É bom estar de volta ao Brasil. Foi uma semana legal, profissionalmente falando, em Paris. Mas passar o aniversário longe da família é muito triste.

[[ Cher Paco – lamento não haver te contatado aí na França, mas a agenda foi apertada demais – a la prochain!]]

No front internacional, as notícias não poderiam ser piores – ainda que mais ou menos esperadas por mim:

  1. A crise financeira bancária ainda não acabou. Bancos continuam a reconhecer enormes prejuízos e não têm capital ou apetite para empréstimos, encalhando cada vez mais a já encalhada economia real. E como reportei de Paris, ninguém se atreve a dizer qual é a saída para o problema dos bancos internacionais.
  2. A China formalizou que foi fortemente impactada pela crise. As exportações caíram e, mais emblematicamente, suas importações caíram d-e-m-a-i-s! Perto de 40% no último bimestre do ano (’08 vs ’07). “E são milhares de fábricas fechadas, funcionários demitidos ‘deportados’ de volta para o campo, dezenas de cidades-fantasmas”: palavras de um alto executivo de uma multinacional do setor eletro-eletrônico com quem estive em Paris.

A conclusão desses fatos são as seguintes:

  • O sistema financeiro dos países centrais do capitalismo financeiro perdeu dinheiro demais para que possa se recuperar, pelas próprias pernas, em poucos anos – é coisa para décadas. A saída, parece-me óbvio, será a nacionalização do sistema.  As pessoas não confiam em depositar nesses bancos, preferindo títulos públicos; os bancos não confiam uns nos outros; os bancos têm pouco capital para emprestar; os bancos não têm coragem de se arriscar, emprestando em tempos de recessão. Então, cabe ao governo assumir este papel, via bancos, garantindo depósitos (para que os depositantes retomem a confiança nos bancos privados) e garantindo os empréstimos (para que os banqueiros retomem a coragem de emprestar) (*).
  • China: ninguém sai da Idade Média para a era do Capitalismo Financeiro Acelerado através de decretos autoritários…e tudo bem. Isto é a China. E não está “tudo bem”. O mundo não tem dinheiro para comprar o que os chineses se estruturaram para vender; eu ouvi de muitos executivos europeus e americanos sobre a dificuldade de se fazer negócio com os chineses, os riscos altíssimos que correm nas “parcerias” com o governo local, etc. – acreditem, ninguém lá fora morre de amores pelos chineses. E como o desemprego impera na Europa e nos EUA, a ordem é empregar europeus e americanos…e não chineses. E os quase USD 600 bi que o governo chinês prometeu investir em infraestrutura para aquecer a economia doméstica? Chame-o de PAC Chinês e o resultado será igual ao do Brasil.

(*) não estou sugerindo socialização do prejuízo! Pesadas punições a executivos que quebraram seus bancos e para seus acionistas que patrocinaram a festança devem ser instaladas. Bom exemplo foi dado pela França, com governo e bancos fechando um acordo que elimina os bônus a ser pagos a executivos de bancos que recebem ajuda governamental – em outras palavras, o dinheiro do contribuinte não será utilizado para remunerar executivo de banco.

E o Brasil com isso?

O volume de linhas de crédito para o Brasil – em volumes decentes – levará uma década para se normalizar: a prioridade dos bancos locais (dos EUA, da Europa, do Japão) será emprestar para seus cidadãos e não para clientes do mundo emergente. Isto significa maior lentidão para a nossa retomada econômica, que virá, é lógico, mas que virá mais lentamente.

E se você depende da China para fornecimento e/ou vendas, coloque suas barbas de molho, pois o sentimento de grandes economistas e empresários é que o gigante do oriente não será mais o mesmo. O risco de crédito por lá já aumentou! Os números da Coface confirmam. Em outras palavras:

  • Você poderá vender, entregar e não receber.
  • Você poderá comprar e não receber a mercadoria.

E como agora ninguém mais tem dúvida de que o Brasil não está descolado dos dramas lá de fora, é bom que reflitamos sobre esses fatos.

Abraços e até mais tarde, com a análise “doméstica” desta semana interessantíssima!

Fernando