusão, como os anúncios do ministro.

Neste tipo de assunto, bravatas e ameaças sem fundamento lógico não resolvem. Acho que gerou-se muita tensão, para este que foi apenas o primeiro de uma série de más notícias que virão. Por outro lado, fontes do governo indicam que em março tudo será diferente. Por que? É que as medidas recém tomadas começarão a surtir efeito. Ou não.

Abraços, Fernando