A semana que se encerra foi quente aqui também. Meu primeiro comentário vai para a decisão do governo de capitalizar o BNDES em R$ 100 bilhões. O fato, que deveria ser óbvio e bem-vindo, foi, para minha surpresa, recebido com algumas pancadas pela imprensa e por “analistas”.

A Miriam Leitão postou “Governo não deveria se endividar para capitalizar o BNDES”, dizendo que “… O governo está transferindo dinheiro para o BNDES, que vai repassar às empresas sem estabelecimento claro de critérios. Esse dinheiro vai acabar parando no caixa das grandes empresas do país, que já tem acesso ao crédito, como Petrobras, Vale, e outras empresas do setor petroquímico e de commodities. Com taxas mais baratas, obviamente elas vão pegar dinheiro com o BNDES…

… Enquanto isso, as pequenas, micro e médias empresas continuarão sofrendo para ter acesso ao sistema bancário, que não está emprestando. São elas que estão estranguladas pela crise do crédito, não as grandes.”

Não entendi a bronca dela, francamente. As empresas – de todos os portes, nacionalidades, de setores e regiões – precisam de crédito, mais do que nunca. Ao longo da história creditícia deste país, cansei de ver empresa pequena sofrendo às custas das grandes que nadavam em dinheiro. Agora, não. Todas estão com o pires na mão.  Até os bancos.

Que as PME’s estão com pouco acesso ao crédito bancário, isto é claro. A Petrobras está com o mesmo problema, tanto é que foi parar na Caixa Econômica Federal (CEF). Agora, o dinheiro que vai para o BNDES não tem como financiar todas as PME’s do país, nem por decreto. Notem que dinheiro a CEF e o BB têm! Mas esses bancos federais não irão emprestar para todas as PME’s do país, pois lhes falta apetite de risco e capacidade de processamento de tantos pedidos de crédito.

…de qualquer forma, a problemática acima não teria, jamais, como solucionática os R$ 1oo bi que irão para o BNDES (copyright cultural: Dadá Maravilha, 1970)

E no Estadão de hoje o Leandro Modé assina “Política anticíclica é criticada”. A matéria cita críticas ao fato do governo federal incorrer num custo de perto de 12% a.a. (SELIC) para captar os recursos que serão repassados ao BNDES, sendo remunerado em apenas 7% pelo seu banco federal. Apesar de correta a análise, se olharmos friamente para os números, concluiremos que os juros que o BNDES cobra são subsidiados.

Minha opinião: Às favas com essa conversa! Se não fossem as linhas do BNDES e o custo mais baixo delas, hoje seríamos tão desenvolvidos como a Albânia. Vários ‘puristas’ (incluindo aqui amigos meus) acham que se os juros cobrados pelo BNDES fossem de mercado, o spread médio dos bancos privados cairia – duvido com fervor!

A matéria fecha com a questão do índice de Basiléia do BNDES, que estaria em folgados 22%, quando nosso BC determina um mínimo de 11% para os bancos. Mas não é esse o ponto. O BNDES precisa é de caixa para emprestar mais. Não precisa de capital para cumprir obrigações regulatórias. Diferentemente dos demais bancos, o BNDES não se financia através de emissões de CDB’s para clientes  fundações e não capta estruturalmente via mercado interbancário. Ele é, portanto, sólido demais. O problema aqui é caixa e só existe porque a demanda pelo seu crédito é alta demais! Tão óbvio, tão mal entendido.

O que ninguém abordou – o dinheiro do BNDES é BOM e NECESSÁRIO, porque é LONGO E MENOS CARO, mas leva muito tempo para ser desembolsado a partir do momento que é solicitado (entre 3 e 6 meses). Em tempos de liquidez, os bancões fazem um empréstimo-ponte e tudo se ajeita. Agora, não. É fundamental que o BNDES também ache uma forma de acelerar o seu processo interno de crédito.

Concluindo, essa discussão sobre o BNDES é bizantina, na minha ótica. Se até o Paul Krugman está dizendo que o déficit público é secundário, que a inflação é secundária,…, quem somos nós para esnobar a oportunidade de termos a ÚNICA fonte de crédito DECENTE do país emprestando mais R$ 100 bilhões?!

E eu acho também que, em 2009, o BNDES terá que renegociar muito repagamento de dívidas dos seus devedores, pois muitos deles estarão com o caixa curto e não encontrarão outras fontes de refinanciamento no mercado. Minha opinião: “c’est la vie”. São dias de crise sistêmica. Então, o BNDES deverá renegociar com tranquilidade, para não desestabilizar ainda mais o sistema produtivo.

Abraços, FB

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